
Gui Abreu de Lima: «Há dias, estacionei e saía do carro quando um homem me interpelou. Você não morou em Alcântara? Morei. Você gostava muito lá de um miúdo… Talvez. Havia vários. Era o Miguel. O Miguelito? Sim, o russinho. Sou o tio dele. Ah, homem, você sabe lá as vezes que penso nesse menino. Tem telemóvel, 17 anos, a mesma voz vagarosa e risonha com que falava comigo enquanto eu fazia o jantar e partes gagas para eles se rirem. Com que ternura assumia tomar conta do meu filho Zé, um meia dúzia de meses insaciável na paródia. Fomos tão felizes. E éramos tão pobres e a vida tão difícil de levar.»
José António Abreu: «Quando um homem diz que uma mulher é «interessante» não costuma estar a pensar na aptidão que ela demonstra para discutir apaixonada e pormenorizadamente se os melhores filmes de Alfred Hitchcock são os do período inglês ou os do período norte-americano. Uma mulher é interessante, antes de qualquer outra consideração, pelas mesmas razões que um Aston Martin é interessante: questão de linhas (ou curvas) e capacidade para gerar excitação, nervoso miudinho e vontade de – acho que não há forma de escrever isto sem parecer machista, pelo que nem vou tentar – dar uma voltinha.»
