Tornei-me ainda mais adepto do género epistolar desde que entrámos na era dos sms. Uma era que nos tem levado a uma rápida compressão vocabular. Fala-se cada vez mais rápido e cada vez de forma mais “económica”: bastam algumas dezenas de vocábulos para assegurar a comunicação instantânea. Tudo muito básico, muito linear. Ano após ano, centenas de palavras entram definitivamente em desuso entre nós. Para combater esta tendência, nada melhor do que regressar a páginas já antigas, algumas até de livros com páginas amarelecidas pela erosão do tempo. Regressar aos romances de Eça de Queiroz, regressar ao Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Regressar aos diários de Miguel Torga, regressar à prosa diarística de Vergílio Ferreira, aos contos de José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires, aos versos de Sophia de Mello Breyner Andresen, aos inflamados panfletos de Jorge de Sena. Às cartas de todos eles.
Penso rápido (38)
Pedro Correia,

Já senti isso de as palavras se tornarem desusadas não só a ler livros portugueses mais antigos, como traduções de obras de outros tempos ou feitas há já várias décadas
Sinto isso cada vez mais, Carlos. E sinto também que perdemos muito com a ignorância de tantos vocábulos outrora de uso corrente.
Por acaso, estou a ler “A Ilustre Casa de Ramires” – uma maravilha! Não só a caracterização da sociedade da época, já habitual em Eça, mas também as incursões na Idade Média, com muito vocabulário desaparecido.
Aliás, gostei muito de descobrir esta inclinação do Eça pelo romance histórico medieval. Há tempos, li o conto “O Defunto” e pasmei. Não fazia ideia, conhecia mais o Eça dos Maias, do Padre Amaro, do Primo Basílio, da Capital…
Eça é também excepcional como contista. Acontece que em Portugal há o péssimo costume de desvalorizar o conto como género literário. Se não fosse isso essa faceta dele seria muito mais conhecida.
Nunca aprendi TXT de SMS o que me deixa em desvantagem por um lado, porque demoro uma infinidade a escrever uma mensagem e outro tanto ou mais ainda a decifrar o que recebo. Por outro lado, fico felicíssima por não ter necessidade de consultar o dicionário se num filme ou num livro, num flyer de teatro, de um museu ou de um concerto, aparecer um ou dois “palavrões ” daqueles que os nossos filhos e netos identificam quase como paleografia e cujo sentido (para eles retrógrado, claro) desconhecem completamente.
Antes paleográfica do que ” hashtáguica” 🙂
LOL
Seria, quem sabe, mais produtivo exigirmos dos nossos escritores vivos mais primor no que escrevem. O Gonçalo M. Tavares tem actualmente 32 livros publicados, sendo que o primeiro foi em 2002 e o último em 2013: 11 anos de publicação; em média isso são 2.90 livros por ano, quase 3, ou seja, 1 a cada 4 meses. Numa qualquer entrevista João Tordo afirmou que escreveu um romance em 3 meses.
Eu não sei quanto a vocês, mas na minha modesta opinião um livro escrito em 3 meses nunca será melhor do que um livro escrito em 3 meses. O Saramago escrevia um livro de 2 em 2 ou 3 em 3 anos, e ainda assim várias vezes estava abaixo das expectativas; o Lobo Antunes despacha um por ano, sempre com uma linguagem muito apurada (percebe-se que ele trabalha as metáforas até estarem perfeitas), mas ele vive mesmo para isso, não viajava pelo mundo como Saramago. E depois penso nos 7 anos que Joyce e Nabokov levaram para escrever Ulysses e Lolita respectivamente, nos 25 anos de que William Gass precisou para aperfeiçoar The Tunnel… 3 meses? Não, não me convencem: e eis porque a escrita é económica, as frases atabalhoadas e vazias de figuras de estilo surpreendentes, e todo o vocabulário tirado do dia-a-dia, porque duvido que em 3 meses alguém perca muito tempo a folhar dicionários.
Houve até já um fulano que escreveu um “romance” todo em sms. Não foi cá, mas a moda não tardará a chegar. Tudo quanto não presta chega aqui muito depressa.
Não sou, por princípio, contra qualquer experimentação literária, mas confesso que não perderia o meu tempo a ler um romance escrito à sms.
E porque não “O Malhadinhas” de Aquilino? Aquele que diz: Tempos virão em que o governarão as terras vãs e os filhos das barregãs .
Só da primeira folha o verificador de ortografia não reconhece estas dezasete palavras: canadão , saricoté, bonda, assucedia, barregãs, vassorias, rabosanas, milheira, linhar, cortelho, mantenç,a estopa, apisoado, boizana, seroar, ribaldeira, corcolher
…, matença, estopa, …(.)
Aquilino Ribeiro deve ser o terror dos “verificadores de ortografia”, profundamente analfabetos.
Maravilhoso: conhecia linhar , estopa, barregã e seroar; pensava que conhecia cortelho, mas afinal estava a confundir com cortelha.
Fizeste-me lembrar o meu exemplar do “Amor de Perdição” de Camilo que li “obrigatoriamente” na escola secundária e que está todo escrito com os significados das palavras que tinha que ver no dicionário. Infelizmente, por falta de uso, muitas já esqueci completamente. 🙁
Cada uma dessas palavras transporta uma carga semântica inestimável, Ana. Mas há outro problema, ainda mais grave do que a perda da memória histórica ligada às palavras que vão sendo exterminadas: a compressão do vocabulário origina também a compressão do pensamento.
Ah, o espectro do newspeak . O Orwell , segundo a moderna neurolinguística , estava errado sobre os efeitos que a supressão de palavras teria sobre a formulação de pensamentos. Como Steven Pinker diz em qualquer livro, se precisássemos de forjicar palavras novas antes de formularmos pensamentos novos, nunca os formularíamos. Por isso podemos estar todos descansados: acabar-se com a palavra liberdade não leva a acabar-se com a capacidade de pensar no conceito a que ela dá nome.
A diminuição do vocabulário quotidiano, porém, comporta o problema da inexactidão e da catacrese ; muitas vezes sabemos o que queremos exprimir, mas falta-nos a palavra exacta e acabamos por usar uma semelhante mas mais genérica, quando não nos prostramos simplesmente à irritante “coisa” para tudo. É esteticamente incómodo, especialmente para quem, como eu, gosta de folhear o dicionário todos os dias, mas não é o fim do mundo.