A opinião pública alemã foi no início fortemente contrária à integração no euro. Os alemães orgulhavam-se do marco e pretendiam manter a divisa nacional. O sistema monetário europeu foi concebido pelo presidente Mitterrand para amarrar Berlim ao compromisso comunitário, pois receava que a Alemanha reunificada voltasse a ter uma voz plenamente autónoma numa Europa que progredia para Leste.
Este desígnio estratégico permanece em vigor. Digam o que disserem os quixotes de turno, a construção europeia não se fará sem a Alemanha e muito menos contra a Alemanha: eis uma evidência que fala por si. E ainda bem: graças a ela, pudemos disfrutar de sete décadas de paz na Europa.
Penso rápido (63)
Pedro Correia,

pudemos disfrutar de sete décadas de paz na Europa
Numa Europa convenientemente reduzida, digamos assim. Está a esquecer as longas guerras na ex-Jugoslávia e, atualmente, a guerra na Ucrânia.
Os dois exemplos que menciona reforçam a minha tese. Decorreram ambos fora do perímetro da UE. Ou seja: a UE é um espaço de paz e liberdade que se vem prolongando há seis décadas. Não por acaso uma das ex-repúblicas jugoslavas – a Croácia – é o mais recente membro deste espaço comunitário. Os croatas – como, antes deles, os eslovenos – sabem bem onde devem situar-se.
Você escreveu “sete décadas de paz na Europa”. Ora, a Europa não é só a União Europeia.
Por favor escreva com precisão.
Subentendo a inteligência dos leitores: a UE assegura paz no seu espaço de jurisdição – hoje, em 28 países – não no território extra-comunitário. Por isso é que eslovenos e croatas aderiram à UE. E sérvios e montenegrinos querem seguir-lhes o exemplo.
Eles sabem bem de que lado está a paz. E de que lado sopram os ventos da guerra.
A opinião pública alemã foi no início fortemente contrária à integração no euro.
Certo. Então seria bom que fizessem como inicialmente queriam e se “desintegrassem” do euro. Que se fossem embora, que voltassem ao marco. Isso seria bom para todos. Ficariam os alemães satisfeitos e nós e os gregos também.
Essa é a perspectiva da direita xenófoba e populista alemã.
O sistema monetário europeu foi concebido pelo presidente Mitterrand
Essa é uma versão muito simplificada da história. Como se um só homem, ou até mesmo um só país (a França), pudesse conceber e fazer aceitar aos outros uma coisa tão complexa como o sistema monetário europeu.
Na verdade, o euro trouxe enormes vantagens à Alemanha, pois eliminou o risco cambial nas trocas comerciais dentro da Europa. O risco cambial e as guerras cambiais – países europeus a desvalorizarem a sua moeda para roubarem mercado aos outros.
Luís, estás a colocar bons argumentos, para variar…
No entanto, aqui é verdade que houve uma pressão de Mitterrand para unificar a moeda. Por exemplo:
https://euobserver.com/political/119735
No entanto, estou de acordo em geral contigo.
O argumento da “mesma moeda” nada significa em termos de paz, basta ver que as guerras civis começam com a mesma moeda, e isso não atenuou a crueldade.
Há uma coisa perfeitamente clara, independência e federalismo são incompatíveis. Os alemães voltaram à postura ultra-nacionalista, que não ocorria desde Hitler, e mostraram estar perfeitamente a marimbar-se para os outros, ao mesmo tempo que os querem amarrar à estrutura federativa.
o Euro fanatismo…afirmar que foi o Euro que trouxe a paz à Europa? o Euro trouxe à falência económica dos povos mediterrânicos europeus …a paz foi feita à custa dos povos mediterrânicos…a mesma moeda para economias com dinâmicas diferentes…no inicio já foi uma aberração…agora ter a mesma moeda para economias com dinâmicas bastante distintas motivada pela maneira de ser dos povos e absurdamente endividados…
Curioso: os povos “falidos” em consequência do euro preferem continuar na moeda única. Gregos incluídos.
saia o primeiro…
Não vejo ninguém com responsabilidades governativas reivindicar o abandono da eurozona, a segunda maior economia mundial. Embora admita que alguns gregos, manifestamente irresponsáveis, prefiram o rublo ao euro. 635826
Vejo, isso sim, novos estados a aderir à eurozona. Há seis semanas entrou mais um: a Lituânia.
http://www.bbc.com/news/world-europe-30
Mas os alemães só aceitaram com a moeda a ser desenhada segundo as suas exigências. O resultado está á vista.
