Portugal e o mundo cinco anos depois


Pedro Correia,

Não sei se muita gente tem também este hábito: gosto de guardar jornais para mais tarde os confrontar com os efeitos da passagem do tempo.

Esta manhã, por coincidência, peguei num exemplar do Público datado de 12 de Outubro de 2008. Faz hoje precisamente cinco anos. E dei por mim a folheá-lo como se tivesse acabado de adquiri-lo numa banca.

A manchete situa-nos num facto concreto, no tempo e no espaço, que ainda hoje influencia — e de que maneira — o nosso quotidiano. Vivíamos as primeiras etapas visíveis da gravíssima crise em que permanecemos mergulhados e os políticos ensaiavam soluções de desfecho incerto. Incluindo a que surge estampada no título principal desta edição: “Europa e EUA nacionalizam bancos para sossegar bolsas”.

Era um domingo, véspera de um encontro de emergência dos líderes da zona euro, a decorrer em Paris, enquanto no outro lado do Atlântico a General Motors e a Chrysler estudavam a possibilidade de uma fusão para sobreviver à pior crise do mercado automóvel em década e meia.

A ministra francesa das Finanças, uma tal de Christine Lagarde, admitia que os Estados europeus entrassem “ainda mais no capital dos bancos que se encontrem descapitalizados”. Bem sabemos, à escala portuguesa, onde nos conduziu esta via, justificada para travar os cenários de colapso do sistema financeiro…

 

Não foi por falta de aviso para quem sabia interpretar os sinais dos tempos.

Na contracapa, Vasco Pulido Valente punha em causa a prioridade legislativa à agenda de costumes então muito em voga: “Na Assembleia da República, a esquerda e a direita tratam, com toda a seriedade, do casamento de homossexuais. Concordo inteiramente que a lei aprove o casamento de homossexuais. Mas, com o Ocidente à beira da falência, já para não falar de Portugal, essa não parece a prioridade do dia. (…) Talvez não fosse inútil imaginar como acabaria o País se a recessão americana (hoje inevitável) durasse, por exemplo, meia dúzia de anos; se a ‘Europa’ se desintegrasse ou enfraquecesse; ou se a esquerda e a direita voltassem, por força da necessidade, às nacionalizações de 1975. Compreendo que estas coisas deprimem e que, pelo contrário, o casamento de homossexuais puxa muito mais pela parlapatice.”

Pulido Valente, com uma sagacidade imutável, pregava em vão. Porque Portugal parecia imune aos ventos da história. Uma investigação feita pelo jornalista Ricardo Dias Felner ao obscuro mundo das despesas do Estado feitas por ajuste directo, decorrente das alterações à lei da contratação pública, permitia concluir os mais desvairados gastos: “O gabinete de Sócrates reforçou a adega com sete mil euros em garrafas de vinho. O Ministério da Justiça comprou oito carpetes por 22 mil euros.” Serviços de restauração, no âmbito de eventos camarários, equivalentes a quase 70 mil euros. Aluguer de “vários autocarros” pelo município de Gondomar: 33.250 euros. Cachê gasto pela câmara de Lagoa aos Da Weasel: 28.200 euros. Actuação de Rui Veloso a convite da autarquia de Elvas: 28.600 euros.

Especificava-se que as garrafas de vinho remetidas ao gabinete do primeiro-ministro eram da marca Quinta do Vale Meão, tinto, colheita de 2006, e destinavam-se a “oferta a entidades estrangeiras”.

 

 

No estrangeiro, registava-se a morte de Joerg Haider, líder da direita nacionalista austríaca, ao volante de um veículo em excesso de velocidade. Sarah Palin, candidata à vice-presidência dos Estados Unidos por designação do republicano John McCain, enfrentava acusações de abuso de poder quando exercera funções de governadora do Alasca. O Público concedia-lhe foto a duas colunas, na primeira página. E questionava os leitores em título da página 2, dedicado à campanha eleitoral em curso nos EUA: “Abuso de poder de Palin é ferida mortal para John McCain?”

A imagem de McCain com o candidato democrata Barack Obama permite concluir que o actual inquilino da Casa Branca envelheceu bastante nestes cinco anos. McCain permanece no Senado. De Palin, estrela cadente, pouco ou nada se tem ouvido.

 

Há um anúncio de página inteira em que o Público felicita o primeiro aniversário de um jornal gratuito chamado Sexta. Vivia-se nessa época a febre dos “gratuitos”, concebidos à semelhança dos folhetos de supermercado. Uma febre tão efémera quanto nefasta para o verdadeiro jornalismo.

Deste Sexta, confesso, não guardo qualquer memória. Mas a festa de aniversário deve ter sido de arromba. Embora menos dispensiosa do que a passagem de Marco Paulo, um verdadeiro artista português, pelo concelho de Lagoa, a expensas do contribuinte, pela módica quantia de 20.400 euros.

Notícias como esta, lidas à distância de cinco anos, ajudam a explicar o estado a que Portugal chegou.

 

E que mais?

Paulo Bento, na pele de técnico principal do Sporting, insurge-se contra as críticas, queixando-se da “pressão exterior”, com o seguinte desabafo: “Toda a gente percebe de futebol menos o treinador”. Isto enquanto o Presidente Cavaco Silva, supremo treinador do reino, evocava o “espírito” de Aljubarrota para enfrentar as “adversídades” do presente.

Cinco anos depois, há coisas que não mudam.

