Penso rápido (94)


Pedro Correia,

Os sintomas são iniludíveis: rumores transformados em factos, diz-que-disse alastrando como vírus ou bactéria, a lenda impressa em vez do facto. Traições, facadas nas costas, hipocrisia a rodos – um estendal de miséria humana. Sempre os melhores fins a justificar os piores meios.

Punir antes de condenar, condenar antes de julgar, julgar antes de acusar, ouvir apenas uma das partes: a negação do que deve ser a justiça. É quanto basta para erguer novos pelourinhos em nome de excelentes causas pervertidas até aos limites da abjecção.

Quem aplaude a caça às bruxas contra Woody Allen, por exemplo, é marioneta pronta a servir de pasto a qualquer totalitarismo.

Hoje, em grande parte do mundo ocidental, há menos liberdade e menos democracia do que existia entre as décadas de 70 e 90. Estamos cercados de novos tabus e proibições de todo o género em nome de dogmas identitários. Como o recente caso da interdição total de cartoons no New York Times – que costumava ser um dos faróis mundiais da liberdade de imprensa – bem demonstra.

Todos de bico calado, para evitar anátemas dos diáconos da correcção política que policiam palavras, gestos e comportamentos. Chamem-lhe o que quiserem para disfarçar, mas isto não é mais do que a ressurreição dos velhos censores. Com a agravante de estes agora nem terem a frontalidade de se assumirem como tal.

38 comentários em “Penso rápido (94)”

  1. Os “liberais democratas” criaram os problemas e agora querem vender-nos as soluções, velha técnica, mas quem está esclarecido não se deixa enganar.
    Os factos registados nos últimos 20 anos falam por si e as provas são concludentes e inequívocas, nem os “liberais democratas” as ousam omitir e nalguns casos servem-se das mesmas de modo insidioso e pérfido para fazer surgir novos medos nos pobres de espírito.

    WW

  2. As pessoas deixaram de pensar pela própria cabeça. Seguem as massas e “indignam-se” tanta vez de forma cobarde e imoral a coberto do mundo virtual que proporciona o conforto de estar sentado, anónimo ou não, a destruir alguém sem pruridos.

    1. As redes sociais potenciam o comportamento de rebanho. Tudo serve para engrossar o caldo, num ou noutro sentido.
      E o próprio poder judicial se vê crescentemente acossado pela “fúria justiceira” daqueles que, por berrarem mais alto, se imaginam possuidores da razão absoluta a favor da sua tribo.

      1. Sim, caro Pedro Correia, a lógica da turba é, sobremaneira, perigosa!
        E pior ainda quando os poderes públicos se poem em bicos de pés para enternecer e aplacar a putativa revolta da turba!! Quando compram todas as causas e causinhas para ajudar à grande marcha da humanidade rumo ao progresso, a martelo e por decreto!
        Este Governo e este PR (Não sei qual dos dois o pior. Foi preclaro, Passos Coelho, quando, dizem, apelidou Marcelo de Cata-vento) terão uma única virtude histórica!! Redimir D. Maria II! Os seus efeitos trágicos e nefastos far-se-ão sentir por largos anos!!

  3. em grande parte do mundo ocidental, há menos liberdade e menos democracia do que existia entre as décadas de 70 e 90.

    = pensamento único da escola pública + universidades públicas que são verdadeiras madrassas (por cá é a FSCH e o ISCTE, por exemplo) + pensamento étnico e racializado + a enorme falácia do multiculturalismo + ideologias de esquerda como “moeda” e elevador social + vulgarização do espaço mediático (= pensar que pessoas suburbanas sem cultura têm a mesma capacidade de julgar que alguém que estuda a genealogia da leis) + usar falácias intelectuais como unidades representativas (i.e. suposições jornalísticas como “os portugueses acham” e “os populares” e um infindável número de “vontades colectivas” que não passam de artimanhas de linguagem de determinados agentes políticos) — e há muito mais.

    Isto dá nisto — e vai piorar.

    1. Veio para ficar a moda de derrubar estátuas (até do Gandhi!) e mudar o nome a ruas, praças e estabelecimentos universitários, em nome de uma leitura contemporânea, unidimensional e politicamente correcta de acontecimentos pertencentes a um passado já secular, dando honras de panteão ao anacronismo e ao revisionismo histórico, fomentando a ignorância.
      Tudo quanto não cabe nos novos cânones é como se nunca tivesse existido. Como escreveu o outro, «quem controla o passado controla o futuro».

      1. E o paradoxo mais interessante será, caro Pedro Correia, ou será impressão minha, a atribuição, não sei se por magnanimidade, complacência ou por sagração, aos derrotados ideológicos do obséquio de escreverem a história!!
        O exemplo mais evidente e expressivo mora aqui ao lado, em terras de nuestros hermanos!! Ainda, hoje, andam a reescrever a história, os legatários da mítica II República!
        E note-se, a título de exemplo surpreendente, que se revelam, trabalho de jovens historiadores nascidos nos idos de 80 e 90, coisas surpreendentes sobre os idos de 60 e 70 a personagens que viveram os idos de 60 e 70.
        Com estupor, e alguma paciência, confessam que desconheciam ter vivido tamanha coisa! Uma delas, Peres Reverte, ficou a saber que tinha, no seu tempo de escola, de cantar o cara ao sol. Contudo, confessa entre dentes Peres Reverte para não incomodar muito jovem historiador, não tem qualquer memória de o ter feito!!

