Agora que acabou a bola, a malta cá no rectângulo há-de reparar que se tem andado a discutir a eutanásia, mais uma vez e espero que pela última vez. Sem surpresa, nesta discussão sobre “direitos fundamentais” ou “causas fracturantes” (a designação depende do ponto de vista) a posição “conservadora” esquece-se de um detalhe: aqui, como na questão do aborto, o que está em causa não é o direito à eutanásia para a população, mas sim para a população desfavorecida. Quem tem “meios”, poderá sempre fazer o que bem entender (independentemente daquilo que defende em público). Quem não tem, ou toma o assunto nas próprias mãos enquanto pode, como tantos homens no Outono da vida fizeram na minha terra há vinte ou trinta anos, ou ficam à mercê do sofrimento.
Sobre o tema, um último contributo: o documentário de 2011 da BBC2 com Terry Pratchett, um dos maiores e mais populares escritores ingleses dos últimos cinquenta anos, que deu voz ao direito à morte assistida após o diagnóstico de uma forma rara e precoce de Alzheimer que o levou demasiado cedo. Fica o link.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Não é possível uma moral nem um sistema jurídico sem um princípio ancorador, tal como não é possível a certeza aritmética sem a axiomática de Peano. No mundo ocidental, esse princípio é (era?) a vida. Discutia-se e discute-se em que momento se inicia a vida mas tudo, desde e personalidade jurídica, os direitos individuais, o ordenamento jurídico se inicia e se desenvolve sobre a vida. Única, irrepetível e inviolável.
O direito à eutanásia desloca esse princípio, da vida para a qualidade da vida.
E os que defendem a eutanásia pertencem a uma de duas categorias:
– Os tontos e ignorantes que não abarcam as consequências da caixa de Pandora que estão a abrir;
– Os terroristas que pretendem destruir a civilização ocidental em nome de um futuro “homem novo”, sobre o qual nem eles próprios se entendem e que, até agora, já custou mais de 100 milhões de mortos.
O drama é que tontos e ignorantes há muitos. Terroristas haverá menos mas ,juntos, podem somar uma maioria eleitoral.
100 milhões, quem dá mais?
Muito bem.
O direito à eutanásia desloca esse princípio, da vida para a qualidade da vida.
Já há muito que essa deslocação foi feita na ética médica.
Suponhamos que um médico tem dois doentes para tratar, mas só tem tempo para tratar um deles. Então o médico deve avaliar, para ambos eles, se forem tratados, quantos anos ainda durarão e com que qualidade de vida. Depois, trata aquele doente cuja perspetiva é de durar mais com mais qualidade de vida.
Ou seja, um médico, entre tratar um doente de 20 anos de idade que partiu um braço, e tratar um outro da mesma idade que teve uma paragem cardiorrespiratória, deve optar por tratar o primeiro deles – porque a perspetiva é que ele, uma vez tratado, venha a ficar perfeitamente recuperado.
Estas coisas são ensinadas atualmente, penso eu, nos cursos de medicina nas universidades. São algo perfeitamente aceite na comunidade médica.
Eu tive uma irmã que teve uma paragem cardiorrespiratória e foi ressuscitada, mas ficou permanentemente incapacitada. A partir daí, sempre que ela era levada para o hospital, era colocada em último lugar na fila de espera. Não iam gastar muitos esforços a salvar a vida dela, dado o estado de dano permanente e irreversível em que ela se encontrava. Isto aconteceu em Portugal, há poucos anos. Se, por exemplo, lhe fosse detetado um cancro, não fariam cirurgia para o extrair – deixavam que o cancro a matasse.
Mesmo para o senhor, este comentário é excessivo. O exemplo é despropositado e a ideia que um médico trataria um braço partido e ignoraria a paragem cardio-respiratória é absurda.
Não sou psiquiatra mas raras vezes vi melhor exemplo de transtorno de realização.
P.S.1 – Não se preocupe. Não é grave se não tiver outros sintomas associados (depressão, ansiedade).
P.S.2 – Aos terroristas e aos tontos poderia ter adicionado uma terceira categoria de pessoas com transtornos psíquicos. Contudo quero acreditar que seriam numericamente irrelevantes.
P.S.3 – Lamento sinceramente o que aconteceu a sua irmã. E tenho o maior respeito pelas pessoas que defendem a eutanásia por estarem em contacto próximo com doentes irreversíveis. Mas respeito não significa concordância.
o que está em causa não é o direito à eutanásia para a população, mas sim para a população desfavorecida
Claro, mas isso é sempre assim: a moralidade é algo que se impõe somente à população desfavorecida.
Por exemplo, os prostíbulos só são necessários para os pobres – os ricos chamam senhoras para os servirem e acompanharem nos seus domicílios. Portanto, quando se proíbe os prostíbulos, está-se a impôr a moralidade aos pobres.
Da mesma forma, os salários dos pobres não devem ser muito altos, sob pena de eles serem desincentivados de trabalhar. Já os ricos, esses podem ter salários muito altos, porque a sua força de vontade para o trabalho nunca se desvanece.
Acho estranho a direita usar o termo “causa fracturante” quando nunca a usou para a austeridade do governo de Passos Coelho, essa sim que não podia ter sido mais fracturante.
Acho estranho a direita não usar o termo fracturante para o 25 de Abril porque, esse sim, foi fracturante.
… …
Acho estranho a direita não usar o termo fracturante para o pecado de Eva nos jardins do Éden porque, eses sim, foi fracturante.
