Ponto final


Sérgio de Almeida Correia,

Depois de ter afirmado que a minha posição sobre a greve era um “longo Avé-Maria da resignação, do fatalismo, do come e cala, do dobra a espinha, (…) etc. e tal” (sic), e de me propor para uma comenda, Vítor Dias, talvez por ter dificuldade em imaginar que há quem não faça fretes, o melhor que encontrou para me dizer, em resposta ao que aqui escrevi, foi (com sublinhados meus) que não me viu “escrever nenhum post sobre o anúncio do despedimento pelo governo britânico de meio milhão de trabalhadores públicos, não sendo anunciadas nenhumas medidas de acompanhamento e transição para actividades por conta própria que foram anunciadas em Cuba e não sendo a Grã-Bretanha um país, onde ao contrário do que, quanto a mim, com notável atraso se reconheceu em Cuba, não se verifica uma manifestamente excessiva estatização do mercado de trabalho“.

 

Não tenho qualquer interesse em polemizar com Vítor Dias, e muito embora tenham acabado os comentários aos meus posts, não quis deixar de aqui trazer esta posição de um destacado blogger e comunista e dizer mais duas palavras antes de colocar um ponto final.

 

1 – Eu só escrevo sobre aquilo que quero. Não estou ao serviço de nenhum partido, ideologia ou dirigente e não temo os editoriais ou os articulistas do Avante, as manifestações da CGTP ou os poderes instituídos. Eu escolhi a liberdade e apenas escrevi algumas linhas sobre Cuba em função das palavras que Vítor Dias entendeu dirigir-me – é insultuoso propor uma comenda para um tipo como eu – e não vejo porque teria de escrever sobre os despedimentos na Grã-Bretanha ou as medidas de um governo conservador do qual sou tão admirador quanto já era do seu antecessor, do de Tony Blair ou do de Raul Castro. 

 

2 – Compreendo a incomodidade de Vítor Dias e dos seus iluminados camaradas quanto ao que se está a passar em Cuba e não posso deixar de registar que, de acordo com o que ele escreve, se as medidas do governo conservador britânico fossem acompanhadas de outras idênticas às tomadas em Cuba, que Vítor Dias eufemisticamente designa como “de acompanhamento e transição para actividades por conta própria“, os despedimentos no Reino Unido seriam aceitáveis. Talvez esteja aqui a receita que faltava a Teixeira dos Santos e de que Paulo Portas ainda não se tinha lembrado. 

 

3 –  Registo que para Vítor Dias existia uma “manifestamente excessiva estatização do mercado de trabalho” em Cuba, o que ele verificou antes do Partido Comunista de Cuba ter dado por isso, sendo portanto legítimo admitir que o mesmo se verificaria na ex-União Soviética, na Roménia de Ceausescu ou na actual Coreia do Norte.

 

4 – Verifico, constrangido, que Vítor Dias, apesar de ter apoiado a greve geral de 24 de Novembro, implicitamente, está de acordo com as medidas que têm vindo a ser tomadas pelo governo de José Sócrates, designadamente quando este aprova medidas de combate ao desemprego e fomenta o empreendedorismo em tempos de crise (aquele assessor de uma vereadora da Câmara de Lisboa que recebeu um subsídio para criar quatro postos de trabalho que o diga), conceito que deverá ter a sua génese nas tais “medidas de acompanhamento e transição para actividades por conta própria” de que o governo cubano foi o pioneiro.

 

5 – Por fim, gostaria de dizer a Vítor Dias que se por acaso houver um dia uma triste alma do “bloco central” que me queira atribuir uma comenda, tomarei a iniciativa de propor o seu nome, em alternativa ao meu. A ideia que ele deixou de se despedir as pessoas e depois apoiá-las com “medidas de acompanhamento e transição para actividades por conta própria” (e presumo que a recibo verde) deverá ser a solução para o despedimento dos 336 trabalhadores da Groundforce e para todos os demais. Eles hão-de querer agradecer-lhe a ideia que trouxe de Cuba.

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