– Não, doutor, ao contrário do que as pessoas gostam de insinuar, sempre fui muito coerente.
– Ai sim?
– (baixa a voz e destaca as palavras, em tom grave) Ainda eu brincava aos carrinhos com o meu irmão e já se revelava bem o meu pensamento político.
– (cofia a barba, verdadeiramente interessado) Isso é muito interessante. Importa-se de detalhar?
– Já nesse tempo, enquanto o Miguel se entretinha a brincar com tractores, retro-escavadoras e todas essas geringonças que estão associadas ao meio operário, já eu tinha paixão pelos carros de alta cilindrada.
– Há quem continue na vida adulta a coleccionar miniaturas de carros. É esse o seu caso?
– Não, desses tempos por acaso só fiquei com um (ataque de tosse)
– Algum modelo raro?
– (crispado) Não, nada que interesse.
– Toquei nalgum ponto sensível?
– (novo ataque de tosse. Exasperado, articula com dificuldade) É um táxi! É a miniatura de um táxi! Porra! Podemos mudar de assunto?!
– Dizia-me que na infância já revelava o seu pensamento político…
– Sim, nas minhas boas relações com o poder financeiro, por exemplo.
– Nas suas relações com o poder financeiro?! Mas está a falar de quê?
– Estou a falar da facilidade com que negociava o aumento da mesada, ou o reforço da minha colecção de cromos. Ou acha que a minha vocação para a diplomacia económica surgiu do nada?
– Bem, falemos do PP.
– Mas não estamos já a falar?
– Não, refiro-me ao PP.
– A mim?
– Não, falo DO PARTIDO!É extraordinária a dificuldade que tem em dissociar o partido da sua pessoa.
– Pfff! Isso é conversa do Anacoreta Correia. Acha que eu, vice-presidente de Portugal, perco cinco minutos com essas quezílias?
– Vice-presidente de Portugal? Mas… isso foi um erro dos espanhóis, um incidente (visivelmente preocupado) Não deve alimentar esse género de fantasias, porque…
– Eheheh!Não se assuste. Em política, não interessa o que se diz, mas a maneira como se diz.
– Onde é que quer chegar?
– (em tom didáctico) Quando eu digo “vice-presidente de Portugal” não estou realmente a pensar as palavras mas a degustá-las. Percebeu?
– Hum… a dimensão lúdica do poder… Freud explica.
– Além de que aquilo foi um lapsus linguae dos espanhóis. (com o olho a luzir) E isso, como o doutor sabe, Freud também explica.


um mimo. Parabens
Obrigada, Cristof
Teresa já me fizeste rir a bom rir. E foste de grande souplesse.
Obrigada pelo humor!
Passei na prova? Ufff!
Com distinção, minha querida!
:))))
Série cada vez mais refinada… gostei muito, Teresa.
Obrigada 🙂
Brilhante, Teresa! E até tens a benção da Helena, o que não me admira. 🙂
Obrigada, Ana. A Helena, como dizes, não admira, pois tem um fantástico sentido de humor.