Plano inclinado


Pedro Correia,

 

 

Morreu Luis García Berlanga, o maior cineasta espanhol de sempre após Luis Buñuel. Os jornais espanhóis de hoje – como se pode verificar aqui, aqui e aqui – dedicam várias páginas à vida e obra do autor de filmes como Bienvenido Mister Marshall, El Verdugo e La Vaquilla. Inteiramente compreensível e digno de aplauso. O que de todo não se compreende é que dos quatro jornais diários portugueses de expansão nacional apenas um tenha estado atento a este facto. Dois ignoram totalmente a morte do cineasta e um terceiro arruma a coisa em meia dúzia de linhas, adulterando o seu nome.

Como jornalista, só posso lamentar tão escandalosa omissão. E reconhecer aqui, como em tantos outros factos do quotidiano, a gritante crise do nosso jornalismo, cada vez mais divorciado dos leitores a que se destina, cada vez mais mergulhado no fait divers inócuo, na frivolidade que não ultrapassa a espuma dos dias. Por desleixo, incúria, falta de investimento nas redacções, falta de exigência, falta de cultura e uma pavorosa falta de memória. Um triste, lamentável e acentuado ocaso.

2 comentários em “Plano inclinado”

  1. “cada vez mais divorciado dos leitores a que se destina”

    Como assim, se a maior parte desses leitores não faz ideia de quem tenha sido esse cineasta (que há dez anos que não filmava) nem nunca viu nenhum dos seus filmes? “Divorciado dos leitores” estaria o jornal se lhes falasse de alguém que lhes é totalmente desconhecido.

    Nota: a morte foi noticiada na Antena 1, com uma extensa palestra sobre o trabalho do senhor.

    1. Luís Lavoura, a sua capacidade de argumentação continua inversamente proporcional à quantidade dos seus comentários. Orson Welles, quando morreu, não estreava um filme há 17 anos em circuito comercial. Se você fosse editor, omitia a notícia ou mandava publicar numa síntese ao fundo de uma página chamando-lhe Orson qualquer-coisa, como agora foi feito por três diários portugueses a propósito de Berlanga?
      O erro do jornalismo contemporâneo, não só em Portugal, é partir do seu princípio, que é errado. Devemos partir do princípio inverso: fazemos TV, rádio e jornais para pessoas cada vez mais cultas e cada vez mais exigentes. Para si, era “totalmente desconhecido”. Para milhares de pessoas, que ainda compram jornais, não era. De resto, se o fosse, nem isso justificaria o que você próprio anota: que a Antena 1 lhe dedicasse “uma extensa palestra” (palavras suas).
      E há um factor adicional, para mim o mais importante. Quem se dá ao trabalho (e à despesa) de comprar um jornal é porque pretende conhecer o que ainda não sabe. Não é para saber o que está farto de conhecer. Esta é um objectivo que todos os jornalistas deviam ter sempre bem presente.

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