Penso rápido (34)


Pedro Correia,

O Estado Social é inseparável do crescimento económico: nos 30 anos subsequentes à II Guerra Mundial, estas duas realidades progrediram a par. Potenciadas por múltiplos factores entretanto desaparecidos: mercados coloniais, matérias-primas baratas, petróleo a bom preço, taxa de natalidade muito elevada, proteccionismo industrial, restrições à circulação de produtos, pessoas e bens. Tudo isso terminou. Fomos os últimos a fazer cair o pano com o fim do nosso império, em 1975. As três décadas seguintes caracterizaram-se pela inversão dos dados anteriores. E, portanto, pela atrofia europeia enquanto as restantes regiões do globo registavam índices de prosperidade jamais alcançados. Alguns que tanto defenderam a globalização – a quebra de fronteiras e barreiras – sentem-se agora vítimas dela e pretendem regressar ao quadro anterior. Que é impossível. Não há colónias como mercado de escoamento de bens manufacturados e fonte de matérias-primas baratas. Nem petróleo a preços reduzidos. Nem restrições à circulação de pessoas e capitais. Nem filhos em número suficiente. Nem pode haver, por tudo isto, o Estado Social que houve em tempos anteriores.

Não se pode nunca ter o melhor de dois mundos.

9 comentários em “Penso rápido (34)”

  1. A Europa produz agora mais bens e de maior valor do que produzia nos anos 50 e 60, na verdade nunca produziu tantos bens e de tanto valor. A população europeia tende a estabilizar, logo a pressão sobre o Estado Social tende a diminuir não a aumentar.
    O que se está a assistir é a uma redistribuição de rendimentos retirando dos grandes beneficiários do Estado Social para os detentores do capital.
    Não há menos dinheiro, está é distribuído de outra maneira. Até pode ser uma redistribuição legítima mas seria bom que não nos tentassem impingir estórias da carochinha para a justificar.


    1. O Pedro fez uma análise que começa bem, mas conclui parcialmente, esquecendo justamente o factor produtivo muito superior.

      In 1930, famed economist John Maynard Keynes predicted that by the end of the century people would be working a 15-hour week. He figured we would no longer need to work long hours to earn enough to satisfy our material needs. Instead, we would be preoccupied with “how to use freedom from pressing economic cares” that accompanied societal prosperity.

      ler mais aqui (onde se justifica uma semana de trabalho de 3 dias):

      http://www.theglobeandmail.com/report-on-business/careers/management/morning-manager/save-the-world-with-a-3-day-work-week/article2332609/

      Claro que as previsões de crescimento implicariam o fim da agiotagem, e de ver o tempo livre das pessoas como algo positivo e não ameaçador…
      Como há interesse em continuar a judiar os povos, a história foi outra.

        1. Eh eh… o que parece não ter sido entendido relativamente a Keynes, é que para implementar políticas dessas é preciso que o estado em causa seja independente.
          Ninguém tem culpa que deixem passar alunos que acham que a dívida não é um problema. Pode não ser um problema, mas para isso convém ter pelo menos alguns porta-aviões operacionais…

          O problema individual dos estados, resultante da sua competição inútil, é diferente do não-problema no seu conjunto.

  2. Por outro lado a produtividade tem aumentado sem cessar e não fora a concentração da riqueza numa percentagem ínfima da população esse aumento de produtividade daria e sobraria para manter o Estado Social.
    É uma falácia recorrente considerar que é fixa a relação necessária entre população activa e não activa. Essa relação seria fixa se e apenas se não houvesse aumento de produtividade.

    1. Portugal, globalmente há década e meia com crescimento mínimo ou negativo, e com taxas de demografia negativas desde 1982, não pode aspirar senão a um estado social cheio de remendos enquanto aqueles pressupostos não forem alterados. Pensar o contrário é sonhar com um pote cheio de ouro no fundo do arco-íris.

  3. O estado social foi concebido como forma de travar a ameaça comunista na Europa e as 1ªs conquistas deram-se em França antes da 2ª guerra mundial e agora como ela já não existe está a ser desmantelado aos poucos por toda a Europa.

    Apenas nos últimos 15 anos apareceram as economias emergentes baseadas no trabalho escravo e de facto como alguém diz acima é a Europa que está a decair e não os outros a subir para o nível Europeu por via das desigualdades que se mantém artificialmente nesses países e que permitem aos conglomerados transnacionais fazerem lucro (muito lucro) ao qual depois ainda aplicam planeamento fiscal agressivo permitindo assim defraudar em muitos milhões de euros as economias onde produzem e também naquelas onde vendem e até se vangloriam disso.

    Ora se eu importar um artigo que não está conforme as leis Nacionais e/ou comunitárias em termos por ex. de segurança alimentar o mesmo é apreendido, porque razão não há-de ser interdito a importação de jeans feitos numa qualquer economia emergente quando produzidos por mão de obra escrava que vive na fábrica onde trabalha e não tem direito a descanso semanal.

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