Política, género e “modernidade”


josegomesandre,

São posts como este, do socialista José Reis Santos, que reforçam a minha oposição à existência de “quotas de género” na vida política. Em primeiro lugar, porque na base desta ideia reside uma negação do próprio conceito de indivíduo. Como o post do JRS mostra, o pensamento, integridade, sentimentos, valores, ideias ou currículo das pessoas em causas é totalmente preterido em função de uma mera identificação da pessoa pelo seu género. Os indivíduos em causa são expurgados de tudo aquilo que os define como cidadãos e políticos para se tornarem num simples “homem” ou “mulher”.

 

Por outro lado, define-se a questão das “quotas” como uma condição decisiva da “modernidade”. Releve-se o que subjaz a este discurso tão vazio quanto perigoso: a ideia de que o aumento da participação das mulheres da política não é necessário por ser mais justo, por dinamizar o debate político ou ser benéfico para a sociedade em geral, mas tão-só porque com mais mulheres na política somos mais “modernos”. Eu propunha um outro termo: “modernaços”. Pois é esse o conceito ideal para aplicar a um modelo de sociedade que subalterniza as qualidades cívicas, políticas e intelectuais de um cidadão às características dos seus órgãos sexuais.

16 comentários em “Política, género e “modernidade””

  1. Como sabes, estou do teu lado há muito neste assunto. Além disso, cada vez mais as características dos órgãos sexuais de cada indivíduo podem ser muito enganadoras. E ser enganado duplamente, pelas quotas e pelas partes baixas, decididamente não faz… digamos… o meu género.

  2. Concordo plenamente. Eu, enquanto mulher, sinto que a quotas de género funcionam quase como as X vagas disponíveis para deficientes, num concurso público. Não querendo denegrir os deficientes, claro.
    A sensação que dá é que têm de abrir essa excepção para as “coitadinhas” poderem participar na vida política, pois por si só não seriam capazes.
    Isto está errado e não é igualitário.
    Gosto de atingir os meus objectivos graças ao meu mérito, não graças ao meu sexo.

  3. Totalmente de acordo com o que escreves. Aliás se o José Reis Santos tem tanta preocupação com “quotas de género” (rótulo que odeio), devia começar por horrorizar-se com o elenco governativo. Se ser “paritário” é moderno, o Executivo de Sócrates é troglodita.

  4. Como pessoa, e como mulher, sinto-me indignada com esta pretensa igualdade que se expressa através da afirmação de princípios que se negam a si próprios. Repugna-me que o desempenho de determinadas funções surja associado ao género e dissociado (pelo menos em primeira linha) do mérito e do reconhecimento das capacidades intelectuais.

  5. “uma negação do próprio conceito de indivíduo”

    Não me parece que este argumento faça sentido. De facto, o indivíduo em causa continua a ser totalmente livre de fazer as opções que entenda, de se candidatar pelo partido que queira, de votar em consonância com as suas ideias. Nenhuma identidade lhe é imposta do exterior nem nenhuma representação do indivíduo por um outro lhe é imposta. A identidade que lhe é assinalada – ser homem ou ser mulher – é inescapável, biológica, não é uma matéria de opção do indivíduo em causa. Não se atribui ao indivíduo a pertença a qualquer grupo ou associação – apenas se constata o facto inescapável de que aquele indivíduo é um homem, ou é uma mulher.

    Da mesma forma que, numa competição de atletismo, por exemplo, o facto de mulheres e homens competirem em competições diferentes em nada elimina a sua condição de indivíduos. Não é pelo facto de os atletas competirem em competições separadas por sexo que elimina a condição individual de cada um.

    1. Caro Luís, o que está em causa é reduzir alguém ao seu sexo e, a partir daí, determinar qual o papel que o mesmo deve ter na vida política. Parece-me um princípio errado e que reduz a dimensão complexa de um indivíduo meramente ao seu género. Não sei como posso dizer isto de forma menos equívoca.

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