
Concordo em absoluto com o que aqui assinala Francisco Seixas da Costa: «A propósito da morte da escritora Ana Luísa Amaral, notou-se o cuidado da imprensa em qualificá-la de “poeta” e não de “poetisa”. Acho, em absoluto, ridícula esta tendência recente de fugir ao uso da palavra “poetisa”, como se ela pudesse ofender a qualidade literária de uma mulher que escreve poemas.»
Em evidente sintonia, recordo o que escrevi em 2019 no DELITO: «Indigno-me com este absurdo banimento da palavra poetisa – sempre a associei a pitonisa – que alguns adoptaram, correndo desenfreados atrás da norma brasileira.»
Indignação hoje mais reforçada. Pela notória perseguição a este «belo substantivo feminino agora escorraçado do discurso cultural dominante, que designa homens e mulheres pela palavra poeta, na reiterada tentativa – que em certos casos deriva para obsessão ideológica – de esbater diferenças de género» (perdoem-me outra autocitação, mas vem mesmo a propósito).

99% das pessoas não sabe que a fixação das palavras não tem significado. É abstracto. Têm aquela forma mas podiam ter outra.
Eu preocupar-me-ia muito mais em não ser estúpido ou não ser um mau poeta do que com fatwas ridículas contra os géneros gramaticais.
Tudo serve como sucedâneo à “luta de classes”, agora travestida de imensas micro-lutas alternativas. O combate às putativas “desigualdades de género” nas palavras é uma dessas micro-causas que geram macro-gritaria.
E lá vai o ” Ser poeta é “, da Florbela Espanca para o caixote do lixo, para não atrapalhar .
Não se esqueça de citar também a “alma minha” do Camões para parecer que é culto.
Bom dia Pedro Correia.
A minha respeitosa chapelada por este seu texto.
Na minha imensa coleção fotográfica sobre toponímia essa consta lá, uma das muitas por colocar no meu blogue.
É como andamos, nisto e em outras coisas.
Bom fim de semana. Saúde.
António Cabral
Viva, caro António Cabral.
Foi com muito gosto que em 2019 vi (e fotografei) esta placa toponímica em Lagos, quase a chegar à Meia-Praia, que tanto dizia à poetisa Sophia.
Bela palavra esta, que alguns aiatolás querem suprimir.
Não passarão.
Saúde!
Ridícula e estúpida.
Assim se faz a desalfabetização (isto existe no acordo burrográfico?) do povo.
Suprimam pitonisa também, já agora, para serem coerentes.
Exactamente.
Fica só o pitoniso de Belém
Agora há um também nas Finanças, disseram-me.
Chato e repetitivo, volto a evocar o Grande Ausente : “Biblicamente estúpidos”…
JSP
Faz cá falta, o VPV.
Não percebo.
Umas vezes reclamam ‘presidentas’ e agora rejeitam ‘poetisa’?
É conforme o vento sopra.
Esta guerra às poetisas nunca entendi nem consguirei entender.
Às vezes de gente que não faz guerra alguma contra ditaduras.
Honra à Câmara de Lagos, que não embarcou na novilíngua.
Não passarão! Forte abraço
O que eu gosto dessa frase… Ninguém tem o monopólio dela.
Forte abraço, meu caro.
Bem, a tendência não é assim tão recente, nem a culpa deve ser atribuída necessariamente aos confrades do outro lado do Atlântico. Já Unamuno se assanhava com o termo; e nuestros hermanos acabaram mesmo por adoptar no dicionário oficial a palavra poeta em versão unissexo.
Haverá duas razões de ser para a quezília. Uma é o facto de, em alguns momentos e alguns sectores, o vocábulo poetisa ter ganho uma conotação pejorativa, empregue ou interpretado como uma depreciação ou um rebaixamento do vate feminino.
Explicação? Atrevo-me a alvitrar que por arrastamento. A terminação -isa (latim -issa) é relativamente rara e surge em palavras quase só de âmbito religioso: papisa, episcopisa, sacerdotisa, profetisa, pitonisa… Que, em época de cristandade, eram normalmente evocadas em contexo negativo. Por associação, poetisa terá sido também (de certa forma, aqui e além) desvalorizada.
Em contexto negativo?
Caramba, que arrazoado.
“Contexto negativo” é combater ou suprimir a poesia.
A outra razão, prender-se-á com o desejo, mais geral, de exprimir com maior clareza a paridade e inclusão sexual no mundos das artes e ofícios, sobretudo quando em registo comparativo.
Exemplos:
Florbela Espanca foi poetisa maior que Bocage.
Ou:
Florbela Espanca foi, entre os poetas, maior que Bocage.
Outro:
Florbela Espanca foi uma das grandes poetisas do século XX.
Ou:
Florbela Espanca foi um dos grandes poetas do século XX.
Querem portanto uma linguagem sem género – ou, digamos, “assexuada”.
Emancipação feminina é designar as mulheres como os homens, se bem percebo a lógica da coisa.
De gente que quer suprimir a palavra mulher chamando-lhe “pessoa com vagina” e a palavra “mãe” chamando-lhe “progenitora”, tudo já se espera.
Diria que pretendem mais obviar a uma concepção fixa de dois universos separados e estanques. Se há, por exemplo, razão de ser para a distinção entre homens e mulheres no campo do desporto (que, é certo, se tem vindo também a esbater) e argumentos em seu favor no meio escolar (assim como contra, evidentemente), também é certo que em muitas outras áreas a diferenciação vocabular não se apoia numa diferenciação significativa entre sexos a nível da capacidade e/ou da produção, perdendo, assim, importância.
Já em áreas até recentemente reservadas a um dos sexos, e consideradas paradigmáticas, a abertura ao outro sexo é vista com tal significado que até faz surgir alterações vocabulares fora de norma, como forma de melhor visibilisar e reforçar a novidade (é o tal caso de presidente/presidenta).
O que é caricato é que a Sophia de Mello Breyner Andresen considerava que poetisa atribuía às mulheres um estatuto de menoridade face aos homens com idêntica actividade. E a maior oposição à palavra “poetisa” vem da parte das mulheres (poetas).
Vá-se lá entender o porquê.
Anda tudo muito baralhado. Alguns poetas (do sexo masculino) não se importariam de ser tratados por poetisas.