Está tão à vista que em Portugal 90% dos eleitores querem continuar no euro: só o PCP advoga o regresso ao escudo. E mesmo na Grécia o euro é apoiado por 75% da opinião pública.
Só o PCP?
Então e o MRPP? E a Alternativa Socialista (é este o nome?). E João Ferreira do Amaral?
E o PNR.
Essas estatísticas são irrelevantes. Eu também prefiro ficar no Euro, se as regras do Euro mudarem. Se para isso for preciso ficar agarrado a um tratado orçamental absurdo e vender tudo o que é serviço público a privados, para exportar lucros (se calhar já a nossa maior exportação?).
Duvido que alguém prefira ficar no euro se a pergunta for: quer ficar no Euro e continuar a empobrecer, ou sair e ter uma hipótese?
As estatísticas não são irrelevantes. Há um consenso muito amplo em torno do euro entre os povos europeus, como todas as sondagens demonstram. Só a extrema-esquerda e a extrema-direita advogam o regresso às moedas nacionais. Este é um dado factual que deve ser tomado em conta pelos decisores políticos.
Se continuar no euro é sinónimo de “empobrecer” imagine então como seria com o regresso ao escudo ou ao dracma, eventualmente indexados ao rublo. Imagino os índices de prosperidade.
Mas quem tem a bomba atómica somos a gente. A gente dizemos NÃO PAGAMOS! e os banqueiros boches até ficam com as pernas a tremer. Olaré.
Há 3 ou 4 anos ficariam com as pernas a tremer. Agora nem tanto.
“Schäuble está a mentir: os empréstimos a uma Grécia insolvente foram, principalmente, um resgate dos seus credores, nomeadamente aos bancos alemães.” Verdade ou mentira? Pelo menos é o que diz aquele senhor que foi conselheiro de Durão Barroso.
A Grécia, por estes dias, faz lembrar a mãe daquele recruta vendo o filho na parada: “Olha, só o meu filho leva o passo acertado…”
“Nós temos a bomba atómica”… eles têm a termonuclear .
Basta só dizerem que pensam encerrar a Auto Europa… Lá se vão 10% das exportações!
Etc e tal… Caro Bombista, não os mande para a parada!
Doctor Strangelove, I presume?
Excelente post, Pedro. Tem toda a razão. E ainda há muitos alemães que querem sair do euro, até há um partido, fundado há relativamente pouco tempo, sobre esse pressuposto (acabar com o euro na Alemanha), que está a ganhar cada vez mais eleitores.
É verdade que a percentagem dos nacionais que preferem sair do euro é muito maior na Alemanha do que nos países do sul. Por que será? É um diálogo de surdos. Na Alemanha, quer-se sair do euro, porque os cidadãos têm a impressão de que têm de pagar as dívidas dos outros países. Por seu lado, os países em crise, a sofrer com a austeridade, dizem que quem ganha com isto tudo é a Alemanha. Enfim…
Incrível, a quantidade de pessoas, nos países do sul, que comparam Merkel a Hitler, dizendo que o objetivo dela é o mesmo do ditador carniceiro, só que o tenta através da economia. Um perfeito disparate, que me deixa sempre muito incomodada. A Merkel não quer, nem nunca quis, dominar a Europa. Ela tenta segurar a boa situação do seu país, sim, olha pelos seus interesses, em primeiro lugar, por vezes, à custa dos outros, admito, pois os programas de austeridade não parecem ser a melhor solução. Mas uma coisa é certa: ela não pretende reger sobre a Europa!
A germanofobia – doença infantil do esquerdismo radical – inflama certos sindicatos de opinião em Portugal, Cristina. É pouca gente mas parece muita por dispor de inesgotável tempo de antena e de imenso espaço nas colunas da imprensa. Os germanófobos evidenciam uma ignorância chocante sobre algumas das mais lapidares lições da História. Manter a Alemanha fora da construção europeia é condenar ao fracasso imediato o projecto visionário dos ‘pais da Europa’, que sonharam unificá-la por meios pacíficos. E constitui uma ameaça à paz tão arduamente conquistada nas últimas sete décadas.
Bom ponto de situação, meu caro.
Tal como a Itália, de que ontem aqui falei, a Alemanha é o único outro país que pode saír do euro em qualquer altura, nem achei que valia a pena falar nisso ontem.
