Políticos no divã – 8


Teresa Ribeiro,

– Não, doutor, ao contrário do que as pessoas gostam de insinuar, sempre fui muito coerente.

– Ai sim?

– (baixa a voz e destaca as palavras, em tom grave) Ainda eu brincava aos carrinhos com o meu irmão e já se revelava bem o meu pensamento político.

– (cofia a barba, verdadeiramente interessado) Isso é muito interessante. Importa-se de detalhar?

– Já nesse tempo, enquanto o Miguel se entretinha a brincar com tractores, retro-escavadoras e todas essas geringonças que estão associadas ao meio operário, já eu tinha paixão pelos carros de alta cilindrada.

– Há quem continue na vida adulta a coleccionar miniaturas de carros. É esse o seu caso?

– Não, desses tempos por acaso só fiquei com um (ataque de tosse)

– Algum modelo raro?

– (crispado) Não, nada que interesse.

– Toquei nalgum ponto sensível?

– (novo ataque de tosse. Exasperado, articula com dificuldade) É um táxi! É a miniatura de um táxi! Porra! Podemos mudar de assunto?!

– Dizia-me que na infância já revelava o seu pensamento político…

– Sim, nas minhas boas relações com o poder financeiro, por exemplo.

– Nas suas relações com o poder financeiro?! Mas está a falar de quê?

– Estou a falar da facilidade com que negociava o aumento da mesada, ou o reforço da minha colecção de cromos. Ou acha que a minha vocação para a diplomacia económica surgiu do nada?

– Bem, falemos do PP.

– Mas não estamos já a falar?

– Não, refiro-me ao PP.

– A mim?

– Não, falo DO PARTIDO!É extraordinária a dificuldade que tem em dissociar o partido da sua pessoa.

– Pfff! Isso é conversa do Anacoreta Correia. Acha que eu, vice-presidente de Portugal, perco cinco minutos com essas quezílias?

– Vice-presidente de Portugal? Mas… isso foi um erro dos espanhóis, um incidente (visivelmente preocupado) Não deve alimentar esse género de fantasias, porque…

– Eheheh!Não se assuste. Em política, não interessa o que se diz, mas a maneira como se diz.

– Onde é que quer chegar?

– (em tom didáctico) Quando eu digo “vice-presidente de Portugal” não estou realmente a pensar as palavras mas a degustá-las. Percebeu?

– Hum… a dimensão lúdica do poder… Freud explica.

– Além de que aquilo foi um lapsus linguae dos espanhóis. (com o olho a luzir) E isso, como o doutor sabe, Freud também explica.

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