Vivemos num mundo em que todas as utopias foram desaparecendo – algumas por homicídio, outras por suicídio, umas quantas por morte natural. O horizonte utópico parece-nos hoje tão antigo como a diligência ou o navio a vapor. Sobram as distopias, que deixaram de ser ameaça imprecisa num futuro longínquo. Da inteligência artificial às redes sociais que espalham as mesmas mentiras em simultâneo em todas as parte do mundo, passando pela aterradora possibilidade do fabrico de embriões sintéticos humanos desenvolvidos sem óvulos nem espermatozóides num laboratório qualquer, o presente já é distópico. E não será melhor por causa disso.
Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

a era do pós-humano. a ciência manipuladora ao serviço de mamon está quase a conseguir acabar com o natural. espero morrer antes, não quero ver este filme.
Quase a chegar, se é que não chegou já.
Com a primeira fila cheia de basbaques a bater palminhas.
“a conseguir acabar com o natural.”
Mas o que é o natural?
Tenho a ideia de que o natural é o que existe sem a intervenção (ou com muito pouca) da inteligência humana. Sendo assim, prefiro sempre o artificial: prefiro andar caçado (super artificial) a andar descalço (muito natural). Prefiro o antibiótico a morrer de infecção.
Dans ce livre, il s’est efforcé de distinguer clairement le connu du plausible. Et de reconnaître l’existence de l’inconnu et de l’inconnaissable. Il a considéré l’être humain comme la somme des observations et des expériences de tous les temps et de tous les pays. Mais ce qu’il décrit, il l’a vu lui-même.
DR ALEXIS CARREL in L’HOMME, CET INCONNU
Homem em vias de extinção. O que está a dar é a máquina.
Há um livro de Rosa Montero (esqueci o título do livro) era que aparecem uns humanos de aparência mas que são de fabrico sintético. Não se distinguem dos que nascem de outros mas morrem sempre por volta dos trinta e tal anos. Tanto quanto me lembro é a única diferença.
Admirável Mundo Novo, este que está a chegar. Na verdade, mais do que Admirável: no nosso, não será necessária a complexidade da bokanovskização.
Quando nascerem os primeiros humanos completamente sintéticos, proponho que lhes chamemos Replicantes.
As gerações futuras, liofilizadas e envoltas na redoma, enfim libertadas de atavismos “impuros”, como o sexo. Cenário ainda mais idílico do que a “revolução socialista” que constava daqueles velhos romances de Karl Marx, excelente autor de ficção científica.
Sleeper : O Herói do Ano 2000…vai ser como no filme do allen e a máquina para fazerem sexo
Mete-se a moeda… na ranhura. E não é preciso fazer mais nada. A máquina livra o pessoal desses incómodos.
(Hesitei em escrever a palavra ranhura. Talvez já esteja no novo Index.)
no São João do Porto
«vai lavar a frincha!»
No São João domina o alho-porro.
ó Pedro , dúvidas existenciais: esses fabricados não vão ter impressão digital única , terão a da pessoa a quem recolheram células estaminais , certo? à partida sabemos logo que são falsificações -:)
n ão precisando já de um casal para reprodução será que homens e mulheres se vão dividir em 2 facções e iniciar a verdadeira guerra dos sexos?
Hum… Parece um cenário não totalmente destituído de interesse.
Talvez não. Gémeos idênticos têm o mesmo ADN mas impressões digitais diferentes.
Os gémeos Dupont e Dupond seriam excepção à regra. Ambos com a impressão digital de Hergé.
mas os gémeos monozigóticos surgiram de um óvulo e de um espermatozoide , estes são plantados por células estaminais , produto acabado.
Esses métodos arcaicos estão condenados ao caixote do lixo da história.
Agora é tudo muito higiénico, sem intercâmbio de fluidos corporais. O sexo faz-se cada vez mais como a guerra, travada em grau crescente com recurso a forças mercenárias. Por procuração. A máquina a funcionar como mercenária.
Enfim, um apenas natural desenvolvimento do que o sr. Huxley escreveu há uns bons anos. Sendo que “desenvolvimento” bem merece aqui aspas.
Que não seja porque não nos avisaram. Mas conviria saber ler e, sabendo-o, ter esse hábito.
É cenário de pesadelo, imaginar um mundo de balios e lavouras fabricados em série.
“(…) um mundo de balios e lavouras fabricados em série.”
Lapidar definição de distopia.
A chatice é não saber inglês e não perceber a simbologia, a máquina era para coser botões na verguilha.
Não saber inglês, hoje em dia, é pouco “abundatório”.
“Não saber inglês, hoje em dia, é pouco “abundatório”.”
Sobretudo na versão amaricana.
” palavra ranhura. Talvez já esteja no novo Index.)”
Claro, é obviamente sexista (para os woke).
Nem utopia nem distopia, penso que já estamos no tempo da retrotopia. Que é o tempo em que alguns conseguem ver virtudes nas ditaduras.
Retrotopia parece expressão homofóbica.
Vou tirar dúvidas junto da Comissão de Censura.
Então?
Eu disse retrotopia, não disse rectotopia.
Estou a ver que o seu leitor de sensibilidade está muito sensível.
Ainda assim, dada a anulogia fonética.
Perdão, analogia.
(Anulogia já foi banida.)
cu-recto!
Dia dos Pleonasmos, hoje?
“… não têm um coração a bater nem o início de um cérebro…”. Hummm!.
Iain M. Banks criou mais e muito melhor.
Bem possível. Tinha engenho de sobra para isso.
a aterradora possibilidade do fabrico de embriões sintéticos humanos desenvolvidos sem óvulos nem espermatozóides
Confesso que é uma possibilidade que não me deixa aterrado.
Numa época em que cada vez menos óvulos e espermatozóides se juntam para gerar embriões humanos, o seu fabrico sintético parece ser uma invenção que chega em bom tempo.
É perfeitamente natural que você defenda os métodos não-naturais de fazer filhos.
sim, porque o método natural que chegou hoje em dia aos 8 biliões de seres é claramente um insucesso
Várias praias que venho mostrando aqui, dia após dia, são propícias ao anacrónico “método natural” que tanto parece repugnar ao Sr. balio. Dentro e fora de água.
“é claramente um insucesso “
Discordo.
E por hoje não comento mais.