De resto sempre pensei que seria o 1º a saír e ainda está por provar que não seja…
Acontece que, ao contrário do que leio acima, um só país podia influenciar muita coisa nessa altura se esse país fôsse a França, tivesse o apoio tácito da Itália e a indiferença (que se mantém) da Grã-Bretanha, muito ligada (como continua) ao seu grande parceiro financeiro e comercial de além-Atlântico.
Mas é natural que quem chegou mais tarde e só conheça a História dessa época dos livros que leu não perceba que Europa era esta e como determinadas decisões tomadas ainda no âmbito da CECA, num espírito de construção europeia adequada à época (não vivo de anacronismos…), viríam a ser decisivos para muito do que aconteceu depois.
De resto é significativo o que o Pedro Correia refere quanto ao apoio ao euro nas opiniões públicas dos periféricos, provávelmente mais desejosos de lá ficar do que outros povos mais a norte (a Finlândia, só para dar um exemplo, andou a discutir isso há pouco tempo).
É curioso, meu caro, que sejamos tantas vezes bombardeados com “notícias” sobre a iminente saída da Grécia da zona euro quando afinal, se existe consenso entre os gregos, é precisamente acerca da manutenção do país no sistema monetário europeu. Entretanto raras vezes é mencionada a existência na Alemanha de poderosos movimentos de opinião anti-euro, como a nossa leitora Cristina sublinha (e ela sabe bem do que fala, pois vive lá há vários anos).
Dois pesos, duas medidas. Uma forma muito original de difundir informação.
Os anti-americanos primários dos últimos 20 anos passaram a anti-alemães primários.
Amanhã serão outra coisa qualquer que lhes digam para ser mas continuarão primários.
Não tenho a menor dúvida. E nem precisamos de abandonar esta caixa de comentários para constatar tal facto.
Décadas de paz? Então o que se passou na ex Jugoslávia não foi guerra? Que foi aquilo afinal? O que se passa na Ucrânia é paz? Antes dessas décadas que fez a Alemanha que já mostrou que a sua frieza continua intacta e intocável? A Alemanha não garante nada, a não ser o fazermos o que eles querem.
O conflito jugoslavo funciona, ‘a contrario sensu’, como confirmação do que referi. Por se tratar de território fora do perímetro da União Europeia. Talvez por isso algumas repúblicas da ex-Jugoslávia têm optado por ser membros da UE. Sucedeu com a Eslovénia (2004) e bem mais recentemente (2013) com a Croácia. Não consta que se tenham arrependido, bem pelo contrário.
Escreveu Europa e a ex Jugoslávia estava na Europa. Esses países aderiram à UE e a Croácia festejou, com pompa e circunstância. Só espero que amanhã não estejam como nós. Fazem auto-estradas, a torto e a direito, aeroportos, o dinheiro vem fácil, os corruptos vão aparecer como abutres……. e no fim, vem a austeridade. Estive na Croácia, no ano antes da adesão e questionei-me, onde se vão eles meter? País onde ainda estão bem evidentes, as marcas da tal guerra, mas sem a UE e com dificuldades, tudo estava bem arrumadinho e certinho. Diferenças entre a Eslovénia e a Croácia? Nenhumas, apenas o euro na Eslovénia porque de resto……..que tem feito a Alemanha na Ucrânia? Nada.
Pelo contrário: não teria havido guerra na Jugoslávia se os países que então a formavam fizessem parte da União Europeia. Mais de 60 anos depois da constituição da então Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, embrião da actual União Europeia, não consta que nenhum país membro da UE tivesse desde então entrado em guerra com qualquer outro estado-membro.
Por outras palavras: a União Europeia é um poderoso factor de paz num continente marcado por milénios de guerra. E é um factor de paz por ser também um factor de desenvolvimento – que, como bem ensinou o Papa Paulo VI, é o outro nome que devemos dar à paz.
Fala-me da Ucrânia e novamente lhe digo que também esse exemplo serve afinal para sustentar ainda mais a minha tese.
Eu sei que é politicamente incorrecto sublinhar estas evidências, mas nem por isso deixo de o fazer.
Não haveria guerra? Isso pensamos nós, se seria ou não, isso não podemos afiançar. Vamos ver, onde esta UE, nos vai levar, com filhos paupérrimos e outros riquíssimos. A CEE, foi bem pensada, mas lá vem o homem, o tal, o abutre e começa a estragar tudo. Repare que a CEE, desapareceu e deu origem à UE que está a léguas, daquilo que os seus mentores pensaram e idealizaram, a bem duma Europa, onde a entre ajuda prevalecesse.
