Simone de Beauvoir, Sartre e Che Guevara em Havana (1960)
Sempre houve excelentes escritores em péssimas companhias. O século XX está cheio deles – Pablo Neruda e Rafael Alberti com as suas odes a Estaline, Ezra Pound com as suas loas a Mussolini, Drieu La Rochelle rendido a Pétain, George Bernard Shaw defendendo as purgas em Moscovo.
Nunca mais acabaríamos se alargássemos a lista a todos os escritores que defenderam o indefensável. E que tanto contribuíram para que a palavra “intelectual” tenha caído em desgraça.
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir pavonearam-se na Havana “revolucionária”, prestando tributo ao castrismo. Mas, entre Fidel Castro e Che Guevara, preferiam Che. Quando o argentino foi assassinado na Bolívia, morrendo de modo idêntico ao que conduzira tanta gente à morte em Cuba, Sartre escreveu que tinha desaparecido “não apenas um intelectual, mas também o mais completo ser humano da nossa era”. Exagero tipicamente parisiense somado à miopia ideológica, com reflexos inevitáveis na perda de prestígio dos intelectuais no mundo contemporâneo.
As palavras, quando mal usadas, gastam-se depressa. O mesmo sucede às ideias no implacável confronto com os factos históricos: nada a fazer quando não resistem ao elementar teste do tempo.

![sartre-and-che-small-2-web[1].jpg sartre-and-che-small-2-web[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2016/20117658_atUnR.jpeg)
Se Pedro Correia diz que Sartre era uma besta, Sartre era uma besta.
Mas letrada. Uma besta letrada.
A fotografia foi tirada em 1960, apenas um ano após a revolução castrista. Nessa altura, o castrismo ainda era deveras moderado e os seus crimes ainda seriam pouco conhecidos e pareceriam justificáveis.
Não tem comparação com, por exemplo, as odes de Neruda a Estaline.
De acordo. Aliás Sartre viria a enfrentar o castrismo mais tarde, sobretudo a partir do momento em que Castro esteve na primeira linha do apoio à invasão da Checoslováquia, em Agosto de 1968. Mas atenção: uma parte significativa dos condenados à morte na Cuba castrista, em “julgamentos” sumários onde não houve as mais elementares condições de defesa para todos quantos viriam a ser executados sem apelo nem agravo, ocorreu nos dois primeiros anos do regime implantado em 1959.
Na cara de pau, sempre se arranja uma justificação para os erros cometidos por miopia ideológica, sempre que esses erros se tornam indisfarçáveis e incómodos. No mínimo, chamam-lhe “romantismo”. Fofos.
É verdade, Fátima. O que não torna a coisa menos inaceitável.
Pedro, deixemos os mortos de hoje enterrar os mortos de ontem. Neste momento, na Europa, resgatam-se Bancos e deixam-se naufragar pessoas. Polemizemos com isto.
Neste momento, em Cuba, mantém-se incólume o regime que Sartre celebrou em 1960.
Reinava ainda Salazar em Portugal.
Custa a crer que tanta coisa tenha mudado. O homem foi à Lua, houve revoluções e epidemias e guerras e invenções e descobertas. Caiu o muro de Berlim, desmoronou-se o bloco soviético, as Torres Gémeas vieram abaixo. O computador pessoal generalizou-se. Surgiu o telemóvel. Apareceu o multibanco, a via verde, o GPS, a internet.
E em Cuba tudo permanece igual.
Este é também o planeta em que vivemos hoje – não apenas a Europa, o continente com o mais elevado PiB ‘per capita’ do globo.
Alguns dos que há meio século vitoriavam a ditadura cubana ainda agora o fazem, ainda por cima com argumentos de pretensa autoridade moral.
Insensíveis a tudo o mais.
O problema é mais profundo Pedro. E enquanto não procurarmos dentro a solução para os problemas de fora a tecnologia, o “progresso”, apenas tornará a maldade mais refinada. Mais subtil. Mais cínica. Mais educada. Sim, o grande feito do progresso poderá ser esse. Uma maldade educada.
Ontem matava-se por ideias – nunca boas, obviamente; nenhum bem poderá provir de um mal. Hoje mata-se por aborrecimento. Empanturramo-nos de chocolates e cabrito, enquanto na televisão correm choros, gritos e sangue. Como conseguimos aguentar o vómito? O progresso foi todo na decoração da casa. Esquecemo-nos que o que a sustém são os pilares. Quando foi a última vez que os fomos ver? Lembra-se?
Não concebo nada pior do que matar por ideias. É a perversão suprema do homem como ser racional.
