Penso rápido (47)


Pedro Correia,

Poucas coisas me chocam tanto como a exibição – tão tristemente portuguesa – da inveja e do despeito perante todos aqueles que se distinguem, se valorizam, se superam a si próprios, conseguindo ultrapassar a estreiteza de horizontes a que poderiam estar condenados, contrariando todas as sinas e todos os fados para singrar na vida.
Se esse sucesso ocorrer num palco internacional, suscitando calorosos aplausos além-fronteiras, a inveja aumenta em proporção geométrica. E atinge delírios irracionais.
De todos os sintomas de menoridade que nos caracterizam, este é um dos mais notórios. E um dos mais entranhados. Como se fizesse parte do nosso inconsciente colectivo. E se calhar faz mesmo, o que explica muito do que se lê e escuta por aí.

12 comentários em “Penso rápido (47)”

  1. Por acaso, invejo imenso o Sr. Prof. Dr. Eng. Sócrates. Nascido em cascos de rolha, é um filósofo renomado, escreve livros directamente em francês, ficará na história de Portugal como o melhor PM após o 25 de Abril, tem um andar na R. Castilho, um Mercedes topo de gama, toma o pequeno-almoço com o Luís Figo, foi convidado para trabalhar na Octapharma (e na RTP, já me esquecia), tudo isto além de vestir uns fatinhos Armani que lhe ficam a matar, e ter sido considerado o mais sexy de Portugal e arredores.

    Todos os dias (e mais que uma vez ao dia) me penitencio, mas inveja dele é o que mais sinto.

  2. concordo que esse é sem dúvida um dos sintomas de menoridade que nos caracterizam, mas existem outros que considero mais notórios. logo, o tratamento de doutor- engemheiro-professor desde a casa de banho até à reunião de condóminos, passando pelo uso e transmissão de dois ou dois++ apelidos, qual criadores de linhagens, como são exemplos o durão filho de mãe durão e barroso filho de pai barroso que criou a linhagem dos durão barroso, do santana da mãe e lopes do pai, que criou a linhagem dos santana lopes do pai, e até do insuspeito aníbal, que sendo cavaco da mãe e silva do pai, criou a nobre linhagem dos cavaco e silva.

  3. É bem verdade. E a propósito do que escreve juntaria eu, à inveja e ao despeito, outra nossa tão facilmente exacerbada característica: a idolatria.

    Na homenagem prestada a quem pelas boas razões se destaca, e contraria até um destino que tudo levaria a crer não passasse da mediocridade, ou pior, o que me incomoda (quantas vezes exaspera) não é essa homenagem, posto que merecida, mas o verdadeiro endeusamento – um endeusamento superficial, feito de frivolidades – em que se converte. Endeusamento que deslumbra, intoxica, transcende o que dá causa ao mérito reconhecido e se alarga, salivante, insaciável, por questões, hábitos, posses, tiques, que deveriam ser irrelevantes. Porque de outra forma se podem até tornar pouco edificantes, ou mesmo perigosos.

    Mais, muito cuidado se deveria ter em transformar esses casos em exemplos puros, em modelos absolutos de conduta, ou em, nem que por pura omissão, permitir que em tal se tornem. Porque, como bem se sabe, a genialidade será sempre a excepção e para a esmagadora maioria de nós, de todos, o que nos espera é uma vida banal, honradamente banal e, se assim for, já será coisa de considerável mérito e admiração. Uma vida de esforço, sem virtuosismo ou génio. A não ser o de procurar, desejavelmente de conseguir, honradamente mais do que a mera sobrevivência.

    Por cada rainha da colmeia ou do formigueiro, não se esqueça, há milhares de “operárias” e só assim eles subsistem. De gente que alcança um moderado sucesso – chame-se sucesso a uma vida decente, com dinheiro para pagar as contas de um conforto não mais do que banal. Que estuda ao longo de vinte ou mais anos da sua vida, enfrentando ora o tédio do que nem lhe interessaria, ora o “terror” de sucessivos exames; o fracasso, a queda e o reerguer para nova tentativa; a labuta anónima num emprego sem brilho, entre tantos outros; que guarda com carinho a fotografia do primeiro carro – não um deslumbrante Ferrari, ou coisa afim, mas um carrito usado, envelhecido, com quinze ou vinte anos e que lhe deixou tão gratas memórias – e hoje, com talvez algo melhor do que isso, não tem sumptuosas moradias, antes um andar de subúrbio; nem faz decerto férias em iates luxuosos em exclusivas ilhas mediterrânicas, onde chega de jacto privado, e vai antes “à terra”, por umas duas ou três semanas, ou ao fatal Algarve; com sorte, permitindo-o o orçamento, e se o seu espírito quiser um pouco mais do que o sol e o reencontro, visita uma capital estrangeira, uns museus, frequenta uns espectáculos; faz talvez uma viagem de sonho, atravessa um oceano, vai ao outro lado do mundo. Uma vez na vida. Educa os seus filhos, pelo meio, e desejavelmente bem. E faz contas à vida, antes disso tudo; durante tudo isso.

    Faz contas à vida, porque não resolve a sua vida e a dos seus – salvo o sonho da lotaria ou do euromilhões – com uns minutos de génio e o correspondente prémio. Porque não é, não será, génio. Apenas gente. E isso encerra em si mérito, quantas vezes anónima perseverança a roçar o heroísmo.

    E é bom se que saiba disso. Desse mérito, desse trabalho, desse estudo, disso que somos afinal quase todos nós que não nascemos génios (ou os mais felizes de nós que não nascemos génios); que serão – com sorte e trabalho, cada vez mais sorte e trabalho – os que nos seguirem e que, não sendo génios, nos compete a nós educar, guiar, formar.

    É bom que se saiba dessas expectativas: afinal (ainda, mas não sei por quanto tempo) as realistas. E de que quase nunca se fala.

    Sem deslumbramentos.

    Costa

    1. Não, Miguel. Mas é natural que possa aplicar-se a algum acontecimento recente – da política, do desporto, da cultura, do jornalismo. Ou a um menos recente. Ou a um mais remoto. Porque isto já vem de longe. Já é bem transparente nas páginas d’ ‘Os Maias’, por exemplo (um livro de que tenciono falar em breve aqui).

      1. E já que fala numa obra do Eça, aproveito para recordar o caso do Saramago, único Nobel da literatura de língua portuguesa, que tantos anticorpos criou entre nós, a começar pelo nosso pdesidente Cavácuo.
        Se bem que neste caso não se terá tratado apenas da feia inveja, mas também do triste preconceito, igualmente característico das mentes fracas, intolerantes e incultas que por cá pululam. Penso eu de que…

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