O problema destas discussões é muitas vezes a ausência de base factual que as sustentem.
Eu, por hábito profissional, gosto de argumentar com base em factos.
Só por pertencer à CEE/UE, Portugal recebeu dos parceiros europeus cerca de cem mil milhões de euros desde 1986 em fundos estruturais indispensáveis ao nosso desenvolvimento. Nove milhões de euros por dia, se quisermos colocar a questão de outro modo.
Em grande parte devido a isso, o crescimento privado em Portugal cresceu ao longo deste quarto de século todos os anos excepto dois (2003 e 2009). Chegámos a ser o terceiro país comunitário com maior peso do consumo privado no rendimento disponível das famílias.
O que fizemos deste dinheiro, tanto ao nível público como privado, é outra discussão. Mas não me parece sério sustentar que a adesão ao projecto europeu foi um mau (ou péssimo) negócio para Portugal. Como se alguém quisesse regressar ao tempo em que vivíamos “orgulhosamente sós”.
Não leu bem o que eu escrevi, leu à sua maneira. É pena porque fiz alusão aos grandes mentores da CEE e falei da diferença da UE em relação à CEE. Também fui claro na atitude do homem nesta UE. Nunca referi que deveríamos viver orgulhosamente sós. A discussão, dos dinheiros que vieram, dariam pano para mangas.
Os números demonstram que o PIB português representava apenas 65% da média comunitária em 1986, quando aderimos à CEE. Em 2010 essa média havia mudado para 81% – ou seja, uma subida de 16 pontos percentuais.
O Pedro insiste. Eu não disse que não deveríamos entrar na CEE, disse, é que os abutres e sabe também quanto eu, rebentaram com tudo. Se assim não fosse, não estávamos como estamos. Estamos mal, embora nos façam crer que o pior já lá vai. Não vai, está cá e não sei onde Passos vai buscar o dinheiro para pagar. Era algo que ele devia dizer, mas claramente e sem rodeios. A CEE foi muito bem idealizado, mas a ganância do homem acaba por destruir tudo. É a realidade.
Deduzo portanto que, na sua perspectiva, estaríamos melhor como a Albânia do extremo ocidental da Europa, espécie de aldeia do Astérix à margem da adesão europeia?
Não. Deveríamos estar numa UE onde houvesse entreajuda de verdade, não de faz de conta. Deveríamos estar numa UE, onde não se explorassem os mais fracos. Deveríamos estar numa UE, onde houvesse justiça e os governantes pagassem pelos erros que praticam e não os povos que confiaram neles e os quais eles enganaram. Deveríamos estar numa UE, onde os banqueiros pagassem pelos seus actos e não sermos nós, a pagar. Deveríamos estar numa UE, tal como foi idealizada e não numa UE, onde os fortes esmagam os fracos.
Deduzo, portanto, que defende a saída de Portugal da União Europeia.
Não diga aquilo que eu não disse, mais uma vez. Eu quero, uma UE, melhor e mais digna dos seus cidadãos. Penso que é o que qualquer cidadão quer……
A União Europeia é um espaço de paz e liberdade. Por isso cada vez mais países a procuram. Não vejo um só estado-membro a procurar sair. Vejo, pelo contrário, diversos países a baterem à porta para entrar. Até a Turquia. E a Islândia.
Isto de liberdade tem muito que se lhe. Acha que na Grécia as pessoas estão em Paz quando não têm que comer, onde viver e trabalhar. Acha que Em Portugal os que mendigam os que têm de sair do seu país, para terem casa e comida e os dois milhões de crianças em extrema pobreza estão felizes? Acha que em Espanha as pessoas que se suicidam porque ficam sem casas e passam a ter a rua por como lar porque deixaram de ter trabalho? Se é esta a UE que quer estamos conversados.
Não há desemprego fora da UE? Não há fome fora da UE? Não há suicídios fora da UE?
Aponte-me então uma região do mundo onde se viva melhor. Gosto sempre de aprender.
Dou-lhe um ex:este fica
Dou-lhe um exemplo
na Europa não na UE,Noruega. Outro fora, Canadà.Que a UE tem virtudes, ninguém tem duvidas,mas dizer-se que isto é uma maravilha, vai uma longa distancia.
