Numa pequena cidade de província, onde toda a gente se conhece. Um casal de idade já avançada vira uma esquina, depara com um senhor mais velho e segue-se este breve diálogo:
– Vossemecê está bem?
– De vez em quando vou p’ró hospital…
– A vida é mesmo assim.
Há uma certa maneira de ser, muito portuguesa, que se reflecte neste diálogo que testemunhei por mero acaso. A resignação e o conformismo, por um lado. Mas também a atenção aos outros, a palavra amável, uma sabedoria popular sedimentada ao longo de incontáveis gerações. Por vezes desgosta-me, por vezes comove-me. Mas sei que sentiria falta de tudo isto se vivesse noutro país, noutro continente, mergulhado noutra cultura. Porque também eu sou assim. Somos todos assim, de uma forma ou de outra.

“Numa pequena cidade de província” diz muito. Aliás, diz quase tudo.
Numa pequena comunidade, todos se conhecem , há até laços de parentesco entre si e todos se entrajudam. Isso não se aplica às grandes cidades. Não se aplica por exemplo ao prédio onde habito há 14 anos e do qual não conheço a totalidade dos moradores e os poucos que conheço é de encontros casuais nos elevadores, que se resumem aos bons dias ou boas noites.
Sai-se cedo, entra-se tarde, não se tem tempo para socializar com vizinhos.
Invejo os moradores das pequenas cidades, com vidas simples e acolhedoras. Ten dias que chego ao ponto de invejar os idosos… depois de quase 40 anos de trabalho não tenho esperança numa velhice tranquila para poder andar, caminhar, viver sem ser a correr.
Aqui é assim, Dulce: a partir do meio da tarde, quando as sombras vencem o sol, as pessoas tiram cadeiras de casa e instalam-se no passeio, a conversar, a ler o jornal ou simplesmente a olhar quem passa. Têm janelas abertas a dar para a rua. E todo o tempo parece decorrer mais devagar.
Anda tanta a gente a tomar ansiolíticos nas grandes cidades, enriquecendo os laboratórios farmacêuticos, quando o melhor ansiolítico seria sair de lá e gozar um período de verdadeiro descanso num sitio destes, onde as pessoas param na rua a conversar sobre mil e um assuntos de interesse comum.
As correrias do quotidiano podem esperar.
Só em Setembo, Pedro, só em Setembro… :):)
( já só faltam 58 dias )
Isso é que é pensamento positivo, Dulce. Muito bem.
Acontece o mesmo quando as pessoas não se conhecem. Nos últimos 44 dias tenho passado parte dos meus dias num hospital onde o meu pai está internado. Sempre me pareceram um pouco despropositadas as conversas sobre as doenças e as diferentes situações de quem se encontra nestes lugares. Agora percebo que a partilha de histórias e de experiências da vida de cada um, mesmo entre desconhecidos, ajuda muitas pessoas em situações de angústia. A “atenção aos outros, a palavra amável”, podem mesmo fazer pequenos milagres. 🙂
Pois podem, Ana. É curioso: tenho reparado que, quase sempre, são mulheres a travar conversas dessas. Os homens inibem-se mais a falar com desconhecidos sobre questões que consideram íntimas, como acontece com tudo quanto se relaciona com a saúde.
Prezado Pedro Correia,
Acha mesmo que esta e uma forma unica de ser portugues? Nao posso concordar consigo. Esta e a forma de ser de gente que nao consegue inverter a situacao com que se defronta. Em qualquer parte do Mundo, independentemente do ambiente cultural. Afinal de contas a gente nao e assim tao diferente uns dos outros!
Meu caro, não digo que só os portugueses são assim. Digo, isso sim, que os portugueses são assim – sem a menor dúvida. E já vivi mais de uma década longe de Portugal, garanto-lhe que nem em todas as sociedades deparamos com estes quadros do quotidiano.
“É a vida”, já lá dizia o futuro candidato a PR.
Hadem meter-se com ele e… levam.
Por isso é que é imperdoável despachar milhares de portugueses para “fora da sua zona de conforto”.
É que os portugueses têm um estilo de vida que não existe em mais lado nenhum.
Esta paz, esta tranquilidade, o prazer do convívio, a animação dos nossos almoços comparada com as sandes comidas em pé dos nortistas, a riqueza da nossa gastronomia, o bom vinho que temos a preços acessíveis, por enquanto, o peixinho grelhado que se come nas férias na praia, a simpatia das pessoas comparada com a indiferença ou mesmo antipatia dos “mais evoluídos”, os convívios familiares… a disponibilidade, que remédio, para trabalhar por salários de miséria em empresas que não são mais rentáveis porque são mal geridas e não porque os trabalhadores não sejam bons.
Isto realmente podia ser um paraíso, se não fosse tanto sacana, tanto bandido, tanto ladrão, tanto parasita…
Tenho visto, pelo contrário, muitos alemães, muitos ingleses, muitos espanhóis e muitos franceses acolhidos na nossa “zona de conforto”. Quase todos já cá estiveram antes, quase todos tencionam voltar.
Tens razão naquilo que dizes lindo Pedro,todos nós somos seres humanos,todos nós temos sentimentos e queremos o bem de toda a gente,mesmo aqueles que nos fazem mal tambem merecem cá andar,enfim,é assim a vida,é assim o destino!! Mil beijinhos!!
Pois claro.