Acha que devemos prestar culto à Razão? A razão apenas é capaz de contas mesquinhas e egoístas. Ela de nada vale se não for posta ao serviço da Emoção (do certo e do errado; do justo e do injusto). Racionalmente o que me leva a ajudar quem nada me pode dar em troca? É pela emoção, pela empatia, que o faço, não por cálculo racional.
Como Bernard Shaw dizia:
Existem dois cães dentro de nós. Um bom e um mau. Qual leva a melhor? O que alimentarmos mais.
E pior que matar por uma ideia, é matar por coisa nenhuma.
Sim, o homem enquanto animal racional deve prestar culto à razão. O ser racional é a medida de todas as coisas.
Matar por coisa nenhuma é prestar culto ao absurdo. Entronca no existencialismo – a existência precede a essência, etc. Tema muito bem reflectido no romance ‘O Estrangeiro’, de Camus.
No século XX matou-se demasiado por ideias. As ideologias estão manchadas de sangue. Gostava de poder dizer que estamos curados desse vírus, mas não tenho a certeza.
“Não concebo nada pior do que matar por ideias.” Uau, os herois (pelo menos os mais apreciados) matam por ideias. Depois há uns que é para roubarem ou por causa de alguma gaja.
Nada pior do que matar por uma ideologia. O fanático que coloca uma bomba num local público e faz explodir cem inocentes não tem perdão.
Depende de quem ganha. Se os que colocam a bomba saírem vencedores é vê-los nos livros de história como heróis. Se perderem resta-lhes apenas a imprensa local.
…não há inocentes, mas sim “menos culpados”. A partir do momento em que votamos deixamos de ser inocentes.
Pedro, enquanto formos capazes disto…
https://www.youtube.com/watch?v=NktBLXu0 Fec
…há esperança para todos nós.
De acordo consigo.
“Alguns dos que há meio século vitoriavam a ditadura cubana ainda agora o fazem, ainda por cima com argumentos de pretensa autoridade moral”, mas de barriga cheia.
Outros procuram esconder o que está a acontecer em Cuba, distraindo a malta, falando do tempo e outras coisas assim. O Filinto é um bom exemplo disso.
A propósito de Filinto Elísio, lembrei-me agora de um poema dele:
«Ninguém vês ir com cândido desejo
Aos Sénecas, aos Sócrates de agora
Perguntar as lições tão necessárias
De ser honrado, ser com todos justo.
Tão sobejos se crêem de honra e virtude,
Que cuida cada um poder de sobra
Mostrar na Ocasião virtude a rodo,
E chega a Ocasião, falha a virtude.»
E George Bernard Shaw não se fica por aí. É um exemplo de ponte entre o Eugenismo com Comunismo.
Juntar o inútil ao desagradável.
Para quais das partes? Eugenismo, inútil, e comunismo, desagradável?
É que em inútil, do eugenismo, suponho, não existe nenhuma condenação moral, apenas utilitária, por parte do Pedro. Quanto ao desagradável apenas uma condenação estética.
Outra forma de dizer que é tudo mau.
Em psiquiatria, monomania (do grego monos, “um”, e mania, “loucura” ou “frenesi”) é um tipo de paranóia na qual o paciente tem uma única ideia ou tipo de ideias.
“Mais fácil é entrar um camelo por um buraco da agulha que um rico no céu”
“O Homem venera o que Deus abomina”
De um famoso comunista.
Não conheço essa segunda citação. De quem é?
Evangelho segundo Lucas, 16:14-15
Este post dá que pensar.
Como dá o artigo de Louçã no Público de 10 de Dezembro. Como dá o post “Palhaços ou incómodos” no Ladrões de Bicicletas de 9 de Dezembro. Afinall o Reino Unido está cheio de criminosos. Ou só é criminoso quem utiliza as armas, não quem as fabrica, vende e lucra?
Mas a História está cheia de criminosos, melhor só os criminosos fizeram História. Vejamos Napoleão. Quem viu na TV um film sobre a retirada do exército francês da Rússia e as amputações sem anestesia, as mortes da neve, etc. não pode deixar de pensar que Napoleão causou muito mais sofrimento do que Fidel e Guevara juntos. Mas em toda a parte Napoleão é apresentado como um herói e um génio militar. À custa de quanto sofrimento? Fidel parece um anjinho ao pé dele.
E a escravatura, o tráfico de negros, o colonialismo? Os massacres das guerras coloniais incluindo as portuguesas (Wiriamu e não só). Eu fiz parte do exército colonial (fui forçado). O exército português estava cheiro de criminosos ou não? Quem mata a sangue frio é criminoso ou essa designação só se aplica a Fidel?