São dois dos países mais ricos do mundo. A Noruega é o terceiro maior exportador mundial de petróleo, após a Arábia Saudita e a Rússia. Tem um rendimento per capita de 100 mil dólares/ano (o quarto ou quinto maior do planeta).
Tivéssemos nós o petróleo que eles têm e também seríamos ricos. Se cá nevasse fazia-se cá esqui.
O Canadá é a sétima economia do mundo, está muito interligada à dos EUA o que basta para explicar a prosperidade que lá se regista. Mais de 80% das suas trocas comerciais são com os vizinhos norte-americanos.
É o segundo país do mundo em extensão territorial tendo apenas 33 milhões de habitantes. Fica mais fácil distribuir a riqueza, portanto.
E é também uma economia em larga medida baseada no petróleo. Tem uma das maiores reservas mundiais de petróleo e gás natural.
Mas é claro que não. Não se constrói a Europa sem a Alemanha e contra a Alemanha. Mas também não sem e contra a Grécia, sem e contra Portugal, sem e contra a Irlanda, sem e contra a França, sem e contra a Polónia, sem e contra a Finlândia, sem e contra a Inglaterra e sem sem sem.
Como construir uma Europa onde todos são importantes e muitos querem fazer parecer que são diferentes daqueles que lhe são iguais?
Espanta-me haver tanta opinião germanófoba em Portugal. Como se a Alemanha não tivesse sido o maior contribuinte líquido dos quase cem mil milhões de euros em fundos estruturais que recebemos ao longo de três décadas (9 milhões por dia desde a nossa adesão à então CEE, em 1986). Como se não tivéssemos recebido mil milhões de euros em investimento germânico só em 2014 (Volkswagen, Siemens, Bosch, Bayer, Leica…). Como se só a Autoeuropa não valesse cerca de 1,5% do PIB português.
Eu sei que os factos por vezes atrapalham. Mas são inevitáveis: acabamos sempre por esbarrar com eles.
Pedro,
tudo isso é válido; e o retorno desse investimento e comparticipação também não é menos válido. O importante é compreender que ninguém pode fazer tábua rasa das políticas passadas para interpretar o presente à sua maneira. O problema reside neste interpretar da história. Todos beneficiaram, mas há quem queira tirar benefícios para se beneficiar.
Certo. Mas há também aqui uma questão de escala que não pode ser menosprezada pois as coisas são o que são.
Ouvindo por estes dias alguns comentadores cá do burgo dir-se-ia que um país que representa 2% do PIB da UE está em condições de impor novas directrizes à economia comunitária.
Meu caro Pedro,
é o Pedro que retira importância à sua participação na construção desta Europa. Pois se entende que tudo depende da percentagem do PIB posso concluir que a Grécia por ter tão pouca importância está a actuar de forma correcta. São os restantes países europeus, em particular os grandes, que estão a exagerar em suas atitudes. Correcto?
Caro Vento:
Algo parece-me não bater certo quando por um lado se desvaloriza o peso da argumentação alemã nas divergências com a Grécia – passando por cima da irrelevante contribuição grega para o PIB comunitário – em nome da necessidade de atender aos argumentos “minoritários” (escrevo assim para encurtar razões), mas por outro lado, na análise do conflito russo-ucraniano, já se valoriza a linha argumentativa do “lado forte” (ou seja, Moscovo) em detrimento da parte mais fraca (a Ucrânia).
Parece-me ver aqui dois pesos e duas medidas.
O mesmo se aplica aliás ao papel da chanceler Merkel, criticadíssima na gestão da crise grega mas elogiada sem rodeios por fazer frente aos falcões americanos e da Europa de Leste na difícil gestão da crise ucraniana.
É o seu comentário que confirma que a Alemanha só tem peso com a restante Europa. Merkel jamais teria essa importância se não lhe fosse conferida pelos restantes. Acontece que existe um limite para suas intervenções, e esse limite coloca-se exactamente no momento que ela ou eles possam pensar que os outros não têm direito a pensar e a intervir.
