Pequeninos, felizes e eternamente adiados


Sérgio de Almeida Correia,

Uma das características do regime anterior era o culto da pequenez, do isolamento, do orgulhosamente sós. Passados quase 50 anos sobre o golpe militar que permitiu a instauração da democracia verifica-se que nos nossos dirigentes a mentalidade não mudou. E tanto faz ser o veterano Presidente da República como o novato verborreico da Secretaria de Estado do Desporto.

Com excepção do Presidente do Comité Olímpico, que foi bem mais comedido e realista nas suas palavras, certamente tendo presente que as metas estabelecidas eram pouco ambiciosas — quanto mais modestos forem os objectivos mais fácil será transformar os mínimos alcançados num êxito retumbante —, todos aqueles que ouvi embandeiraram em arco com os resultados obtidos.

Não está em causa o esforço individual de cada um dos atletas, já que à sua medida cada um deles procurou exceder-se, dignificar a camisola do país que representa, e que a todos nos representa, e alcançar o sucesso pessoal que permitisse elevar o espírito e engrandecer o esforço colectivo.

Exultei com os resultados desportivos, e não só com os dos medalhados, mas esses resultados são acima de tudo uma consequência do esforço individual de cada um dos atletas, e do trabalho dos clubes, já que o investimento do país no desporto continua a ser sofrível.

Como sofrível é o resultado colectivo alcançado quando olho para os nossos resultados e os comparo com os dos Países Baixos (10 medalhas de ouro, 12 de prata, 14 de bronze), da Nova Zelândia (7 de ouro, 6 de prata, 7 de bronze), da Hungria (6 de ouro, 7 de prata, 7 de bronze), da Suíça (3 de ouro, 4 de prata, 6 de bronze), da Dinamarca (3 de ouro, 4 de prata, 4 de bronze), da Suécia (3 de ouro, 6 de prata), da Noruega (4 de ouro, 2 de prata, 2 de bronze),ou até da Croácia (3 de ouro, 3 de prata, 2 de bronze) ou da Bulgária (3 de ouro, 1 de prata, 3 de bronze). É evidente que ninguém de bom senso pode ficar “orgulhoso” com a nossa prestação colectiva.

E é escusado, como fez o Presidente da República, vir dizer que “[o] adiamento dos jogos, a sua realização numa cidade tão distante e com um clima tão diferente do nosso, foram dificuldades adicionais a uma preparação já de si longa e muito exigente“, pois que essas dificuldades adicionais foram iguais para todos (pelo menos para os europeus).

Pior, ainda, está alguma comunicação social que num exercício de estupidificação colectiva se dedica a comparar os resultados de Portugal com os dos Estados Unidos da América ou da China para concluir que os nossos são melhores.

Enquanto entre nós a mentalidade dominante for a de nos contentarmos com os mínimos, procurando transformar num sucesso aquilo que colectivamente não passa da mediania, quando não raro do sofrível, num exercício de auto-convencimento institucional da excepcionalidade, dificilmente obteremos melhores resultados.

Mudou-se a Constituição, consolidou-se a democracia, mas a mentalidade pequenina e tacanha, de vistas curtas e à medida dos umbigos nacionais, continua a ser a mesma.

E o que é ainda mais triste de ver é que essa mentalidade não só não muda como se transmite às novas gerações e se perpetua em governantes como o secretário de Estado do Desporto.

Fosse a mentalidade do Jorge Fonseca, da Patrícia, do Pichardo, do Pimenta ou da Telma, por exemplo, como antes foi a do Lopes ou da Mota, igual à deles e continuaríamos na casa da partida à espera de melhores dias. Esses são exemplos de transcendência individual que não nos podem permitir esquecer os nossos insucessos colectivos.  

Naturalmente que o nosso atraso desportivo (e não falo do futebol ou dos desportos motorizados), como sempre, acompanha o atraso das nossas elites e o pouco aproveitamento que fizemos de todas as potencialidades da integração na União Europeia, muito em especial quando vemos o que outros que entraram muito depois de nós conseguiram.

Continuamos a puxar muito pouco por nós. A exigirmos pouco a nós próprios em termos colectivos. E ainda menos às nossas elites políticas. Só somos capazes de nos superar individualmente, seja no desporto ou na ciência. Colectivamente continuamos adiados. Eternamente adiados. E apesar de tudo felizes, e todos medalhados e contentinhos na nossa singela mediania.

Quase cinco décadas volvidas sobre Abril de 1974, é o culto da pequenez e da mediocridade que se voltam a revelar e a imperar em todo o seu esplendor nas palavras dos nossos dirigentes políticos. Um país de comendadores e conselheiros.

Que fado estuporado é o nosso.

20 comentários em “Pequeninos, felizes e eternamente adiados”

  1. O que eu lutei enquanto professor contra a mentalidade do “nivelar por baixo”!… Favorece-se a cultura do “os outros ainda são piores” para nos contentarmos com a mediocridade e até nos considerarmos bons… Os nossos jovens ficam contentes por terem boas notas num sistema de ensino que não exige quase nada a fim de que não haja maus resultados; entretanto os outros avançam. Este artigo é fabuloso sobretudo quando nos compara com países da nossa dimensão. Respeito o esforço de todos os que trabalharam, mas isto de embandeirar em arco com quatro medalhas é patético. E o problema é que não se vislumbram mudanças. O que esperar quando o PR e o PM são frutos escandalosos dessa mentalidade?…

    1. Ainda hoje alguns comemoram o 3º lugar no campeonato do Mundo de futebol de 1966 quando, com outra equipa técnica, poderámos ter lutado pelo primeiro lugar.

  2. Quando introduzirem nos jogos olímpicos a modalidade da comezaina, tenho a certeza que os nossos esfomeados bater-se-ão em paralelo com os manos e manas africanas sem necessidade de treino. E o ouro virá como chuva do céu.

    Neste momento o presidente em vez de estar parado a olhar a pantalha devia estar a tratar dos assuntos urgentes e emergentes dos pobres que o Costa e o Bloco vêm criando em Portugal. A saber:
    congelamento das rendas e fim do abuso especulativo, dos despejos e aumentos de preços na habitação;
    Congelamento dos preços em bens essenciais (pão, leite, ovos, massa, arroz, verduras, feijão, grão e fruta da época);
    Diminuição e congelamento do preço do gás, luz, água;
    Diminuição das taxas aplicadas pelas autarquias nas facturas da água, gás e luz,
    Fim do genocídio perpetrado com as vacinas que estão aí para induzir a uma falsa e criminosa normalidade e segurança;
    Imposição às farmacêuticas de cotas de produtos farmacêuticos gratuitos a serem distribuídos aos mais pobres;
    Requisição civil dos médicos dentistas para cuidar da dentição das crianças e adultos pobres;
    Distribuição gratuita de óculos pelos mais pobres e rasteio oftalmológico
    Regresso imediato ao teletrabalho e telescola
    Retomar a politica de limpeza do Otelo e atirar os políticos para o Campo Pequeno.

  3. O autor limpa os lindos resultados do 25 de Abril que por boa parte foi feito para ter ditaduras ainda piores inspiradas em “humanistas” tais como Mao, Brezhnev, Enver Hoxa.
    Mais de 1 milhão de pessoas morreram depois do 25 de Abril por pessoas que o fizeram ou para isso contribuiram.
    E não esquecer os Portugueses que queriam ditaduras “populares” eram pessoa instruídas, com cursos universitários
    Foi o povo “analfabeto”, “religioso” especialmente do Norte que manteve a democracia.

  4. É isto mesmo.
    E não faltam equipamentos desportivos distritais, concelhios e até a nível de freguesias.
    O mal está no desporto escolar, ou melhor dizendo não há desporto escolar. A nível universitário também já teve melhores dias: com a excepção da Académica de Coimbra e do râguebi, há quanto tempo não se vê atletas universitários em provas desportivas a nível nacional p.ex. o cdul ou o cdup.
    Também quase acabaram aquelas “manias” das organizações locais espontâneas das “corridas fins de semana” com os mais jovens a perder o interesse e os mais velhos a não estar interessados a ouvir as bocas ‘vai trabalhar malandro’. Isto não quer dizer que saíssem atletas olímpicos, mas saía o interesse na prática desportiva transmitida aos mais jovens.

  5. Oh homem porque não comenta as medalhas de Cuba…..? Os paises que analisa não sofrem de qualquer embargo comercial. O que são eles comparados com os resultados dos atletas cubanos?

    1. Mais um comunista a apoiar a agressão Comunista aos Cubanos.O ódio a quem é diferente.
      E para desviar as atenções da desgraça cultural, civilizacional em Cuba… o Comunista diz que se não tem negócios com os malvados “Grandes Grupos Económicos” Americanos é pobre…sem capitalistas não há comunismo próspero…

  6. Subscrevo! E é em todo o lado. Numa reunião de departamento assisti a elogios de excelência para cima a uma coordenação banal. Que fez os mínimos. Como se não bastasse nos 2 dias seguintes à reunião fomos bombardeados por e-mails de agradecimentos, actos de onanismo em directo. É triste!

    Catarina Silva

  7. De comendadores e conselheiros, sem dúvida. E, como convém a comendadores e conselheiros, de um Soberano que se sente muito bem assim (e manifestamente querendo mais do mesmo): com beata diligência embrutecido, infantilizado, estupidificado e, por estes tempos mais recentes, metodicamente aterrorizado.
    “Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma”, fórmula tão actual como há sessenta anos.

  8. Só não concordo com tudo oque aqui li, quando compara a pequenez de hoje, com a pequenez de Salazar, que é a ideia.
    Que se compare com a pequenez da 1ª república, vá lá, e até com a monarquia faz-de-conta, vá-que-não-vá.
    Mas comparar com aquele excepcional interregno, em que quem queria,queria, quem não queria…caguei! isso não!
    Ali não havia demagogias baratas.

  9. Mas a verdade mais trágica é que tudo o que há para mostrar aos turistas é aquilo que o António Ferro planeou. Ninguém vai ao Maat. Nem as fufas vão lá.

  10. Na modalidade de debate sobre bola somos fortes candidatos ao ouro. Um desporto nacional, com cobertura televisiva intensa e bastante componente lúdica por esses cafés fora.
    Equipa formada pelo Calado, Ventura, Futre e Pedro Guerra. O Octávio Machado seria titular, mas não há certezas de que passaria no anti doping.

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