Pequenas notas


joaomsandre,

Habituei-me desde há muito a ler o Luís Naves. É alguém de cujas opiniões discordo frequentemente mas que costuma ter uma boa argumentação para elas. Nestes dois posts no Forte Apache estranho-o um pouco.

 

No primeiro, sobre a manifestação nas galeria da AR, começa de forma bastante lógica: a atitude anti-parlamentar está a abrir caminho a atitudes pouco democráticas. Há falhas na construção do argumento, mas a conclusão é uma que eu largamente subscrevo. Preocupam-me essencialmente dois pontos no que escreve. 1) por um lado, escreve que o jogo democrático passa por avaliar nas urnas o trabalho do governo é do parlamento. Embora isso seja verdade, a democracia não se esgota aí. Uma vez que os deputados e o governo estão ao serviço da população, torna-se óbvio que a avaliação deve ser feita de forma contínua, sendo que qualquer manifestação (no seu termo geral) de desagrado ou aprovação deve ser tornada pública no intervalo entre eleições (embora sempre com respeito, claro está). Quando Sócrates era PM, praticamente a única coisa que lhe foi elogiada pela direita foi ter reconhecido que era necessário convocar eleições. Pela lógica acima não teria necessitado de o fazer. 2) o segundo ponto prende-se com as funções de cada lado. Por um lado temos os eleitores que devem eleger representates e fiscalizar a sua acção. Por outro temos os eleitos que devem cumprir tanto quanto possível as promessas através das quais foram mandatados. Se o governo que apoiam faltar a essas promessas, devem então ou agir ou aceitar que os eleitores ajam por eles. Nesse aspecto, a inacção é uma acção em si mesma.

 

No segundo post, Luís Naves fala da renegociação dos prazos dos empréstimos. A notícia parece ser boa e qualquer pessoa se deveria congratular por ela. Parece-me pouco, mas isso é questão diferente. A minha discordância com o post advém de aceitar sem problemas que o pagamento seja empurrado para 2023. Esse ponto é despachado com um «a situação [será] bem diferente», comentário que mais não é um repetir ad infinitum dos argumentos (de todos os anteriores governos) que levaram à presente situação. Não deveria ser necessário explicá-lo, mas aqui vai: a situação pode muito bem ser melhor dentro de 10 anos, mas também pode ser pior (por este andar creio que será o caso). Esperar pelo melhor sem preparar para o pior nunca fez bem a ninguém.

5 comentários em “Pequenas notas”

    1. Primeiro que nada, não defendo no meu post seja lá o que for em relação à dívida. Apenas aponto aquilo que vejo como incoerência: a atitude de empurrar para o futuro incerto o pagamento da dívida quando é precisamente isso que se criticou no passado.

      Quanto àquilo que vejo, o primeiro aspecto seria aceitar que nunca pagaremos esta dívida nas condições que existem. Os juros são altos demais e os prazos excessivamente curtos. Além disso este “resgate” só serve aos bancos. Eu até proponho estender prazos, mas cortando juros. Não sou a favor de um default, longe disso. Mesmo o haircut me parece arriscado, mas aceitar algumas perdas por parte dos credores serviria a todos.

      Também não gosto da ideia de empurrar o pagamento para o futuro, mas o presente não garante que a dívida seja paga. Talvez estender um pouco os pagamentos seja a melhor hipótese (não para o futuro, mas pelo futuro, ou seja, diluindo esses custos por mais prestações mas sem adicionar quaisquer juros extra). Lamento, mas ao contrário de 99% dos comentadores portugueses não tenho certezas. Talvez porque também não tenha informação suficiente.

  1. João contrariamente á maioria dos portugueses você provou não ser um iluminado detentor de todas as razões e possuidor da verdade absoluta.
    Só por isso já lhe tiro o chapéu.
    Na verdade o que é insólito é que todos sejam nomeados pelo povo para fazerem um determinado trabalho que juraram defender e cheguem lá e façam outro.
    O povo ” carrasco ” não pode ficar agradado com isso. Certo?

    1. Se for preciso dou muitas outras provas. O que não me falta são provas de falta de iluminação. Até estou para fazer queixa à câmara que isto me deixa inseguro a andar na rua.

      Fazer outro trabalho daquele que se propuseram não é necessariamente condenável. Por vezes as circunstâncias a isso o obrigam. O que me incomoda é que o PSD, que conhecia perfeitamente a situação do país, tenha de facto mentido (meço bem as palavras) na sua campanha eleitoral. O “mentiroso” Sócrates, quando viu que o seu governo teria de tomar decisões que fugiam àquilo a que tinha sido eleito (além de ter visto o seu programa chumbado pela AR), tomou a decisão consequente e apresentou-se a votos.

      Não defendo minimamente Sócrates, que foi provavelmente o pior PM português em democracia até então (Santana Lopes não entra nas contas). Só que Passos Coelho em dois anos já conseguiu ultrapassá-lo em mau trabalho e mentiras. É obra.

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