Ficaste triggered, ó Chico?
…isso não consequência do t “tratado” conseguido entre o PS/Socrates e a Troica??
A lei contra o homicidio deve acabar porque os ricos têm mais chances de escapar e já que estamos na onda porque não acabar com todo o Sistema de Justiça?
E comparar a eutanásia onde em teoria é quem morre que escolhe, quando no aborto não é quem morre que escolhe. Demonstra bem o nível a que se desce quando o pensamento se limita à luta de classes…
Esqueceu-se da palavra “marxismo”, lucklucky.
Um terço da população não tem médico de familia, nem assistência digna hospitalar, nem urgencias abertas, nem consultas marcadas em tempo util…..mas alegrem se que qdo pedirem a eutanásia têm logo um ou mais medicos a atender o seu pedido. Maravilhoso mundo moderno. E quanto a filmes há para todos os gostos e desgostos.
…Disse o que eu penso!! Obrigada!
Disse o que escrevi há vários dias, fui censurado.
Isto da lei da eutanásia é uma não questão. As únicas pessoas que precisam uma ajuda para morrer são os tetraplégicos (como o caso daquele espanhol). Todos os outros podem morrer, se assim o desejarem, sem impor esse peso a outrem. Chama-se suicídio e não me parece ser uma causa fracturante.
Acontece que, à grande maioria, falta coragem para chegar às últimas consequências. Daí esta tentativa de arranjar um funcionário para o fazer. É simplesmente desumano criar um classe de funcionários da morte.
a lei da eutanásia é uma não questão
De certa forma, Você tem razão, porque os nossos deputados colocaram na lei tantas dificuldades, a intervenção de tantos médicos, tantos exames, tantas repetições do pedido, etc, que na prática jamais alguém conseguirá chegar a efetivar o seu suicídio daquela forma – morrerá antes de o conseguir.
Fizeram uma lei que em teoria permite algo, mas na prática lhe levanta tantas dificuldades que é o mesmo que se proibisse.
A ideia da eutanásia é precisamente essa, ajudar quem realmente precisa a ter uma morte digna (como é o caso, e bem referido, dos tetraplégicos). Não é suposto ajudar uma pessoa com depressão a suicidar-se. Como tal fez sentido que a eutanásia seja “complicada” de obter.
Não é suposto ajudar uma pessoa com depressão a suicidar-se.
Precisamente por isso a lei já requer (1) que o suicida seja visto por um psiquiatra, e (2) que o suicida tenha uma doença incurável. Ambas essas condições vetam o suicídio por depressão. Não é preciso dificultar o suicídio para isso.
A ideia da eutanásia é […] ajudar quem realmente precisa a ter uma morte digna
Não. A ideia do suicídio ajudado NÃO é ajudar a ter uma morte digna (a morte, em geral, é sempre digna), é sim ajudar a não ter uma vida indigna. Por isso, quanto mais depressa o suicício fôr aplicado, melhor, porque significa que a pessoa vive menos tempo de forma indigna. Portanto, dificultar o suicídio é, de facto, contrariar o seu objetivo: é fazer a pessoa ser indigna por mais tempo.
É simplesmente desumano criar um classe de funcionários da morte.
Não precisam de ser funcionários. Podem ser voluntários. Ou simples trabalhadores.
Na Suíça e noutros países, não há funcionários da morte. Há voluntários, e há trabalhadores que fazem o seu trabalho. Não se costuma chamar a um trabalhador um “funcionário”.
Caro João Campos,
A eutanásia será então uma lei que permite aos pobres suicidarem-se a expensas do sistema nacional de saúde.
Ora o sistema nacional de saúde deverá servir para salvar vidas, só quando todas as as vidas passíveis de serem salvas o estiverem é que os recursos do Estado deverão ser esbanjados em “frescuras” como o suicídio mais bonito.
Nada tenha contra as clínicas privadas que proporcionam suicídio ao som de música clássica e velas de cheiro mas lá está isso é para quem pode, quem não pode, infelizmente, terá de recorrer a uma azinheira e a uma corda.
A favor do suicídio, sem dúvida, deverá ser despenalizado.
A favor do suicídio pago pelo contribuinte, desviando recursos médicos para caprichos e problemas pessoais, não.
(sei que efectuei uma formulação um pouco simplista, no essencial é isto)
Conversa da treta, igual à do aborto. Como se algum hospital público mantivesse alguém tempos infindos entre a vida e a morte. Despacham-no logo para o reino da glória que alguém vem a seguir e há falta de camas.
Isso de esticar a vida, ou coisa que o valha, é bom para hospitais privados, a pagar. No money, no life support.
E eu sei do que falo pois passei pelas duas situações. Velho é velho e é para despachar. É triste dizê-lo, mas é a conclusão que tiro do nosso SNS, dizem eles, um dos melhores do mundo.
Numa coisa a Igreja tem razão: este tipo de liberdades é sempre para matar. Que raio de liberdade…
Em vez de escreveres sobre o jogo dos bancos que a Sra La Guarde anda a fazer no Banco Central Europeu atirando milhares de famílias para o incumprimento falas da Eutanásia…
No entanto ninguém quer perceber que a dita senhora é um ponta de lança dos bancos no Banco Central Europeu, já o era antes noutras instituições e continua a ser mas ninguém discute esse conflito de interesses.
Falas da Eutanásia e esqueces subirem mês a mês as prestações dos empréstimos até rebentarem com tudo…
São critérios.
Tem toda a razão naquilo que escreve !
A.Vieira