14 comentários em “Portugal e o mundo cinco anos depois”

  1. Caro Pedro,

    Foi mera coincidência, e sendo eu colaborador da imprensa regional, há mais de 20 anos, no tempo da máquina de escrever, também dei por mim, hoje, após o almoço, a por em ordem alguns jornais, mormente o Diário de Coimbra, no qual colaboro.
    Nessa onde de arrumar e ordenar, encontrei apontamentos de um passado recente dos mais diversos acontecimentos e promessas, que se esfumaram com o passar dos anos, da minha Vila.
    Tanto latim em favor de causas e projectos, tanta paixão, não correspondida, num amor cego pelo meu torrão natal.
    “Cinco anos depois, há coisas que não mudam.” – Subscrevo.

    1. É isso, Fernando. Os jornais ocupam-nos muito espaço em casa, mas vale a pena conservarmos alguns deles para os revisitarmos. E podermos verificar como muito do que nos parecia absoluto era afinal relativo e percebermos aquilo que fica realmente no meio da poeira que passa.
      Achei graça à coincidência. Os blogues acabam por servir também para estabelecer estas pontes, afinal.
      Um abraço.

  2. Caro Fernando Torres

    Ao mencionar o Diário de Coimbra, vieram-me as lágrimas aos olhos…
    Ao lembrar-me da Arregaça onde nasci e fui criado.
    Arregaça que há dias visitei… Que miséria! Mais parece uma rua bombardeada por um SCUD de incúria… Casas a cair de podre e uma Fabrica ( Porcelana de Coimbra) totalmente abandonada e ao dispor do vandalismo… Pobre miséria!
    Por favor, faça uma reportagem sobre a velha Arregaça.

    Saudações e felicidades.

    1. Caro Amendes,

      Não sou desse tempo, nem nunca vivo em Coimbra.
      No entanto, entendo a sua angústia, a sua tristeza, quiçá alguma da sua e minha impotência ao ver a nossa Coimbra sem o brilho de outrora.
      Ainda trabalhei no velho café Nicola, com a paragem dos autocarros quase em frente, onde por volta das 5 horas, desciam do trólei-carro, o 5, as senhoras para o chá e torrada no pisos de cima desse café.
      Quanto ao seu pedido, vou fazer sentir isso ao jornalistas.
      Sou apenas um singelo colaborador.
      Obrigado pelo seu comentário.

    1. Boa opinião, reportagem, cultura, notícias próprias, escrita de qualidade: um jornal que não aposte nisto está condenado ao fracasso. Durante muitos anos o ‘Público’ apostou. Mereceu o título de melhor diário português por isso.

  3. Eu gostava era de saber quantos processos em tribunal já foram anunciados durante esses cinco anos, quantos chegaram a ir a julgamento e quantos transitaram em julgado.

  4. Torna-se evidente a clarividência dos políticos – que era a que se esperava.
    Falando de coisas mais interessantes: “Cachê”. A que propósito deixamos de escrever “cachet”? Os ingleses não sentem qualquer necessidade em “inglesarem” o termo e a nossa tradição também não é essa, talvez por sermos cosmopolitas. A verdade é que há palavras internacionais que nunca vão ser traduzidas.
    Ou escrevemos honorários, salário, ou, se não escrevemos e queremos usar “cachet” porque é que vamos desfigurar uma palavra? Aliás hoje em dias há dezenas, centenas, de palavras mundiais. Escrevemos Windows, Janelas ou Uindôs? Windows, não é? Venha de lá o meu cachet de comentarista!

    1. Uma das muitas originalidades portuguesas é haver sempre alguém disponível para defender a escrita em grafias estrangeiras sem aguardar reciprocidade. É verdade que os ingleses adoptaram o nosso vocábulo ‘varanda’ mas passaram a grafá-lo ‘veranda’, adoptando-o à oralidade específica dos súbditos de Sua Majestade. O mesmo aconteceu à nossa ‘garoupa’, que passou a ‘grouper’ em inglês.
      Você é dos que se mantêm aferrados à grafia original. Presumo portanto que em vez do portuguesíssimo bife prefere um ‘beef’ e nunca vai ao futebol mas ao ‘football’. E, se tiver pilim para tanto, navega de ‘yacht’, não de iate.
      Assim é tudo mais chique. Perdão, ‘plus chic’.

  5. «De Palin, estrela cadente, pouco ou nada se tem ouvido.»

    Na verdade, caro Pedro, Sarah Palin continua a ser uma estrela permanente (nada teve, e tem, de cadente) nos EUA. Continua muito – e bem – activa contra os democratas gastadores, intolerantes e irresponsáveis, a começar pelo actual (p)residente na Casa Branca. A comunicação social portuguesa não faz por «ouvi-la»… mas isso não é, infelizmente, de estranhar, já que ela personifica tudo o que é «politicamente (e socialmente, e culturalmente) incorrecto».

    1. Admito que sim, caro Octávio, no plano interno norte-americano. Mas deixou de ser a estrela fulgurante que era há cinco anos na imprensa internacional (julgo que neste caso a imprensa portuguesa não andará longe da restante). Mas toca numa questão que me é cara: o crescente desinteresse dos ‘media’ portugueses pelos assuntos internacionais, algo paradoxal num momento em que Portugal nunca esteve tão dependente do estrangeiro.
      As “notícias do mundo”, como gostam de proclamar solenemente as nossas televisões, só recebem honras de antena em caso de catástrofe natural, atentado bombista ou casamento de alguma princesa.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *