Quando alguém se atreve a criticar o que o chefe diz ou faz, há um costume muito curioso: saltam logo as galinhas a cacarejar "ó-da-guarda", "aqui-d’el-rei". Trata-se daquilo a que muitos chamam "política de galinheiro". Eu prefiro chamar-lhe "política de aviário", que é onde as galinhas acabam por nunca ficar muito tempo.
Em Portugal é que esse costume não anda a atravessar os seus melhores dias. Talvez porque há cada vez mais pintos do que galinhas nos poleiros. É só a gente bater-lhes o pé que eles saltam logo para debaixo das asas do galo.


Não é só em Portugal, compadre. Em Itália passa-se o mesmo. Cada vez que alguém se atreve a criticar o Presidente do Conselho, logo o clube de fãs do Berlusconi se mobiliza, censurando quem se atreve a criticar Il Capo. Os argumentos são os mesmos: que venceu as eleições, que lidera as sondagens, que está a ser alvo de uma cabala, blablábláblá patati-patatá. Como se isso o tornasse imune às críticas.
Cá como em Itália, é escusado: não aprendem.
João, voltou o seu lado mauzinho.
Eu?!?
Desculpe a correcção, mas parece-me que não percebe muito de galinhas nem de galinheiros: nunca um pinto se esconde debaixo das asas do galo, nem as galinhas chocas ou com pintos se empoleiram.
Vejo que V. não vive em Portugal há muito…
Pois saiba que vivo no Portugal rural onde se criam (eu crio) galinhas. A minha discordância não tem a ver com as críticas que faz ao poder, e que eu subscrevo; tem sim a ver com o rigor das metáforas. Como sabe, basta uma pequena incorrecção numa argumentação para a fragilizar. É tão somente isso. Não se zangue com as críticas, especialmente com as dos seus leitores atentos.
Seria muito difícil ver-me zangado, meu caro. Ambos sabíamos do que eu estava a falar. Por isso, o emprego da(s) metáfora(s) em causa não prejudica, no caso vertente: é tudo tão absurdo que nada tem de bater certo. Mas critique à sua vontade, que é sempre bem-vindo.
Acredite que me agrada saber que vive no meio rural e que se dedica às galinhas.
Um abraço.
Bem me parecia que facilmente nos poríamos de acordo, apesar das minhas discordâncias quanto à aparente falta de rigor da linguagem do post; afinal, o surrealismo é propositado, como o é certamente na frase “que se dedica às galinhas”. Também me não zango, embora sinta necessidade de esclarecer que “crio galinhas”, não me dedico às ditas cujas. Dedico-me à minha família, à minha profissão, à escrita. Conforme o dicionário da Porto Editora, dedicar-se: 1. afeiçoar-se extremosamente; 2. aplicar-se; 3. consagrar-se;
Cumprimentos.
Não, José-Catarino, a observação sobre as galinhas não era irónica. Sou o mais urbano possível por natureza, mas já faz tempo que aprendi que as nossas cidades (as que têm dimensão de cidade) não oferecem qualidade de vida. Por isso, chego a ter inveja de quem está ou passou a estar no campo, acredite.
Abraços.
Sem dúvida! Mas olhe que o inverso também se passa. Quem se atreve a defender, os outros galinheiros também entram em polvorosa. Infelizmente, vivemos um estado em que não há direito a meio termo e todos olham para nós com um “ou estás connosco ou contra nós”.
Abraço.
São tempos de extremismos, meu caro. Infelizmente. Porque as posições extremadas geram sempre o sinal contrário.