Penso rápido (100)


Pedro Correia,

13360128_ZaGSY.jpeg

 

Lembro-me por vezes dos jornais da minha infância. Quase todos fecharam: O Século, Comércio do Porto, Jornal do Comércio, Diário de Lisboa, Diário Popular, República, Mundo Desportivo, A Capital. Restam o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias e o Expresso. Também revistas como a Flama, o Século Ilustrado e a Vida Mundial já há muito desapareceram das bancas – tal como tantos títulos surgidos após o 25 de Abril, como O Jornal, O Ponto, Opção, Jornal Novo, Tempo, O País, O Dia, O Diário, Se7e, Grande Reportagem, Semanário, O Independente, Já, Euronotícias e 24 Horas, entre vários outros. E já não falo em publicações regionais, incluindo títulos históricos como o Comércio do Funchal ou o Notícias da Amadora.

Não são problemas que digam respeito apenas aos jornalistas. Porque não existe democracia sem imprensa. A progressiva extinção de publicações que funcionaram como testemunhas vivas da História empobrece a sociedade no seu conjunto, tornando o debate político mais vazio de conteúdo e menos sujeito ao indispensável escrutínio que entre nós lançou raízes no tempo do constitucionalismo liberal. É verdade que existem hoje múltiplos espaços de notícia e comentário no universo da Rede, muitos dos quais não sujeitos a qualquer filtro deontológico nem obedecendo sequer às normas do mais elementar bom senso. Mas não conheço nenhuma democracia que subsista sem grupos sólidos de imprensa. E neste aspecto andamos a caminhar perigosamente para trás.

35 comentários em “Penso rápido (100)”

  1. Não são problemas que digam respeito apenas aos jornalistas.

    A propósito de jornalistas, lembro-me de perguntar ao Pedro Correia o seguinte:
    O Pedro é membro do Clube dos Jornalistas? Esse Clube é proprietário de um restaurante com o mesmo nome, situado na Lapa, em Lisboa?

  2. Comungo do seu texto e acrescento o “Jornal do Fundão” que me levou a uma chamada especial ao comandante por estar a lê-lo na messe

  3. O jornalismo é hoje a fonte da moral da sociedade. Ver o telejornal é como ir à missa onde se decide e mostra o que é pecado e o que é virtude.
    A SIC é como se fosse a Igreja Progressista dos Dias Pares, a TVI a Igreja Progressista dos Dias Ímpares… a RTP a Igreja Progressista do Estado…. etc…

    Logo a profissão atrai quem quer ser padre, quem quer espalhar a palavra da Religião Política. Não se vai para jornalismo para informar mas para mudar o mundo ou seja para influenciar, endoutrinar.
    Isto faz com que o jornalista seja uma pessoa hiper politizada mas sem muitos mais conhecimentos.
    Jornalismo é assim uma perigosa monocultura temática e política. Têm uma fé inabalável na Política.
    Pensam quase todos o mesmo sobre tudo logo as notícias são todas iguais. Não sabem nada de engenharia, logistica, arquitectura, materiais ou qualquer domínio fora da religião política.
    Em Portugal o problema é um pouco pior que nos EUA, UK, France, Espanha em que há uma ténue diversidade de opinião apenas – os assuntos são sempre os mesmos.
    Por cá as TV são todas iguais, têm todas a mesma opinião sobre tudo. Logo estamos num regime de TV única embora tenham nomes diferentes: SIC. TVI, RTP. defendem todas o mesmo.
    O regime de TV única dá inevitávelmente num regime de pensamento e partido único a que já estamos a assistir: PS.
    Ou seja tem graves implicações para o regime e o país.

    Meanwhile:
    https://www.washingtonexaminer.com/news/washington-secrets/confidence-in-media-at-all-time-low
    Confidence that TV and print news media are delivering trustworthy news has plummeted to the lowest level tallied by Gallup in nearly 50 years.
    The pollster said those expressing “a great deal” or “quite a lot” of confidence in print news are 16% and just 11% for TV news.
    All political groups gave a thumbs down to the media, with Democrats making the biggest shift since President Joe Biden has been in office.
    “Republicans’ (5%) and independents’ (12%) confidence in newspapers is the lowest on record for these party groups, while Democrats’ (35%) has been lower in the past. Democrats’ confidence in newspapers rose to the 42% to 46% range during the Donald Trump administration but fell when President Joe Biden took office,” said Gallup.

    1. Em grande parte concordo. Mas o “espaço público”, a velha ágora, em sociedades modernas de largos números de indivíduos estava condenado a ser o jornalismo. No tempo em que se escrevia livros de literatura, porque havia cafés e se podia fumar nos cafés, havia uma sub-cultura da opinião sobre a pólis, que dá no jornalismo. A questão do conhecimento superficial é uma questão da sua natureza, ínfima, parcial e transitória. Mas esse nem é o problema que se coloca hoje, porque esse tempo dos repórteres entusiasmados com os livros de Albert Camus até era um tempo ponderado. Os problemas de hoje têm a ver com aspectos muito mais graves::

      — a concepção do jornalismo como poder

      — a progressiva estatização de tudo (sabem por exemplo que ao nível das juntas de freguesia já existe legislação sobre a actuação nos fogos? É ridículo que se comece por legislar sobre tudo para “fazer”) o que torna que as notícias sejam sempre, mesmo que indirectamente, sobre o estado e os procedimentos do Estado (coisa que nós pagamos a pessoas, os famosos func pubs que não fazem um corno, para não termos de nos preocupar com isso). Um sufoco.

