Penso rápido (20)


Pedro Correia,

Quando dei os primeiros passos numa profissão que exerci durante 30 anos, os jornalistas eram poucos e os órgãos de informação eram muitos. Mesmo sem novas tecnologias e redes digitais.
Hoje os jornalistas são muitos e os órgãos de informação são cada vez menos. Mais insólito ainda: apesar de serem muitos, os jornalistas não chegam para as encomendas pois passam o dia agarrados às “plataformas multimédia”, acorrentados a linhas de montagem. Como Chaplin em Tempos Modernos. Tão acorrentados que mal saem do local de trabalho. Como se não houvesse mundo fora das quatro paredes da redacção. O mundo real é substituído pelo mundo virtual. E a visão fica cada vez mais desfocada. E processa-se cada vez mais em sentido único. O que diz um, dizem todos. O que um mostra, todos mostram.
Todos diferentes, todos iguais. O pluralismo é cada vez mais estreito. Outro paradoxo do nosso tempo, aparentemente tão livre.

18 comentários em “Penso rápido (20)”

  1. E a reportagem… ah, a reportagem passou a ser colocar um microfone em frente da boca dos passantes para nós em casa sabermos o mesmo que saindo à rua…

      1. Tem razão, andamos submergidos em tanta informação.

        E o “comentador” A. Repiado do 1º era aqui o je (já nem me lembrava se não tivesse visto).

        E agora até sobre o tempo (que faz ou vai fazer), o que está a dar é perguntar ao pessoal se está com calor/frio/chateado com o mesmo, e só depois lá se lembram – por vezes – de ouvir um meteorologista, que o mais que consegue é lembrar-nos de Anthímio de Azevedo, Costa Alves, e outros. A gente andar (sem ser acedendo via net) com uma ideia do tempo que vai fazer nos próximos dias, e porque tal se prevê, é coisa que “mórreu”. Ai que saudades, ai, ai.

  2. Creio que é legítimo pensar que todos os que abraçam o jornalismo são idealistas e incorruptíveis ao melhor estilo Woodward e Bernstein. Acredito também que os ideais se mantêm intactos, mas criogenizados à espera de melhores dias. A conjectura não é favorável, os escândalos apesar de muitos, são desvalorizados e as pessoas precisam de meios de subsistência. Se andar de rua em rua empunhando um microfone ou ficar na redacção a rever e montar matérias põe comer na mesa, sacrifica-se uma fatia da objectividade e o Pullitzer terá que ficar na prateleira por uns tempos.

      1. Devorei o seu texto bem como todos os links.
        Como vem sendo habitual da minha parte, repito “Excelente texto”, porque o é na realidade.
        Esta minha faceta de pseudo-blogger só começou em 2012 e depois há todo um percurso para distinguir o trigo do joio.
        O Delito É o meu blog de eleição, não só porque me mantém sempre actualizada, mas também porque todos os autores tratam com grande mestria a palavra escrita.

  3. Também sou do tempo da máquina de escrever.
    Ir a correr, ao fim da tarde, entregar a folha de papel, dactilografada na redacção do jornal.
    Depois, como não era jornalista, mas sim correspondeste local, aguardava ansiosamente a sua publicação, pois a forma como aparecia na página do jornal dava outra aura ao texto.
    Velhos tempos!

    1. Foi uma grande escola formadora de jornalismo, essa escola dos correspondentes locais.
      Um a um, foram sendo todos dispensados e despedidos. Ainda agora, num dos mais importantes grupos jornalísticos portugueses, varreram o que restava das delegações locais e regionais.
      Devido a decisões como estas faz-se cada vez mais um jornalismo a partir dos mesmos locais. Cada vez mais em circuito fechado. Cada vez mais lisboeta. Cada vez mais do mesmo.

  4. O jornalismo não vai desaparecer, porque não pode desaparecer. Nem o poder, que tanto o procura condicionar, o pode dispensar em democracia, por isso o jornalismo resistirá apesar da multiplicação dos canais que difundem informação contaminada por outras áreas de comunicação, criando nos receptores o mau hábito de consumir indistintamente propaganda e notícias.
    Mas está visto que fazer jornalismo vai ser um privilégio de muito poucos, de uma elite que trabalhará para grandes agências que venderão aos média o produto do seu trabalho de investigação. O resto é paisagem, redacções com jornalistas que não são mais que correias de transmissão dos diversos poderes, ou que vivem pendurados em telemóveis e ecrãs de computador, replicando notícias.

    1. O jornalismo não desaparece: transfigura-se. Muda de meios, muda de princípios orientadores, muda de quadros de referência. Mas terá de sobreviver, Teresa, porque nenhuma democracia pode dispensar o jornalismo. Tal como não pode dispensar a opinião pública. Ou o Estado de Direito.
      Uma democracia sem jornalismo, sem opinião pública e sem o escrupuloso respeito pelo primado da lei não é democracia.

        1. E creio também que o suporte de papel nunca desaparecerá por completo. Aliás, os jornais mais prestigiados no mundo inteiro – incluindo os que têm mais leitores nas versões em linha – são aqueles que resistem em papel.

  5. o drama existe e é bem grave -espero que os cidadão andem alerta para a realidade que já existe hoje e que tem consequencias tragicas (só no Iraque já vão em 350 mil mortos + os invasores que tambem morreram mas por vontade propria) e com a maioria a repetir o que os serviços de desinformação de Washingron e Londres queriam.
    A minha esperança é que com odesenvolvimento dos meios jornalistico independentes e a aprendizagem dos cidadãos a navegar neste mundo de alçapoes traiçoeiros -veja-se as noticias sobre as moscavilhas na blogosfer nacional para fazer crer em apoios e desapoios inexistentes- se chegue a melhor jornalismo e maior variedade de pontos de vista discutidos com elevação e sentido de independencia. O segredo será a sustentabilidade de quem vive do jornalismo.

    1. Vivemos numa época de grandes mudanças também a este nível. Sabemos de onde partimos, ignoramos por completo onde chegaremos.
      Tenho uma certeza: a utopia do “jornalismo cidadão”, que transforma cada um de nós em repórter munido de uma câmara de filmar e de uma pena indignada pronta a retinir nas redes sociais, não substitui – de forma alguma – o jornalismo clássico, sujeito a princípios deontológicos e a um quadro de referências éticas muito específicas que podem ser alteradas no pormenor mas não no fundo.
      Um dos princípios básicos é ouvir sempre todas as partes envolvidas numa questão. Outro, fundamental, é não fazer juízos definitivos sobre questões que estão longe de o ser. E sem nunca esquecer que um jornalista é fundamentalmente um repórter, não é um juiz. Existe para mostrar, relatar, explicar, descrever. Não existe para condenar liminarmente ninguém e muito menos para pendurar seja quem for em pelourinhos públicos: essa não é a sua função.
      Como refiro noutro comentário, nenhuma democracia pode prescindir do jornalismo enquanto veículo formador da opinião pública. Porque não existe democracia sem opinião pública: só as ditaduras a dispensam e a sufocam.
      Por este motivo, e apesar de todas as incógnitas, julgo que o jornalismo conseguirá sobreviver a todas as crises. Em novos formatos, com novas perspectivas, com metas diferentes, mas sem nunca trair, na essência, a sua matriz original.

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