Pensamento da semana


Cristina Torrão,

«Portugal detesta corrupção, mas os portugueses adoram “cunhas” (…) O amigo polícia que safou a multa, (…) o emprego que se conseguiu na função pública naquele concurso arranjado (…) Alguém duvida que o indivíduo que usa o amigo das Finanças para não pagar a multa por entregar o IRS fora de prazo, seria um corrupto da pior espécie se tivesse condições para isso?»

Gonçalo Galvão Gomes, cronista do PT-Post (jornal português na Alemanha), no n.º 342, Dezembro 2022

Da pior espécie, não sei. Mas, corruptos, quase de certeza.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

37 comentários em “Pensamento da semana”

  1. está-nos na massa do sangue? Meus deuses, não terá remédio?!
    De todo em todo, discordo que um pequeno transgressor seja necessariamente capaz de grandes transgressões. Será um princípio, certo. Mas a transgressão criminosa envolve outros valores e não radica na pobreza certa e falta de educação formativa que move muita pequena transgressão.

      1. E nunca pensou que eles – os ditos governantes corruptos – são duplamente responsáveis? É que muitos tiveram a educação formativa que refiro mas recusam-na ou recusaram; já Kant dizia que o homem é aquele ser que, sabendo o que deve fazer, não o faz (as palavras são minhas, a ideia, dele). Não é bem o caso de todos os pequenos transgressores. Ainda que eu prefira a opinião de Ana Luísa Amaral “a subversão é mais interessante que a transgressão”.

  2. A “cunha” portuguesa faz parte do nosso ADN.
    Lembro-me nos meus tempos no CEPE (Centro de Estudos Psicotecnicos do Exército) a quando da selecção de especialidades havia uma prateleira com a indicação CUNHAS

  3. Creio que a transgressão nos é intrinseca, Cristina, e que todos infringem as regras uma vez por outra. Eu não penso que um infractor contumaz seja corrupto, apenas espertalhão. São a raça dominante.

  4. Até os juízes. Um jornal descobriu agora um esquema, mediante o qual alguns juízes em fim de carreira são nomeados para o Supremo Tribunal de Justiça, no qual ficam a “trabalhar” somente muito poucos (dois ou três) meses, para se poderem reformar com uma reforma um bom bocado mais elevada.

  5. Desde a carta do padre ao atropelo nas vacinas, tudo serve para fugir à norma.
    Quem nunca pecou que atire a primeira pedra.
    O nosso problema não é a corrupção o nosso problema é a hipocrisia. Todos fazem o mesmo mas alguns têm a mania que são mais puros que os outros.

    1. Mais puros ou mais espertos. Muitas vezes, penso que o que move um corrupto, ou outro tipo de criminoso, é pensar que é mais esperto do que os outros todos e nunca será apanhado. Olhe que uma mentalidade destas, bem puxadinha, pode equivaler a uma droga.

      1. Se dividirmos a sociedade em puros e espertos, os puros só são puros até serem apanhados.
        A ocasião faz o ladrão, e quando a pessoa está aflita nem pensa. Veja o que se passou na pandemia com a frase hipócrita do “pense nos outros” e o açambarcamento do papel higiénico, ou a toma das vacinas por pessoas não prioritárias.
        Tanto o que corrompe como o que é corrompido fazem parte da corrupção, e ela só existe porque nós ou estamos dum lado ou estamos do outro.

    2. Para o bem e para o mal, somos latinos, não há nada a fazer, basta ver como somos “espertos” a furar filas de trânsito.
      Permita-me um exemplo que pode parecer que não tem nada a ver mas tem.
      Nos meus tempos da Faculdade, em Lisboa, ia por vezes à cantina. Formavam-se longas filas e havia sempre, mas sempre, estudantes que logo por acaso tinham colegas de turma lá à frente. Punham-se à conversa e, claro, “esqueciam-se” do lugar que seria o seu pela ordem de chegada. Falo nisto porque estes jovens da altura iriam ser as futuras elites. Portanto, é mais ou menos isto….

        1. As práticas estão generalizadas precisamente por causa da educação que levámos.
          Desde o dar uma morada falsa para matricular os filhos numa escola, ou pedir ao dono duma oficina para empregar os putos nas férias, tudo serviu para consolidar o sistema. Pretender agora voltar à estaca zero de forma abrupta penso que é uma tarefa inglória. Terá de ser sempre devagar e caso a caso, que é o que está a acontecer.