      — a politização do ensino (as nossas escolas são madrassas autênticas, já só metade dos conteúdos é matéria de conhecimento propriamente dito) e a consequente esquerdização das escolas de comunicação social porque… nunca seria uma madrassa da direita —certo?— esses são os maus e os jornalistas são bons.

      — a crença na relevância dos fenómenos de comunicação (umbigismo) o que leva a que se eleve a estatuto de notícia as merdas e os “posts” das redes sociais. Isto é o pior e é a mais profunda estupidização do espaço público que ocorreu nos últimos anos.

      Há mais problemas, mas já estou cansado

  4. Se ainda não percebeu, acabou. Não têm crédito. O que digo vale para a direita e para a esquerda. Até o Belling Cat passa por ser um site disfarçado de serviços de intelligence.
    Por cá não há um jornal que se aproveite. Pululam os comentadores. Análise é mais difícil. Três quartos das notícias, factos, são Lusa. O que é que querem? Que eu pague para ler Ricardo Costa? João Miguel Tavares? Fernanda Câncio? Não, não pago. Nem vejo TV. Vão trabalhar, que o que fazem não é produtivo.

      1. Associated Press ou TheHill são duas fontes de qualidade.
        Há outros, mas não são muitos. A maioria dedica-se a misturar opinião com notícia. Fora a censura, a que quase todos se dedicam.

      2. Em aditamento: até a Reuters anda enrolada com a secreta inglesa. Não é uma atoarda. Eles próprios confessam. Dizem apenas que já não é assim, o que é outra mentira, pois dá para ver que continuam na mesma.

          1. Se gosta, pode comer também da Sputnik ou da Interfax. Eu dispenso.

            Já agora, a France Presse está obrigada por lei a ser fidedigna. O problema é que não há maneira de aceder às notícias deles, excepto pagando ou leitura de jornal.

            O mesmo não se pode dizer da Lusa. Dá imediatamente para ver quando um artigo é cozinhado em forno oficial.

  5. Les Nouveaux Chiens de Garde – Serge Halimi

    o 4º poder são os donos do poder político e económico.
    os jornalistas não passam de cães de guarda do dono

  6. hum .. hoje é só perguntas : então , já começou a perceber quem é o herói dos ukras ?
    distingo o mal à léguas , graças a Deus. literalmente.

  7. Se é para continuar a fazer como têm feito até aqui, por mim podem fechar todos.
    Aplicação da censura e ausência de contraditório em toda a histeria pandémica.
    Fazer um reality show da cobertura dos fogos em que a foto de capa é o prémio para o fogo maior.
    O caso Famalicão, as contas off-shor e outras aberrações que nem vale a pena referir, mais do que justificam a purga que foi feita.

      1. Tenho um trauma em todas as cidades em que a prepotência do estado se sobrepõe às liberdades individuais.
        No caso de Famalicão, se pode ser evocado o objector de consciência, só tem de ser respeitado. A imprensa em vez de pactuar com o sistema só tem é de informar, que é o papel que lhe compete. Aquilo a que estamos a assistir é apenas um miserável combate de egos.

        1. se pode ser invocada a objecção de consciência, esta tem de ser respeitada.
          PS: Ter conhecimentos e opiniôes mas não os saber expressar, além do manifesto analfabetismo, é também um manifesto sintôma de nesciência – algo que o senhor, com múltiplas identidades, vem aqui fazer. Diáriamente, sem excepção!

          1. E então? Os néscios agora já não têm direito a ter opinião?
            Já agora gostava de saber quem é que o nomeou polícia dos eruditos? Ou, neste caso líder dos Troll?

          2. Os “troll” têm um líder? Ainda bem. Polícia dos eruditos? Simplesmente patético! Nunca me passou pela cabeça que o senhor se julgasse um erudito.
            A propósito: a que preço estão os pontos de interrogação na loja do seu bairro? Aposto que estão em saldos

  8. Houve um tempo em que se assinava o jornal da terra para que se não perdesse o funeral de alguém a quem se devesse apresentar condolências.
    Agora evita-se que entre em casa uma qualquer notícia ou anúncio indecoroso.
    Mudam os tempos…

    1. Nada de tão indecoroso como a morte. Daí ter sido banida do jornalismo “feelgood” que se vai tornando cada vez mais dominante.
      “Tragam-me notícias inspiradoras, não me tragam dramas”, pedia um certo “diretor” de jornal aos jovens profissionais lá da redacção.

  9. > Porque não existe democracia sem imprensa
    Certo, os merceeiros nunca se teriam aventurado a ir a jogo com sufrágio universal sem um mecanismo de controlo do pensamento colectivo sob a sua alçada.
    Mas a circulação de elites é implacável, e o apelo ao “filtro deontológico” é o lamento de uma elite com o chão minado por outra, como outrora tinha minado o chão debaixo dos pés dos proprietários de terras.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *