Políticos no divã – 9


Teresa Ribeiro,

(entra de sorriso rasgado, com uma garrafa na mão) – Caro doutor, como está? Trouxe-lhe este vinho que me mandaram agora de Celorico de Basto. Espero que goste. 

– Obrigado, não precisava.

(a estender-se, descontraído, no divã) – Quem sabe talvez o ajude a soltar a língua. Ehehehe! Não é que me incomode fazer as despesas da conversa.

– Bem sabe que o meu papel aqui é sobretudo ouvi-lo.

– Pois, eu sei. Usa um método muito ortodoxo (prescrutando-o com o olhar)… às vezes pergunto-me se Freud, o seu mestre, merece todo esse crédito.

– Porque diz isso?

– Como sabe muitos consideram as suas teorias obsoletas. Além de que (remexe-se entusiasmado) como pessoa não era flor que se cheirasse.

(incomodado, o terapeuta ajeita os óculos, não responde)

– Diz-se que era um misógino empedernido e muito possessivo com a Anna, a filha mais nova (retorce-se no divã, para estabelecer contacto visual)

(aborrecido) – Na última sessão tínhamos deixado por analisar a sua reacção à moção de Passos Coelho.

– (inclina-se para a frente, de olhos arregalados) Numa escala de um a dez, dou-lhe zero!

– Está assim tão incomodado com o que ele disse?

– Incomodado, eu? Nada.

– Mas considera ou não que foi um ataque ad hominem?

– (risinho paternalista) Ó doutor, sabe lá o valor que um ataque ad hominem pode ter em política.

– Então se não ficou incomodado porque foi tão peremptório a desclassificar as palavras  do Primeiro Ministro?

– Porque quando as avaliei foi como professor e comentador, não como putativo candidato à Presidência e na qualidade de professor e comentador só tenho a dizer que tacticamente aquela moção foi um desastre, (abre os olhos, estende os braços) não lembrava ao careca.

– Consegue alternar com uma extraordinária facilidade essas suas facetas de professor, comentador e político.

– Sim, é por causa do surf.

– Do surf?!

– É uma grande escola. Aprendemos a ter jogo de cintura para nos inclinarmos conforme sopra o vento.

(a provocá-lo) – Como fazem os cataventos.

– Lá está você! Não pode dar ouvidos a esta gente que está agora à frente do PSD. Se soubesse o que eu sei… (mira o terapeuta, com olhar conspícuo) Sei de umas histórias…

(o terapeuta olha o relógio)

– (levanta-se de um salto, pega no casaco) Venha daí.

– Como?

– Estar muito tempo no mesmo sítio faz-me nervoso miudinho, já sabe. (pega-lhe no braço) Esqueça lá a conversa mole da terapia que eu tenho umas tricas do melhor para lhe contar. Gosta de vichyssoise? Pago-lhe uma sopa. 

8 comentários em “Políticos no divã – 9”

  1. Excelente, magnifico.
    ….

    Passos que se cuide e dê-lhe apoio imediato, senão!

    De comentário a comentário até à Aula Magna!

    ” Este paciente é diabólico, vingativo e muito esperto!

    Só quem não ouviu o ultimo bate-papo na TV… A alegria da sua partner é disso testemunha… ela toda sorrisinho, quando o Professor ataca o governo”

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