  4. Penso que alguém já referiu aqui no blogue o caso mais recente: a colocação na prateleira por tempo indefinido do filme “The Hunt”.

    1. Vai acontecer cada vez mais vezes. Com outros filmes. E com peças e com livros e com séries (veja-se o que sucedeu em ‘House of Cards’, série miseravelmente abortada, desvirtuando todo o espírito original, como se fosse a mais rasteira das ‘soap operas’).

          1. PS – mas os censores andam moles: então e o ´chien andalou’ ?

            Outro efeito colateral positivo: voltou a ser fácil fazer uma escandaleira, vamos desenterrar o Breton e seus amigos.

          2. “The Kill Bill films were a cinematic orgy of onscreen violence, most of it directed at Thurman: her character is severely beaten throughout and buried alive.”

            Vamos fazer de conta que nos esquecemos de que, numa só cena, Thurman decapitou, degolou, desmembrou e dividiu dezenas de personagens masculinos (os Crazy 88). E vamos também fazer de conta que nos esquecemos de que, por muita violência que a personagem de Uma Thurman tenha sofrido, quem lha causava ficou sempre em muito pior estado. Vamos igualmente fazer de conta que não reparámos que a personagem foi enterrada vida e safou-se pelos seus próprios recursos – e que, neste filme do tal misógino Tarantino, as mulheres eram tão ou mais capazes e perigosas do que os homens. Etc, etc…

            Já disse antes e estou convencido de que vou ter cada vez mais oportunidades para o repetir: estes militantes que apenas têm um martelo como ferramenta olham para tudo como se fosse um prego.

          3. Teremos brevemente, na edição do Guardian em Portugal, o P, pérolas da mesma natureza!
            Esta gente é para lá de tonta!!
            Afogar-se-ão nas suas trágicas fantasias!
            E só espero que não me obriguem a viver nesse seu maravilhoso mundo!!

  5. Ocorre-me a muitas vezes repetida “máxima”: os jornais vão acabar!
    Talvez acabem, em papel (e sobretudo no seu papel) mas não será por serem jornais e sim porque os seus Jornalistas escrevem o que pensam.
    E quem manda, quem é dono de jornais e/ou neles têm poder, não podendo matar os jornalistas (todos) “mata” o jornal.
    Mas como não percebo nada disto se calhar estou enganado; eu limito-me a ler jornais…
    Cumprimentos.

  6. No tempo da Inquisição, havia apenas a religião como medida de todas as coisas.
    Todo aquele que se atrvesse a pensar fora da caixa era considerado hereje e queimado na praça pública em odiosos e repulsivos autos de fé, sem apelo nem agravo. Isso era na Idade das Trevas em que o conhecimento era previlégio de um punhado de mentes brilhantes.
    Presentemente, numa altura em que existe demasiada luz e conhecimentos desmedidos, não é compreensível nem admissível que esta “religião” do correcto , este fanatismo da denúncia, do enxovalho, do alvejar e disparar de imediato, se tenha apoderado da civilização.
    E porque consentimos e calamos seremos tão maus ou piores do que os Torquemadas deste mundo ?

  7. Já começam a perceber porque Trump foi eleito? porque Bolsonaro foi eleito?

    Foram sintomas.

    São eles os que por causa da sua fala desbocada preservam por essa a razão a liberdade.da linguagem.

    Liberdade da linguagem que os Marxistas querem destruir para terem o poder totalitário de instituir newspeak – uma linguagem única – para controlar o pensamento.

    lucklucky

  8. Já nos meus tempos de Conservatório ouvia dizer que muitas carreiras de cantor, mas não só, nomeadamente femininas, se construíam na cama e falava-se de nomes em concreto. E muitas meninas até se ufanavam de o ter conseguido. Insinuavam-se descaradamente aos professores… Era quase um triunfo… Agora estas vêm queixar-se de abuso. Ouvir na TV aquela senhora a acusar o PD é confrangedor. Parece mesmo um discurso encomendado, genérico… E quase de certeza que é. Muitas coisas constroem-se e destroem-se deste modo. Dar um beijo numa menina ou senhora é assédio? Ora porra!… Até já temos gente com medo de dar o abraço da paz na Missa.
    E não é por causa da Inquisição, minha gente que para aqui a chamou… E os hereges não iam para a fogueira. Lutero, Calvino e outros… A fogueira era para aqueles de quem o Estado, o poder, e uma certa sociedade ou cultura se queriam livrar… Muito raramente por questões de religião, e isto quando havia outras implicações. Mas isso ninguém quer saber. Não interessa. E agora assustam-se com estas delações, denúncias, falsas acusações, suspeitas, etc. próprias de um “puritanismo” que foi condenado como heresia, mas que anda por aí impune, made in USA. Também já sofri isso e tive que resistir… E nem oportunidade me deram de me defender. Não era conveniente. Eu era incómodo e basta!…

    1. Ter tocado há 25 anos num braço de uma colega, numa reunião de professores, neste momento já é considerado “assédio” nos meios universitários norte-americanos – com punição retroactiva.
      Como em tantas coisas, também aqui os EUA lideram no disparate, em que vão largamente destacados.
      E são cada vez mais raras as vozes que lá ousam levantar-se contra esta histeria.

