Não é um fenómeno novo. Há muito que se se sabe que um acto aparvalhado tem em si mesmo um potencial incalculável de gerar efeitos que replicam a parvoíce de forma exponencial. Veja-se o exemplo que hoje nos dá o sacerdote católico Portocarrero. Há não muito tempo, afirmou o santo homem num texto notável:
Aos cruzados do anti-catolicismo militante e aos modernos inquisidores, que continuamente julgam e condenam a Igreja pela sua história, não se podem pedir as virtudes cristãs da caridade ou do perdão para os pecados dos fiéis pretéritos. Mas deve-se-lhes exigir a justiça de não julgar o passado à luz do presente, nem culpabilizar os cristãos do terceiro milénio pelos erros dos cruzados, ou pelos excessos dos inquisidores. A cada homem e geração bastam-lhe as suas próprias faltas.
Hoje, pouco mais de cinco meses depois, e a propósito do já celebérrimo cartaz do Bloco de Esquerda, este escravo da virtude avança com não menos profundidade:
Não obstante os nossos brandos costumes, é bom recordar que os jesuítas foram expulsos de Portugal no século XVIII, pelo Marquês de Pombal; que, no século XIX, não só eles mas também todas as outras ordens religiosas foram extintas pelo liberalismo jacobino; e que, no século XX, voltaram a ser perseguidos todos os religiosos, bem como todos os bispos e padres do clero secular, pela primeira república. No século XXI, será que o Bloco de Esquerda dará continuidade a esta ignominiosa tradição?!
Ou seja, para o bom padre os cristãos não podem ser julgados pelas faltas praticadas pelas gerações de cristãos que os precederam. Em contrapartida, os cartazes dos pataratas do Bloco de Esquerda podem e devem ser avaliados tendo em conta os actos praticados pelo Marquês de Pombal.
Podem ser pataratas mas conseguiram que o Bloco fosse muito falado e o seu nome propalado. Vejam-se as redes sociais, o Expresso etc. Não se fala noutra coisa. Não é fácil conseguir isso. Eles conseguiram. Isso traz-lhes vantagens ou desvantagens políticas e eleitorais? Quem não gosta do Bloco diz que se enterraram, quem gosta diz o contrário. Mas não há nenhum estudo científico ou sondagem que nos permita concluir com segurança se esta propaganda os prejudicou ou beneficiou. Eu, por feitio, não gosto de falar de cor. Portanto estou na dúvida (metódica).
Suponho então que devemos dar os parabéns a Donald Trump pela sua campanha. Afinal de contas, as barbaridades que defende estão a dar-lhe visibilidade e resultados.
Claro! Se o que ele está a fazer der votos e for eleito pode dizer-se que foi bem sucedido. Dar-lhe os parabéns é outra coisa: quem estiver em desacordo com as ideias dele só pode lamentar que ele tenha sido tão inteligente na campanha. Quem concordar acho que pode dar os parabéns.
Tá bem, tá.
O patareco está feito com os liricos do BE; para se dar ao trabalho de replicar estava com falta de assunto.
É uma questão pavloviana.
Como estou a beber um cafezinho, em vez da questão pavloviana, o que vinha mesmo a calhar… era uma fatia de Pavlova 😉
Isso é que é falar.
Eu patareco, mas ganhador, me confesso etc. etc.
Pois.
O que mais me indignou no cartaz foi o relevo e a divulgação que lhe deram as pessoas da Igreja, padres e leigos, que assumiram “pataratamente” a sua militância… e até Bispos… O BE deve estar a rir do êxito…
Há uma diferença substancial que, parece-me, o RR está a ignorar: nenhum católico (tirando uns lelés da cuca) se revê nas cruzadas, na inquisição ou na abjuração de Galileu; já todos os BE’ (creio) aprovam a expulsão dos jesuítas, a extinção das ordens religiosas e o anti-clericalismo das duas repúblicas ibéricas (é só ver a alcaidesa de Madrid a remover das calles os nomes de freiras mortas durante a Guerra Civil). É uma diferença, e não me parece curta.