A incultura “comunicacional” galopa de manhã à noite: a televisão devia tornar-nos mais cultos, mais sábios, mais esclarecidos, mas só nos torna mais broncos.
Há dias, num canal televisivo, o presidente cubano Raúl Castro era apresentado como “líder sul-americano”. Já nem insisto nesta escandalosa disparidade de critérios jornalísticos que reserva o rótulo de “ditador” a um Pinochet ou um Videla, excluindo um Castro. Como se só à direita existissem ditadores. Como se um general que reprime toda a oposição, censura a imprensa e mantém ilegalizados os partidos da oposição esteja dispensado de justificar o rótulo de tirano pelo simples facto de ser comunista.
Desta vez indigno-me apenas com a elementar falta de conhecimentos de geografia por parte de quem escreveu, de quem editou e de quem leu a referida “notícia”. Incapaz de perceber que a ilha de Cuba, situada a escassos 135 quilómetros da costa norte-americana, está ainda mais longe de pertencer à ‘América do Sul’ do que de ser um país livre.

Como o entendo, Pedro!…
Ainda ontem fiquei em estado de choque, ou quase, ao ler no Diário de Notícias “este foi o local onde (não sei quem) “interviu” (!!!)”.
E fiquei a pensar se não haveria ninguém lá no jornal que, ao passar os olhos por tamanha (e infelizmente comum) ignorância, tivesse dado pelo erro.
Pergunta bem, Isabel. Receio que a resposta à sua questão seja negativa: qualquer dia não resta ninguém lá no jornal.
Se atentarmos principalmente nas notícias de rodapé durante os jornais informativos, não é incomum passar da perplexidade ás lágrimas, tais são as barbaridades que por lá lemos.
As traduções e legendagem de filmes, séries, reportagens e documentários, são igualmente hilariantes. Dou como exemplo uma tradução/legendagem da qual reclamei á entidade emissora e igualmente á firma que fez o trabalho:
Um episódio de CSI, a morgue, um corpo, o Dr. Robbins, a CSI Sidle. A investigadora pergunta ao médico legista ” do you know the COD ?” , que foi alegremente traduzido por” Conhece o bacalhau?”
Nem sei se é para rir, se para chorar. :/
Caso para oferecer à/ao tradutor(a) um frasco de óleo de fígado de bacalhau. Para tomar uma colher por cada calinada.
Quanto a traduções também encontrei esta pérola. Num programa sobre Brel, há uns anos, a canção “La Fanette”, aparecia assim legendada: Para “j’entends une voix, c’est la Fanette” – “Ouço uma voz, é a janela”.
Agora calo-me…
Eu tenho uma enorme colecção desses cromos, Isabel. Qualquer dia, quando me apetecer, começo a trazê-los aqui.
A perda da exigência implica perda da qualidade das pessoas.
Pois. A qualidade tem um preço. Quando o preço baixa, a qualidade desce e a estupidez impera. Dez incompetentes mal pagos não compensam três competentes pagos ao nível que merecem.
A qualidade vem de antes do preço. Ideologia, Cultura conta muito para a tolerância com o que funciona mal.
Mas essa “tolerância” também tem um preço. Como aliás está à vista (e ao ouvido).
tátudomuitobemtá, agora aquela coisa da distância à costa norte-americana é que não sei não…por esse ponto de vista chipre não pertence à europa, não é mesmo?
Chipre ‘pertence’ ao Mediterrâneo: como ilha que é, não pertence a nenhuma faixa continental. A mesma lógica aplica-se a Cuba: ‘pertence’ às Caraíbas.
Mas se quisermos “agregar” artificialmente estas ilhas a continentes, diremos que Chipre (soma de gregos e turcos) pertence à Europa ou à Ásia Menor ou mesmo ao Médio Oriente. Já Cuba não poderá ser “agregada” à longínqua América do Sul, mas à América do Norte. Não por acaso, Miami é a segunda maior cidade cubana, após Havana.
a propósito dos nãoporacaso, paris passa por ser a segunda maior cidade portuguesa (mito urbano, talvez, sei lá).
Diz que sim. Paris está para Lisboa como Miami para Havana.
“está ainda mais longe de pertencer à ‘América do Sul’ do que de ser um país livre”?
Sei não, cara.
Sul, norte, campo, cidade… são pessoas, todas diferentes, todas iguais.
A gaita é que a liberdade nunca mais passa por ali…
Ditador é ditador. A norte, sul, leste ou oeste.
Pois, mas eu creio que Pinochet e Videla se assumiam como “ditadores”. Portanto, classificá-los como “ditadores” não constituía um insulto nem um ataque.
Já Raúl Castro não assume ser ditador, pelo contrário, nega-o. Portanto, classificá-los numa televisão como “ditadores” seria, legitimamente, encarado como uma intromissão do jornalista na política, seria uma intromissão, no mínimo, do comentário político no jornalismo.
Genial. Como Salazar nunca se assumiu como ditador, logo Salazar era… democrata.
Salazar nunca se assumiu como ditador
Bem, o seu regime chamou-se “ditadura nacional”. Salazar não se assumiu, mas o seu regime sim.
logo Salazar era… democrata
Eu não disse que nenhum regime deixasse de ser aquilo que é. Digo apenas que não é função dos jornalistas fazerem comentário político nem exprimirem opiniões. Eles devem designar o regime por aquilo que ele aceita ser, e deixar os comentários e as opiniões para quem os ouve. Não é função de um jornalista designar por “ditadura” um regime que não assume sê-lo.
Caso contrário, o noticiário poderá, legitimamente, receber uma queixa da embaixada cubana (neste caso) a queixar-se de que o jornalista anda a dizer falsidades sobre Cuba misturadas com as notícias.
Nah, segundo o jornalismo português Salazar seria o “Líder Português” e o Soares, Alegre & outros seriam Desertores, pelo menos é como boa parte do jornalismo chama aos que fogem do paraíso comunista.
http://observador.pt/opiniao/o-fim-bolet im-meteorologico/
Somos vários a pensar o mesmo. E certo produto jornalístico cada vez mais distante do que pensamos.