Não quero ser longo. Deixo à vossa imaginação o seguinte. Quem foi Pizarro e o que foi o extremínio dos ameríndios. Vasco da Gama foi um herói ou um criminosos? E o Infante D. Henrique? E Magalhães que mandou matar e esquartejar os comandantes espanhois revoltosos? E G. W. Bush? Ou este, sendo dos “nossos”, fica dispensado do epíteto de criminoso? Forjou provas. Fez morrer no Iraque muito mais americanos do que o atentado das torres.
Na História só entram criminosos! É?
É verdade: a História está cheia de criminosos. O primeiro de que há registo matou o próprio irmão. Chamava-se Caim.
Está a falar a sério?
Há dias vi na TV a história de Hanibal (o cartaginês, é assim que se escreve o nome dele?). Do seu ataque a Roma através dos Alpes. Para quê? Quanto sofrimento? Hoje até os dos animais viriam em socorro dos elefantes.
Mas ele é insensado como um herói e génio militar. Porque conseguiu matar (o pior nem é matar, é provocar sofrimentos atrozes) muita gente hoje é admirado.
Para falar verdade admiro mais aqueles que assaltaram um comboio no Reino Unido há umas décadas.
E já agora, que dizer de Luis de Camões que se fartou de elogiar os valentaços que mataram e assaltaram quem estava em sua casa?
Tenha lá calma com o andor Não vá tanto para trás. Ou…
Evangelho Segundo Lucas (Versículo 19-27)
“Porém a esses meus inimigos que não quiseram que Eu reinasse sobre eles degolai-os na Minha presença”
J.C
Resumindo para o J.L. quem lutou contra o Nazismo foi um criminoso.
Mas isso foi só até ao dia 22 de Junho de 1941. Não é?
Lutar contra a Ditadura de Saddam foi um crime, mas lutar contra a Ditadura Colonialista Portuguesa que comparada com Saddam era muito menos brutal já não.
Se G.W. Bush provocou milhares de mortos o 25 de Abril provocou 1.5 milhão de mortos? Foi o resultado das guerras civis em Angola, Moçambique etc. mais a invasão de Timor Leste pela Indonésia.
Ex Militar colonial JJ
” Exercito português estava cheio de criminosos”
É verdade… valerá a pena nomear os que dele fizeram parte e hoje são heróis do 25 Abril, Panteáveis e medalhados até aos fundilhos?
….
Se foi militar ( o que duvido) certamente, que viu (mesmo em foto) milhares de portugueses estropiados pelo “exercito” de Holden Roberto…
E
Tanto os nossos como eles, são hoje Heróis/
Amendes – Norte de Angola 1961/63
“Se foi militar ( o que duvido) ”
Tem alguma razão, reconheço. Eu nunca fui militar. Aconteceu é que me tiraram de casa e me vestiram à força uma farda. Depois percebi que se me matassem com aquilo vestido seria menos grave do que sem aquilo.
Por acaso lá me safei e hoje até recebo uma pensão de ex-combatente de uma quantitativo tão ridículo que até penso que é a fazerem pouco de mim mais uma vez. Quem ma deu foram dois mInistros (pelo menos assinaram a carta) de nome P. Portas (que nem sabe o que é tropa) e Bagão Félix (não sei se sabe nem me interessa).
Enquanto as elites tomam parte na vanguarda dos acontecimentos, o povo toma na retaguarda. ( Georges Najjar Jr – “desaforiamos” )
Prezada Julianna
Permita-me lembra-lhe :
“Há elites que também tomam na retagurda!
(José Camarinha ” A Assembleia dos Segredos”)
Duas coisas que me saltam à vista nesta fotografia são o charuto e o uniforme militar, sobretudo as botas, de Guevara. Ambas são sinais muito ominosos de uma institucionalização e aburguesamento da revolução. O guerrilheiro romântico transformou-se num militar instalado. O defensor dos pobres transformou-se num fumador de charutos.
Luís, as revoluções redundam, de uma forma geral, apenas na substituição de quem detêm o poder. O mecanismo, o sistema, sob alguma maquilhagem propagandística, fica igual.
Lembra-se de Lampedusa, no Leopardo?
Como? Um defensor dos pobres não pode fumar charutos??
Não. E não podem ter amantes e vestir paletó (é por isso que os socialistas perderam a credibilidade – o contrário dos comunistas, que ainda vestem T-Shirt).
O Code dress foi a perdição dos Socialistas/defensores dos pobres. Vestem-se à patrão. Cheiram à patrão. Comem à patrão