São posts como este, do socialista José Reis Santos, que reforçam a minha oposição à existência de “quotas de género” na vida política. Em primeiro lugar, porque na base desta ideia reside uma negação do próprio conceito de indivíduo. Como o post do JRS mostra, o pensamento, integridade, sentimentos, valores, ideias ou currículo das pessoas em causas é totalmente preterido em função de uma mera identificação da pessoa pelo seu género. Os indivíduos em causa são expurgados de tudo aquilo que os define como cidadãos e políticos para se tornarem num simples “homem” ou “mulher”.
Por outro lado, define-se a questão das “quotas” como uma condição decisiva da “modernidade”. Releve-se o que subjaz a este discurso tão vazio quanto perigoso: a ideia de que o aumento da participação das mulheres da política não é necessário por ser mais justo, por dinamizar o debate político ou ser benéfico para a sociedade em geral, mas tão-só porque com mais mulheres na política somos mais “modernos”. Eu propunha um outro termo: “modernaços”. Pois é esse o conceito ideal para aplicar a um modelo de sociedade que subalterniza as qualidades cívicas, políticas e intelectuais de um cidadão às características dos seus órgãos sexuais.

Como sabes, estou do teu lado há muito neste assunto. Além disso, cada vez mais as características dos órgãos sexuais de cada indivíduo podem ser muito enganadoras. E ser enganado duplamente, pelas quotas e pelas partes baixas, decididamente não faz… digamos… o meu género.
Hehe! Tu és impagável, João… Abraço de boa noite! P.S. Sei que já se escreveu muito neste blog sobre este assunto, mas hoje deu-me para meter a minha colherada na sopa…
Fizeste bem. Gostaríamos de te ver com mais assiduidade, se pudesses.
Um abraço, José.
Grande comentário. Muito bom mesmo! Quase tão bom como o próprio post do JGAndré. 😉
É a vantagem dos ‘posts’ inspiradores.
Concordo plenamente. Eu, enquanto mulher, sinto que a quotas de género funcionam quase como as X vagas disponíveis para deficientes, num concurso público. Não querendo denegrir os deficientes, claro.
A sensação que dá é que têm de abrir essa excepção para as “coitadinhas” poderem participar na vida política, pois por si só não seriam capazes.
Isto está errado e não é igualitário.
Gosto de atingir os meus objectivos graças ao meu mérito, não graças ao meu sexo.
Pois claro.
Absolutely, my friend… Beijos de saudades 🙂
Totalmente de acordo com o que escreves. Aliás se o José Reis Santos tem tanta preocupação com “quotas de género” (rótulo que odeio), devia começar por horrorizar-se com o elenco governativo. Se ser “paritário” é moderno, o Executivo de Sócrates é troglodita.
É um governo pré-histórico, de facto. E então quando vamos aos secretários de Estado…
Na mouche.
Mas a ideia não surpreende, vinda de onde vem.
Obrigado, caro João 🙂
Como pessoa, e como mulher, sinto-me indignada com esta pretensa igualdade que se expressa através da afirmação de princípios que se negam a si próprios. Repugna-me que o desempenho de determinadas funções surja associado ao género e dissociado (pelo menos em primeira linha) do mérito e do reconhecimento das capacidades intelectuais.
Só posso subscrever o que escreve, cara Sílvia…
“uma negação do próprio conceito de indivíduo”
Não me parece que este argumento faça sentido. De facto, o indivíduo em causa continua a ser totalmente livre de fazer as opções que entenda, de se candidatar pelo partido que queira, de votar em consonância com as suas ideias. Nenhuma identidade lhe é imposta do exterior nem nenhuma representação do indivíduo por um outro lhe é imposta. A identidade que lhe é assinalada – ser homem ou ser mulher – é inescapável, biológica, não é uma matéria de opção do indivíduo em causa. Não se atribui ao indivíduo a pertença a qualquer grupo ou associação – apenas se constata o facto inescapável de que aquele indivíduo é um homem, ou é uma mulher.
Da mesma forma que, numa competição de atletismo, por exemplo, o facto de mulheres e homens competirem em competições diferentes em nada elimina a sua condição de indivíduos. Não é pelo facto de os atletas competirem em competições separadas por sexo que elimina a condição individual de cada um.
Caro Luís, o que está em causa é reduzir alguém ao seu sexo e, a partir daí, determinar qual o papel que o mesmo deve ter na vida política. Parece-me um princípio errado e que reduz a dimensão complexa de um indivíduo meramente ao seu género. Não sei como posso dizer isto de forma menos equívoca.