Política de verdade ou a verdade da política?


Sérgio de Almeida Correia,

 

Finalmente, o PSD apresentou a sua lista de deputados para as Legislativas e, também, uma espécie de programa eleitoral que se esgota numas míseras “linhas gerais”. Sem pontos de exclamação como agora é de bom-tom realçar e para que não fiquem dúvidas sobre o que lá está. De tão gerais as linhas nada dizem. De certa forma, as “linhas gerais”, tal como as escolhas para as listas de deputados, reflectem as clivagens existentes no partido, a ausência de um projecto sólido e coerente e as constantes lutas internas pelo controlo do poder dentro do partido. As “linhas gerais” permitem a um leigo compreender o que leva a direcção do partido a querer fazer sentar na mesma bancada, e se possível ao lado um do outro, António Preto e Pacheco Pereira. Em rigor, o programa, ou as “linhas gerais”, não passam de um sumário. Um sumário permite adiar, deixar no limbo, evitar a concretização. Sem nunca faltar à verdade. Ao país real e de verdade apregoado pelos discursos de Manuela Ferreira Leite, sucede-se agora o país das “linhas gerais”, o país do partido, o país clientelar, o país arguido e obscuro dos caciques, das malas de dinheiro e das “negociatas” autárquicas. As críticas à inclusão de Helena Roseta na lista do PS à Câmara de Lisboa não eram para valer. Maria José Nogueira Pinto mostra a verdade da política de verdade: é possível apoiar o socialista António Costa em Lisboa, contra o candidato oficial do PSD, ser democrata-cristã e ao mesmo tempo integrar as listas do PSD nesse mesmo círculo eleitoral. Quem ontem criticou a aliança de Roseta com António Costa tarda agora em pronunciar-se sobre o lugar de Mª José Nogueira Pinto nas listas do PSD. E em esclarecer como, olhando-se para os nomes de António Preto, de Helena Lopes da Costa, de Couto dos Santos, de João de Deus Pinheiro, de Alberto João Jardim ou de Mendes Bota, só para citar alguns, Manuela Ferreira Leite pretende “transformar Portugal”, “ganhar o País”, ou, como refere o seu programa, “ser transparente nas escolhas políticas”. Pois, transparência, que nalguns casos, curiosamente, casa com o caruncho e o bacoco radicalismo regional. Bem me parecia. Articular esses nomes, de quem nunca ninguém ouviu falar em mais de três décadas de democracia, e essas “linhas gerais” com a necessidade de reforçar a democracia e credibilizar a política não parece ser tarefa fácil. Fácil será, contudo, verificar que “criar condições para aumentar o emprego e para melhorar a competitividade das empresas” não é muito diferente de “relançar a economia e promover o emprego” e de “reforçar a competitividade”, que é o que está nas bases programáticas do PS, aprovadas em 25 de Julho pp. Também “aumentar a coesão social” pouco difere de “reduzir as desigualdades”, “apoiar as famílias, em particular as de menores rendimentos” ou “reforçar o apoio às classes médias”, coisas que a mim me parecem igualmente formas de aumentar a coesão social. Aliás, “políticas correctas”, “prioridades claras” e “soluções exequíveis” é aquilo por que todos se batem. Aqui creio que António Preto, José Lello, Pacheco Pereira e José Sócrates estão todos de acordo. Difícil mesmo é perceber no meio disto tudo onde está a “Política de Verdade”, quais os seus desígnios, e como se chega lá sem perder, entretanto, a credibilidade, o país e o rumo. O Paulo Bento talvez possa dar uma ajuda a Manuela Ferreira Leite. Ontem percebi que o treinador do Sporting também é adepto de uma política de verdade. Em "linhas gerais", é claro, e desde que o João Moutinho não dê cabo de tudo. Ele ou o Rui Rio. A Dr.ª Manuela sabe que esta coisa da politica anda de braço dado com o futebol e as autarquias. Transparências.

2 comentários em “Política de verdade ou a verdade da política?”

  1. Muito bem, Sérgio. A inclusão da democrata-cristã MJNP em quarto lugar por Lisboa, fazendo campanha pelo PSD entre 14 e 25 de Setembro, e pelo PS entre 28 de Setembro e 9 de Outubro, é um caso de antologia que bem merece ser dissecado futuramente em cursos de ciência política. Fenomenal.

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