O que define interesses comuns é a concertação dos interesses de todos e para todos. A Grécia está a mostrar o que outros não são capaz de discernir, isto é, que não é possível ter uma política comum contrariando o interesse dos comuns. A questão da dívida grega só se coloca pela impossibilidade de a solver nos termos comuns, tal como as demais. E a Europa de Merkel quer fazer crer que a rotação indefinida da dívida, através da pobreza de todos, também da Alemanha, é aquela que serve os interesses. Mas os interesses de um sistema financeiro que conseguiu sacudir a água do capote transferindo as responsabilidades que lhe competiam para a esfera do comum. Socializaram-se as perdas em benefício do incomum. E estas perdas estavam domiciliadas na Alemanha e em França, maioritariamente.
Olhe que não, caro Vento, olhe que não. A Alemanha protagonizou um dos processos de maior sucesso político das últimas décadas ao reunificar-se de forma pacífica e sem necessidade de ajudas externas. Contrariando na altura todos os profetas da desgraça, à esquerda e à direita. Incluindo países aliados, como a França de Mitterrand ou o Reino Unido de Thatcher.
A Alemanha é e será um grande protagonista natural na Europa, dentro ou fora da União Europeia. Aliás se estivesse fora nem haveria União Europeia.
A reintegração alemã foi feita através de um processo que se iniciou na Polónia e nos estaleiros de Gdansk, mas também na Hungria e na Checoslováquia. Todo este processo teve o apogeu com a Glasnot e a queda do muro e, posteriormente, com a Europa a pagar essa mesma reintegração (foram estas as ajudas). e/351551-o-peso-do-euro-na-reunificacao
Mas para que compreenda essa pertinente questão que tem colocado sobre o facto do euro ser uma imposição de Miterrand, deixo aqui uma outra perspectiva e, pelo que foi apurado, exacta:
http://www.voxeurop.eu/pt/content/articl
O Pedro tem uma concepção histórica da importância da Alemanha. Acontece que a história foi sendo feita e com ela as transformações geopolíticas. A Alemanha não tem importância num contexto isolado. Já ninguém o tem, nem mesmo a Rússia, a China, o Japão e os EUA.
Da mesma forma não se construirá esta Europa sem a Rússia.
Estou com dificuldade em apreender a sua lógica, caro Vento.
Se relativamente à crise grega não devem ser levados em conta os argumentos da Alemanha, a maior potência económica europeia, já relativamente à crise ucraniana devemos levar em conta os argumentos da Rússia, a maior potência militar (e nuclear) do continente.
Deverei concluir que na análise das relações internacionais devemos sobrestimar a lógica do gigante militar, ainda que seja um pigmeu económico, e subestimar a lógica do gigante económico, ainda que seja um pigmeu militar?
Cuidado com esse raciocínio, capaz de nos reconduzir à lógica estalinista. Faz-me sempre lembrar aquela vez em que Estaline perguntou quantas divisões militares tinha o Vaticano…
O Pedro é hábil em tentar misturar aspectos que não são abordados para tentar demonstrar contradições que não existem. Esses caminhos conheço-os como a palma de minhas mãos e sou capaz de os contrariar.
1 – No seu post o Pedro procura inocentar a Alemanha de todo um processo que ela mesmo percorreu e lhe foi útil; e apresento-lhe argumentos contrários à essa mesma lógica;
2 – A habilidade pretendeu estender os seus superavits para leste. Mas para que fosse possível isto, sabendo que outras nações estavam reféns dos mesmos interesses de seu sistema financeiro, em particular a França, era necessário transferir as responsabilidades deste sistema financeiro para a esfera dos contribuintes europeus. Como não era e não é possível cobrar esses montantes, a solução encontrada reside no facto inequívoco de se transformar o pagamento dessas dívidas em RENDAS. Rendas essas que se traduzem na manutenção da dívida e não cobrança dos juros e das comissões que lhe são inerentes.
Acontece que esta situação, o da contínua rotação da dívida e do pagamento dos juros que lhe subjazem, asfixia o contexto socioeconómico dessas países, e, por acréscimo, daqueles que lhes impõem.
Sucede que esta asfixia ocorre nesses que lhes impõem na medida em que encontraram uma contrariedade que leva por nome Rússia. Isto é, se as ambições a leste não tivessem sido maior que a barriga e não tivessem colocado em causa a segurança estratégica de um gigante que dá provas de não ceder nem a ameaças nem a sanções, a Alemanha, juntamente com a França e a Inglaterra, talvez tivesse sido capaz de concluir suas ambições.
3 – Paralelamente ao anterior exposto surge um povo determinado a pensar e a mostrar que a razão pode vencer a irracionalidade, ao contrário da casa de bonecas com que se pretende entreter o povo luso, que até nem se revê em vestidinhos cor de rosa e barbies financeiras.
