Esta tarde, acesso à ponte 25 de Abril, sentido Almada-Lisboa.
Um veículo entra por lapso no corredor da Via Verde. Apercebendo-se disso ainda a distância considerável da portagem, o condutor tenta desviar para a faixa à sua direita, destinada às viaturas que não estão habilitadas com Via Verde ou Via Card.
Pensa, com alguma lógica, que por estarmos num sábado, este ser o fim de semana mais longo do ano (os relógios atrasam de madrugada, entrando no horário de Inverno) e a temperatura se manter mais amena do que em muitos dias de Verão não faltará uma alma benévola que lhe dispense uns metros de asfalto durante escassos segundos, tanto quanto necessita para aceder à rota da portagem.
Engana-se. Por gestos pede, roga, implora – sem sucesso.
Todos parecem ter demasiada pressa para lhe ceder lugar. Até que um matulão de palito ao canto da boca, conduzindo uma furgoneta, esboça um sinal equívoco que parece convidá-lo a entrar na fila.
Está no entanto apenas a divertir-se à sua custa: quando o automóvel se encaminha para ocupar o espaço momentaneamente vazio, a furgoneta acelera de repente e o matulão ri-se, fazendo-lhe um gesto obsceno.
Colado à traseira da furgoneta, sem conservar a elementar distância de segurança, segue um táxi. “Queres entrar, meu cabrão? Arreda lá para trás!”, atira o fogareiro, dedo indicador espetado à retaguarda, esticando a cabeça para fora da janela.
Tudo acontece num instante: entusiasmado com o som da própria voz, o fogareiro deixa embater com estrondo o táxi na furgoneta imobilizada logo adiante. O matulão não tarda a sair para avaliar os estragos, sempre de palito nos beiços, e lá ficam ambos a discutir. Abrindo assim espaço, involuntariamente, para que o primeiro condutor aceda enfim à fila da portagem. Acabaram ambos por consumir ali largos minutos, no mínimo, quando não queriam desperdiçar uns segundos…
Testemunha incidental deste episódio, pus-me a reflectir uma vez mais sobre a falta dos mais elementares gestos de cortesia dos portugueses ao volante. Quantos daqueles que não permitiram passagem ao automóvel se indignariam com isso se as posições se invertessem? Quantos deles não se queixarão por vivermos numa sociedade onde são cada vez mais raros os pequenos gestos de tolerância cívica? E quantos não apregoarão a solidariedade em abstracto, mostrando-se incapazes de ser solidários nas mais ínfimas situações concretas?

Na estrada como na vida!

Sim, Sophie. Neste caso a estrada como perfeita metáfora da vida.
(Parabéns pelo seu blogue, de que gosto muito)
Fico contente!
Obrigada
Uma forma infalível de medir o civismo de um povo é pela forma como se comporta ao volante. Não falha.
São os pequenos gestos para com os outros que marcam a diferença e medem as distâncias, e nisso seja ao volante, seja na rua, seja no local de trabalho, a nossa relação com os nossos semelhantes é de puro egoísmo. Demorei a perceber a dimensão da coisa, muitos estrangeiros me afiançavam que um dos nossos maiores defeitos é o egoísmo. É mesmo. Este post é um perfeito reflexo. Infelizmente.
Não resisti a partilhar esta história, que testemunhei. É bem verdade, André: o grau de civismo de um povo avalia-se muito pela forma como se comporta ao volante. Nós, portugueses, chumbamos por sistema neste teste – às vezes da forma mais estúpida, como ocorreu no episódio que relato. Outras vezes de modo irresponsável, como ilustra a manchete de hoje do ‘Jornal de Notícias’: “Um quarto dos portugueses já conduziu alcoolizado”. e/Interior.aspx?content_id=4203086
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Sociedad
É mesmo Pedro.
Lá outra vez, nessa notícia do JN, o nosso egoísmo: “Ah e tal mim apetece-me um copo, vou conduzir, mas quero lá saber…” Não pensam nos outros.
É por coisas destas que eu tenho um grande prazer em distribuir sorrisos e bons dias 😀
Não custa nada, julgo eu. Mas para algumas pessoas parece pesar toneladas.
Caro Pedro Correia,
Voce e muito restritivo. Acha mesmo que e so ao volante?
Claro que não. Mas o modo como as pessoas se comportam ao volante é bem sintomática.
Não.
Não é só ao volante;
Não. Também é no passeio público, que a maioria não sabe caminhar.
Não, também é nas filas do supermercado e nas gasolineiras, ou quando passeia o cachorrinho.
E até quando deixa o lixo à porta do vizinho, quando o caixote do lixo fica a 50metros.