Portugal combate o Estado islâmico.


Luís Menezes Leitão,

Há muito que acho que o combate ao Estado islâmico é para levar a sério. Tão a sério que nem preciso de acrescentar eufemisticamente o “autoproclamado“, como se todos os Estados não fossem autoproclamados até outro país os reconhecer. Trata-se de um Estado terrorista, que demonstra uma crueldade monstruosa contra os desgraçados que têm o azar de cair nas suas garras. Mas o mais grave é que tem um forte potencial para funcionar como elemento agregador do terrorismo islâmico a nível mundial, como se viu na Nigéria, onde o Boko Haram já lhes prestou vassalagem. O Ocidente deveria estar por isso a preparar uma coligação de ataque a esse novo Estado terrorista antes que ele se torne ainda mais forte do que já é.

 

Dito isto, parece-me absolutamente ridícula a iniciativa do Ministro da Defesa, que decidiu com pompa e circunstância mandar 30 militares para combater o referido Estado islâmico. Aliás, “combater” é outro eufemismo pois o que os militares vão fazer é apenas “dar formação e treino” aos militares iraquianos, os quais irão, esses sim, combater sozinhos os terroristas islâmicos. A eficácia da medida é aliás salientada pelo Ministro da Defesa que nos esclarece que “quando fazemos formação e treino estamos a reforçar a capacidade das forças“. Só que o avião que deveria levar esses militares ao Iraque nem sequer chegou a partir por problemas técnicos. Espero bem que esses problemas técnicos não se repitam se por acaso o novo califado instituído pelo referido Estado islâmico decidisse invadir Portugal. Afinal não seria nada de diferente do que o califado islâmico original fez no séc. VII.

 

Em qualquer caso, esta iniciativa de combater o Estado Islâmico com trinta militares, não em formação, mas a dar formação, só me fez lembrar Eça de Queiroz, que há mais de um século já muito bem definia o estilo português. Como bem dizia a personagem principal de O Mandarim, aquele Teodoro, bacharel e amanuense do Ministério do Reino, que queria substituir o mandarim Ti Chin-Fu, apesar de apenas saber dizer “chá” em chinês: “E todavia, general, no meu país, quando, a propósito de Macau, se fala do Império Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e dizem negligentemente: «Mandamos lá cinquenta homens, e varremos a China»“.

0 comentários em “Portugal combate o Estado islâmico.”

  1. Sim, concordo. Isto não passa de show off à portuguesa.

    Mas discordo de outros pontos de vista. Vou colocar questões e responder para me explicar.

    Sabe a razão porque os israelitas usam os bombardeamentos à distância para combater os seus vizinhos e primos palestinianos?
    Porque sabem que se colocarem homens e mulheres em terreno deles são comidos.
    Se extrapolar este princípio para o terreno em apreço verificará que o resultado será o mesmo.

    Deixe-me agora referir o seguinte:
    Uma formação de guerrilha não se constitui para vencer uma guerra no imediato e nem tampouco para vencer uma formação militar convencional: terra, mar e ar.
    Uma formação de guerrilha constitui-se para minar as bases de uma sociedade e paulatinamente chamar a si a adesão das populações. Deixe-me dizer-lhe que este último aspecto, o de levar as populações a aderir à causa destes movimentos, tem sido um trabalho muito bem feito por norte-americanos (em particular por Bush filho), por ingleses, alemães e franceses (recordo-me dos financiamentos e dos incentivos dados à guerra Iraque/Irão) e também pelo apoio dado às nomenclaturas da região, sem esquecer as políticas suicidas nos territórios palestinianos.
    Isto que refiro não é uma opinião, é um conceito.

    Compreenda que a guerra é política com sangue, isto é, é um prolongamento da política.
    Em cada etapa das civilizações, na mudança destas, surgem sempre guerras. O fim da guerra fria não marca somente o fim desta. Este fim marca a entrada na era do conhecimento (das comunicações e/ou tecnotrónica). E com esta entrada inicia-se uma nova guerra mundial que leva por nome guerra contra o terrorismo.
    Esta guerra não nos indica de forma alguma que o terror só agora tenha ocorrido, ele sempre esteve aí. O que nos indica é que os alicerces civilizacionais se mantêm aquém desta era do conhecimento.
    Traduzindo: A nossa estrutura mental, não obstante a capacidade de sonharmos, está ordenada segundo critérios cronológico-sociais, isto é, o desenvolvimento do conhecimento tem um ritmo mais elevado que a nossa capacidade em o acompanhar.
    Desta nossa incapacidade em acompanhar este tempo resulta o medo, a dificuldade em compreender e aceitar o estranho.
    É precisamente aqui que reside a causa dos conflitos. Isto é, pretender impor ao outro um modelo que nos é próprio e reflectindo em simultâneo nossa incapacidade em absorver o que nos é estranho.
    Significa isto que do medo que ambos sentem resultam os conflitos. Claro está que é necessário acrescentar os interesses materiais e estratégicos que lhe subjazem, mas não é este o mote.