Tudo isto para dizer-lhe, Pedro, que em mim não terá sucesso a habilidade que usa para encontrar contradição em minhas exposições.
Por favor, onde se lê «e não cobrança dos juros» leia-se e na cobrança de juros.
Chama gigante à Rússia. Mas a Rússia não é hoje gigante em nada excepto no arsenal nuclear.
E sobretudo não deve ser modelo para ninguém. A Rússia contemporânea é uma ditadura filofascista com ambições territoriais de cariz imperalista que não olha a meios para atingir os fins e suprime as aspirações de liberdade e prosperidade do seu povo.
Sinal de fraqueza, não de força.
Putin poderia fazer a mesma pergunta que Estaline fez: “Quantas divisões tem o Vaticano?” Olha mas não vê. O essencial é invisível aos olhos dos tiranos.
“…a construção europeia não se fará …”. Não, não se fará.
Não há condições culturais (nem nunca poderá haver) para a construção de uma
Europa.
Os EUA foram sim “construídos”. Por sucessivas vagas de imigrantes que até não queriam ser “europeus”e não encontraram nações organizadas.
O sucesso, relativo, da EFTA, Mercado Comum e mesmo do “Commonwealth” foi permitir a subsistência cultural das Nações constituintes apenas agregadas por interesses económicos.
A Europa, esta Europa, errou ao desprezar as Naçõese. E valorizando uma artificial Bruxelocracia e um poderoso pseudo banco-central.
“Doomed”.
Esta Europa despreza as nações? Nada mais falso. Ei-las aí, no seio da UE, e talvez mais pujantes que nunca. A nação escocesa, que há meses foi a votos para referendar a eventual saída do Reino Unido. A nação catalã, que goza de plena autonomia no Reino de Espanha. A Flandres, que não deixa de bater o pé à Bélgica francófona. A Padânia, cada vez mais autonomista.
A UE estrangulou as nacionalidades? Nada mais falso. Pensa que um irlandês se confunde com um grego ou um dinamarquês já não se distingue de um galego? Nem pensar.
O que estrangulou as nacionalidades, historicamente, foi o jacobinismo do estado central erigido segundo o modelo napoleónico. Pergunte aos normandos e aos bretões e aos corsos e aos alsacianos e aos bascos franceses.
P.C. Estamos do mesmo lado, se bem percebi, no que respeita às nacionalidades, às Nações históricas, como muito bem refere. Obg.
Agrada-me saber que sim. Sou – desde sempre – um defensor da Europa das nações e do gradualismo na construção europeia, no respeito pleno pela vontade dos povos. Na vasta e diversificada Europa coexistem sem problemas várias comunidades: a infraestatal (nações sem estado), a estatal (Estado-nação ou Estado composto por várias nacionalidades) e a supraestatal (instituições comunitárias, como a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu).
O modelo deve ser aperfeiçoado e não abolido.
Olhe aqui a opinião de outro Germanófobo…
http://www.thetoc.gr/eng/politics/articl e/j-habermas-strong-criticism-on-germany-u ndermining-the-eu
Habermas está longe de ser um visionário. Basta lembrar as críticas – hoje risíveis – que fez ao processo de unificação da Alemanha: dex.php?option=com_content&view=article&id=14&lang=en
http://www.thefederalist.eu/site/in
A profusão de germanófobos produz por sua vez cada vez mais eurófobos na Alemanha: many-europe-afds-europhobia/40968/
http://www.thecorner.eu/news-europe/ger
Os europeus, no seu conjunto, nada têm a ganhar com eurófobos ou germanófobos.
Volto ao princípio: a construção europeia não se fez nem se fará sem a Alemanha e muito menos contra ela.
Será que a unificação foi esse sucesso todo?
http://www.washingtonpost.com/blogs/worl dviews/wp/2014/10/31/the-berlin-wall-fel l-25-years-ago-but-germany-is-still-divi ded/
Foi um dos casos de maior sucesso do último quarto de século na cena política mundial. Um processo que se desenrolou com rapidez e de modo inteiramente pacífico, contrariando todas as cassandras que lançavam péssimos agoiros. Habermas foi apenas uma entre muitas aves agoirentas, afinal desmentidas pelos factos.
Oxalá o processo de reunificação coreana, que é inevitável, tenha pelo menos metade do sucesso do alemão.