  9. O que eu acho interessante nesta última “campanha” do Pedro Correia (PC), aqui neste blogue (que cada vez mais até é apenas exclusivamente mais seu!), é que ele recorre a um qualquer “caso” («O mais recente alvo dos novos censores é Tarantino», recuperando assim, para sua argumentação, apenas um mero artigo em que ele constata uma evidência: «His interest in savage violence against woman is, if we look back, a common thread in almost all his films.» mas que ele, na realidade até nem aborda de todo e, por isso, não nega ou contesta!), supostamente, para o utilizar como suporte – neste caso! – à sua “tese”! Claro, a “sua” visão é apenas uma entre as muitas das cambiantes do visões da questão, do “politicamente incorrecto”: é que imaginem, ele até é, definitivamente, contra quem ache que os «”liberais democratas”» «criaram os problemas e agora querem vender-nos as soluções» (diz ele em resposta: «O seu ódio aos liberais mal disfarça o seu ódio à democracia.» ou seja, por palavras feias, responde ao que as descobriu bonitas! Tem ele, ou o outro razão? Não faço qualquer ideia mas gostei como ele até o considerou como, exclusivamente, o “és estúpido!”… e eu até nem quero estar associado a ti!), mas ele até nem está contra quem ache que «As pessoas deixaram de pensar pela própria cabeça.»… até porque ele, por mero acaso, até nem é uma “pessoa”! Na verdade, ele até recusa alinhar com o «comportamento de rebanho», aquele em que ele até descobre que «o próprio poder judicial se vê crescentemente acossado pela “fúria justiceira” daqueles que, por berrarem mais alto, se imaginam possuidores da razão absoluta a favor da sua tribo.»… não fossem até as nossas grandes polémicas relacionadas com a – como ele diz! – “fúria justiceira” até terem mais a ver com interpretacções bíblicas sobre mulheres “castigadas” com réguas com pregos e coisas do género… tudo na “onda” do que ele condena mas não tanto como condena quem julgue Woody Allen!.
    Mas afinal o que quer o Pedro Correia?
    O que não pode ter! O seu mundo-em-ordem em que os seus “heróis” que, até aqui eram “carneiros” («Quem aplaude a caça às bruxas contra Woody Allen») mas que agora, acabaram por se revelar como “porcos”, voltarem a ser “carneiros”! Ou a ordem natural do seu universo em que tudo até era perfeito…
    Alguém imagina o que diria o PC, ou todos os que apoiam as suas intervenções “politicamente incorrectas”, mesmo nas suas várias nuances em que a timidez é apenas uma manifestação da sua cobardia, se o seu padastro fosse o “frágil” Woody Allen? Sim, aquele que trocou a sua “mãe” por uma sua “irmã”? Ou porque raio ele deve ter mais crédito do que a sua “filha” Dylan Farrow? Porque a Justiça o “ilibou”? Galo a cantar de alto no seu capoeiro?
    Como já lhe disse uma vez, eu tenho uma filha de um casamento da minha actual companheira – ao contrário do PC, até sou um “politicamente correcto” mas sei que ela, mesmo não sendo minha filha, ela “até é” , de facto “minha filha”! E, claro, nisso até sou decisivamente, “politicamente incorrecto”, ao contrário do PC que até é “politicamente correcto!”
    PS – sim, mais uma vez, voltei a cometer aquele crime, o de voltar a “escrever demais como se isso me desse razão”! Anteriormente, o meu crime – para si! – era que aqui, que quem mandava até era V.! Nunca descobri foi uma resposta digna, da sua parte a qualquer das suas duas posições : é que até nem mesmo a propósito de um filmezeco de 3.a categoria, “pintado” (exclusivamente!) por si como uma “obra-prima”, V. deixou de se posicionar como aquilo que eu lhe chamei: o senhorio!

    1. O problema é que, a pretexto dos ´pecados’ do Allen/Polanski, ou dos temas e estilo dos filmes do Tarantino, essa gente quer impedir-nos de ver os seus filmes. E isso é inaceitável, pois mesmo que ps autores sejam/tenham sido condenados, o mesmo não se aplica aos filmes. Quanto nos ataques ao Tarantino, não têm sequer ponta por onde se pegue (digo eu que não gosto nem um pouco dos seus filmes).

      Pior, tentam intimidar quem insiste, de acordo com a sua ética, em mostrá-los. Essa gente tem todo o direito de exigir que a justiça funcione , mas não tem o direito de se imiscuir naquilo que não lhes diz respeito, como por exemplo a programação de uma cinemateca. É tão simples como isto.

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