    Não nos admiremos, portanto, que 99,5% das guerras em curso sejam guerras civis. Estas guerras civis já são o bordado da era pós-indústria. Isto é, com a substituição do músculo (Homem) pela computação e robótica marcar-se-á de forma decisiva a existência de uma guerra em outra escala, diferentemente das guerras civis, para que os sistemas ganhem tempo de se reciclar.

    Não se esqueça que a II guerra mundial começou por ser uma guerra civil europeia.
    O PITAGORISMO NÃO PODE REDUZIR À ESSÊNCIA O QUE É HUMANO. Significa isto que não se pode reduzir o que é uma crise cultural e política a uma dimensão económico-financeira.

    Poderia avançar muito mais, mas concluo dizendo-lhe que parte de pressupostos errados para defender o que está errado. Se se continuarem a combater as consequências e não as causas podemos, então, desistir da vida e do planeta.

    1. Permita que acrescente que existem outros três grandes vectores que não vêem como factor de segurança a permanência de uma coligação nesse território: Rússia, Irão e Turquia.

      Putin, antes da visita de Merkel para a celebração da vitória em Moscovo, teve oportunidade de dizer que a América não conseguiria esse mundo unipolar que pretendeu edificar.
      Muito antes, há cerca de 3 semanas, Putin concentrou algumas divisões junto à fronteira da Ucrânia. E Kerry já se desloca a Moscovo.
      A última novidade surge com o sucesso da Coreia do Norte no teste de um míssil que pode ser lançado de um submarino.
      Quero com isto dizer-lhe que os dados estão lançados. Compete-nos saber travá-los.

      Para ter uma ideia desta deriva em que andamos recordo-lhe a situação da Grécia. Andam por aí com joguinhos de palavras para se acabar no que todos neste momento já sabem: ou a Grécia é ajudada ou a Europa enfraquece definitivamente e fica nas mãos com um guarda-chuva roto.

      O médio oriente não é só o terror que hoje se vive por lá, mas todo o terror e dor infligidos ao longo de séculos.
      A solução é uma boa política. Se não existir uma boa política existirá uma grande catástrofe.

      http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/04/150423_eua_criacao_ei_fn

  2. Este apoio as politicas anglosaxonicas feito a nossa escala (miseravel) pode trazer mais prejuizo que vanatagem.
    A posição alemâ – que julgo ser a unica eficiente para a UE, de ir a Moscovo e participar na historica comemoração em contraciclo com as posições de USA e os caezinhos amestrados espalhados por toda a UE, mostra como devemos levar a sério o perigo de andar a espalhar terrorismo e apoiar terroristas na velha pratica de anglosaxonicos e russos. Mostra com frontalidade que criticamos e temos moralidade para o fazer, mas não embarcamos nem por omissão como fazem muitos dos crapulas politicos de paises da UE( e os nossos?)

  3. Qualquer pessoa minimamente atenta preveria que a saída de efectivos militares do Iraque levaria ao aparecimento de facções armadas contra o imposto governo iraquiano.

    Já parece ter explicação mais difícil que os EUA tivessem deixado terreno livre para o crescimento de um exército organizado num grande território, ao mesmo tempo que colocavam drones implacáveis na vigilância desde o Afeganistão/Paquistão até ao Iémen.

    Antes, o argumento usado sobre a Al-Qaeda consistia na descentralização e dificuldade de atingir um centro disperso.
    Agora, temos o E.I. centralizado, com um território bem identificado.
    As dificuldades mantêm-se, com razões opostas.

    Por isso, o que é invariante é a sistemática incompetência para resolver o problema, manifeste-se ele duma forma ou doutra.

    A pretensa ajuda nacional, com um efectivo de 30 homens, só ajuda a contar a anedota de incompetência internacional generalizada, muito bem descrita neste post.

    Ora, uma coisa é bem conhecida:
    – a incompetência caminha de mãos dadas com a corrupção.
    Por isso, desde a invasão cega do Iraque, ao crescimento do E.I., mais do que sintomas de um problema, vemos sintomas da vontade persistente de nunca o resolver.

    Tal como acontece com a Palestina há décadas, parece impor-se uma vontade sinistra de deixar feridas abertas, ou infectá-las ainda mais.

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