          1. Não ponho nesta categoria o pedir ao “dono da oficina para empregar os putos nas férias”. É louvável arranjar ocupação nas férias aos filhos, na Alemanha também acontece. Trata-se de coisa temporária e é uma boa experiência para os jovens. Por aqui, até estudantes universitários fazem isso. O meu marido, enquanto estudante no Instituto Superior que o formou em engenheiro agrimensor, trabalhou numa empresa que vendia por catálogo (desde moda, a artigos de decoração). A sua função era distribuir os produtos pelos pacotes das encomendas. Bem, este emprego, por acaso, não arranjou por cunha. Mas, ainda estudante do liceu, ocupou algumas férias a trabalhar nas obras (ou seja, como trolha), esta ocupação, sim, arranjada pelo pai, que era arquitecto e conhecia muita gente no ramo da construção civil.

            É claro que não se mudam mentalidades de forma abrupta, teria de ser devagar. Agora, se já está a acontecer, não sei…

  6. Sim, há dias, por outras palavras, falei do mesmo. Não para desculpar o PS e toda esta trapalhada mas para sublinhar que o compadrio, o nepotismo, a corrupção fazem já parte do nosso ADN. Acredito que isto se deve ao baixo nível das nossas elites, que nunca, fosse em que regime fosse, demonstraram ambição relativamente ao país. Vivem fechadas sobre si mesmas, apenas preocupadas em cuidar dos seus interesses e dos seus. Por isso nunca foram fonte de progresso. E como não se passa da cepa torta e o elevador social não funciona, viver de pequenos expedientes passou a ser norma.

  7. Quanto ao “Supremo” cá da paróquia…é de fugir a sete pés…
    Instrutivo e esclarecedor ler a saga do marcolino do “supremo” ( além de outros abnegados heróiis…) no blog ” Portugal Contemporâneo” ( passe a publicidade…) ,de Pedro Arroja….
    JSP

  8. Quem tiver arranjado um emprego sem ser por cunha ou por ir com a cara do recrutador que atire a primeira pedra.

          1. Cristina, o que o Anónimo diz não é verdade. Antes do 25/4, trabalhei num grupo económico onde fui admitido sem cunha. Exerci aí funções de responsabilidade, inclusive no recrutamento e na admissão de novos funcionários durante 4 anos, em que foram admitidos à volta de 300 funcionários, muitos com cunhas que de nada serviram. Toda a minha vida combati a cunha e não se deve abrandar a luta. Que se cometam erros na avaliação, sim, é impossível não acontecer; que o filho do amigo ou filho de quem tem uma boa agenda, ultrapasse tudo e todos, mesmo os melhores, é que não. Se “isto” não muda, Portugal não vai para longe.

  9. Catolicismo. Perdoa o trangressor. Falta de ética individual substituída por uma moral colectiva. Ao contrário do Protestantismo.

  10. A corrupção também pode ser divertida.
    Há mais de meio século era cadete em Mafra e, ao aproximar-se o fim da recruta (3 meses), crescia a ansiedade pela colocação na especialidade (+3 meses). Numa tarde soalheira, um camarada(*) de pelotão, comentou displicentemente: eu já escolhi. Vou para Artilharia de Costa em Cascais e levo comigo cinco amigos(**) para ter companhia.
    Ingénuo como então (e agora) disse-lhe que nem um general, nem um ministro, tinha poder para tal. Imperturbável, respondeu simplesmente (e com verdade como depois se viu):
    Um general ou um ministro, não; mas o meu primo que é sargento nos Serviços Mecanográficos(***), tem.
    (*) Passei meses a levar nas orelhas de distintos instrutores que berravam: colegas são as putas, nós somos camaradas.
    (**) O RAC de Cascais tinha 6 vagas; nós éramos à volta de mil.
    (***) Usavam um IBM com cartões perfurados.

    1. Em Mafra funcionava a Escola Prática de Infantaria, RAC significa Regimento de Artilharia de Costa.
      Esse sargento tinha muitos poderes transformava cadetes de infantaria em artilheiros da Costa (pena não serem artilheiros ao Costa, António).

      1. Era fim da recruta, ainda não tinha feito nenhuma especialidade. Podia muito bem ir para Artilharia de Costa (Cascais), Ligeira (Queluz) ou Pesada (Vendas Novas).

          1. Não, em Mafra era a recruta e no fim da recruta fazia-se a especialidade.
            Quem ficava em Mafra fazia especialidade de Infantaria, e quem saía para Vendas Novas de Artilharia. Mas podia ir para Cascais, de Artilharia de Costa ou Queluz, Artilharia Ligeira.

  11. É sintomático que uma pessoa tenha de conhecer um “construtor” ou “alguém no banco” para não ser enganado ou tentar sacar qualquer coisinha,

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