Vivemos já de algum modo num cenário pós-orwelliano. George Orwell preocupava-se com a tecnologia enquanto instrumento de um estado totalitário. A questão é que a tecnologia pode ser totalitária por si própria – e, nessa óptica, induzir derivas totalitárias no mais democrático dos sistemas.
Nesta época em que tanto se fala em direitos humanos, alguns desses direitos vão sendo diariamente comprimidos ao que parece sem surpresa ou escândalo de quase ninguém. Refiro-me ao direito à privacidade e ao direito à reserva da vida íntima, por exemplo. O narcisismo exibicionista sobrepõe-se a tudo o resto.
Como há-de o Estado – mesmo o Estado democrático, já nem falo em estados totalitários – respeitar aqueles direitos se os próprios cidadãos parecem desprezá-los? A todo o momento somos filmados, fichados, gravados, inscritos, registados e vigiados nos mais diversos locais. Sem que ninguém pareça escandalizar-se.
Infelizmente entre nós estas questões só raras vezes são debatidas. Como se fossem irrelevantes. Mas não são.

Eu explico. A Esquerda domina o Estado. Logo como é óbvio não se discute.
Eu gostava de debater ideias consigo para lá dos chavões da praxe. Mas você não facilita.
Se alguma coisa em comum existe entre os regimes, quer os de oeste quer os do leste, é precisamente esta sede de controlar e dominar.
Mas não menos importante é focar esse aspecto relevante de seu texto: eles agem assim porque as pessoas são assim.
Se as pessoas soubessem que esse fichar está em toda a parte não descansariam enquanto não desmantelassem tal sistema. A começar pelo controlo que se vai aplicando em toda a parte incluindo empresas, tudo isto em nome da nossa segurança. Registos de impressões digitais para acesso a instalações, controlo de movimentos por telemóvel, videovigilância, pagamentos de portagens por via electrónica, registos de horários por abertura e encerramento de computadores em cada posto de trabalho, e tipo de manuseamento, com uso destes meios etc. etc. etc. e tal.
Mais ainda, e serve como alerta, se os vossos computadores tiverem câmara de filmar externa ou interna façam o favor de a taparem sempre que a não utilizem para comunicações, porque qualquer esperto que aceda por via de malware a vossos PCS pode usar a câmara para vos identificar e também pode ser possível controlar o microfone.
Usem sempre em vossos PC´S as definições que impedem a localização física, e nunca comuniquem questões de natureza privada e/ou confidencial por esta via.
Claro que muitos dirão que quem não deve não teme, mas devemos temer porque não sabemos que tipo de uso podem dar a esses dados.
Ninguém pense que a lei garante a segurança, ela, quando muito, poderá penalizar os transgressores, se forem apanhados.
Uma pequena adenda, Pedro, para revelar o quão pertinente é sua reflexão:
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id _news=735848
http://tek.sapo.pt/extras/montra/montra_ tek_navegue_na_internet_sem_deixar_ras_1 415110.html
Se as empresas já começam a mobilizar-se é porque na realidade já se faz sentir um mal estar a nível mundial. Acontece que nem cidadãos nem governos estão imunes a esta quebra de privacidade. Isto toca a todos, não tenham dúvidas, até mesmo a quem espia ou a quem manda espiar.
Bons conselhos, meu caro. Merecem reflexão atenta.
“Nesta época em que tanto se fala em direitos humanos, alguns desses direitos vão sendo diariamente comprimidos ao que parece sem surpresa ou escândalo de quase ninguém.” verdade, pensei que se referia ao direito à justiça e à educação que, pelos vistos, estão suspensos enquanto não se resolvem os problemas informáticos… E de facto, parece que basta pedirem desculpa para continuarmos à espera sem levantar ondas.
São outras questões, já abordadas com abundância neste blogue.
o direito à privacidade e ao direito à reserva da vida íntima, por exemplo. O narcisismo exibicionista sobrepõe-se a tudo o resto.
Há em todo o caso que distinguir entre aquelas pessoas que, narcisistas e exibicionistas, expõem deliberadamente a sua vida íntima, e aquelas que, pelo contrário, fazem o possível para a esconder. As primeiras não se podem queixar muito se a sua privacidade fôr devassada, porque foram elas as primeiras a exibi-la.
A todo o momento somos filmados, fichados, gravados, inscritos, registados e vigiados nos mais diversos locais.
Pois, eu ainda sou do tempo em que só se fotografava pessoas amigas e familiares em poses e locais apropriados – por exemplo, aquando de uma visita a um local turístico. Agora a gente jovem parece achar natural e permissível fotografar um estranho sem a sua autorização e sem que ele se coloque numa pose apropriada. Enfim, coisas de adolescentes.
Também ainda sou desse tempo.
Numa onda de aforismos 🙂
“A sociedade é em todos os lugares uma conspiração contra a personalidade de cada um de seus membros.” R.W.E.
Uma boa frase de Emerson. Vem a propósito.
Enquanto uns se abominam as “câmaras”, outros dão tudo para que as foquem:
namoros; casamentos, divórcios, chifres, plásticas, nudez, etc.
Hoje tudo se discute e decide à volta imagem!
“Marina, perdeu em parte, devido a sua má imagem” ” Globo”
Faz-me impressão ver tanta gente dirigir o foco das fotografias para o seu próprio rosto em vez de o lançar à realidade circundante. Este alheamento dos outros é uma das marcas mais relevantes (e preocupantes) do nosso tempo.
Caro Pedro, o tema é crucial, tendo também interessantes desenvolvimentos políticos e jurídicos recentes, nomeadamente ao nível europeu. nal/21621804-google-grapples-consequence s-controversial-ruling-boundary-between
Um dos últimos artigos sobre o tema do “direito a ser esquecido” encontra-se em http://www.economist.com/news/internatio
Um ponto que suscita é, para mim, o mais interessante: sem querer agora parafrasear um candidato a Comissário Europeu, como pode queixar-se aquele que não zela pelos seus direitos no espaço digital?
Tem razão. Esse é um tema muito interessante. Tenciono abordá-lo em breve aqui.
Muito importante sem duvida. Já tivemos um vislumbre quando das polemicas ongoing/carvalho e agora do GES/bes, mas como á portuguesa a eficiencia é fraca ainda vamos passando pelos intervalos dos pingos. Mas espanta-me que jornalistas e comentadores não tragam com mais frequencia o que anglosaxonicos andam a fazer a sério e fiquem toda a gente ciente das restrições da liberdade que por aí vêm -o camarão avançou logo com tirar o passaporte(cartão de identidade para nós), por enquanto só para os maus -ainda não chega aos que foram roubar o petroleo da Libia ou do Iraque.
O Snowden hipotecou a vida mas parcimoniosamente os portugueses preferem um salazar a olhar por nós!! (se não gostam do nome escolham outro:relvas, coelhos, costa, jeronimos)