Pensamento da semana


Teresa Ribeiro,

Tenho pena que quando se fala de racismo se feche o ângulo sobre a história que envergonha os brancos e não se diga tudo: que o racismo também grassa entre as outras raças e que hoje ainda há escravatura, exercida de negros sobre negros, em África. Seria uma abordagem mais honesta e transparente. Teria a vantagem de não cavar trincheiras, com vítimas sempre da mesma cor de um lado e verdugos sempre da mesma cor do outro, algo que potencia o ódio de parte a parte. Melhor ainda, interpelaria cada um de nós, independentemente da raça, sobre o papel que queremos desempenhar neste combate, que deve ser da humanidade contra um dos seus atavismos, o preconceito racial.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

41 comentários em “Pensamento da semana”

  1. Só no dia em que as pessoas não sejam classificadas pelo autocolante que exibem na lapela, o faccioso racismo tão exibido e martelado pela cor da pele poderá desaparecer.

  2. ainda há escravatura, exercida de negros sobre negros

    E já agora poder-se-ia lembrar que também houve escravatura exercida de brancos sobre brancos.

      1. Aliás, a palavra “escravo” vem de “eslavo” e deriva do facto de que os primeiros escravos na Europa Ocidental feudal eram eslavos (salvo erro capturados pelos Vikings nas suas incursões pelo território da atual Rússia e posteriormente vendidos na Europa Ocidental).

        1. E todos os que escrevem actual sem c também são escravos: escravos da ideologia e do regime de estúpidos mais estúpido do mundo.

  3. Há coisas que funcionam numa lógica pendular, e este tipo de movimentos está incluído.
    Um dia, no futuro, os excessos de outrora deixarão de justificar os excessos da actualidade, e os excessos seguintes serão menos excessivos que todos os excessos anteriores. E pouco a pouco, a caminho do longo prazo, lá longe onde e quando todos estaremos mortos, tudo funcionará bem melhor.
    Apesar de tudo, temos de ser optimistas .

  4. Para os afro-gringos a escravatura é o negro na plantação de algodão.
    Sabem lá eles que o telemóvel que usam para tuitar as suas hashtags é feito por mão de obra escrava.
    Para não falar nos desenvolvidos aliados da península arábica.

    1. Sim, há muitas formas de escravatura. A escravatura sexual, exercida nos dias de hoje sobre meninas na Ásia, é um exemplo, de que por sinal pouco se fala. E até alimenta um segmento de negócio: o turismo sexual.

  5. Falarmos de racismo e escravatura e fazermos vista grossa ao que se passa nas Odemiras deste país não deve ser a forma mais correcta de acabarmos com o preconceito racial.
    Se queremos efectivamente contribuir para a igualdade dos povos ou das raças não podemos permitir que no nosso próprio país existam casos encobertos de escravatura. Se permitimos isso, então tudo aquilo que dizemos não passa de mera retórica.

    1. Que eu saiba, não há escravatura em Odemira. Há indivíduos que ganham o seu salário e que até ficam muito satisfeitos porque podem enviar boa parte desse salário para as suas famílias no estrangeiro.
      Aliás, nem nunca ouvi dizer que os salários lá pagos fossem inferiores ao salário mínimo nacional.

      1. Eu também não sabia que havia pessoas que viviam em condições miseráveis em Odemira. O que eu sei é que ganhar o ordenado mínimo e trabalhar 8 horas por dia é diferente de ganhar o ordenado mínimo e trabalhar 12 horas por dia.
        Não deixa de ter razão, os nossos emigrantes fazem o mesmo, mas não será já altura de acabar com esta exploração?

        1. OK, chame-lhe “exploração” se quiser. Escravatura é que não é certamente.
          Aliás, consta que alguns trabalhadores ficam tão satisfeitos por serem explorados daquela forma que até se dispõem a regressar no ano seguinte e/ou contactam outros na terra deles para virem.
          E, já agora, não é somente em Odemira. Nas estufas da Póvoa de Varzim ocorre o mesmo. E nos cerejais da Cova da Beira.

          1. Ó Balio, estamos a falar de realidades diferentes. De que vale estarmos a falar em igualdade, se ao nosso lado há pessoas exploradas e escravizadas pelas máfias de leste. Eles até podem mandar dinheiro para a família, mas sabe quanto é que eles pagam às máfias para vir trabalhar para cá?
            Isso existe e se queremos efectivamente acabar com as desigualdades não podemos permitir que esse tipo de negócios floresça no nosso país. Senão que raio de igualdade estamos a falar? Você ia trabalhar com aquelas condições para Odemira?

          2. sabe quanto é que eles pagam às máfias para vir trabalhar para cá?

            Esse é de facto um grande problema, do qual deveríamos falar porque ele é exclusivamente culpa nossa e nós poderíamos remediá-lo. É qua, eles pagam às máfias devido a a imigração ser ilegal ou muito dificultada pelos nossos governos. Se a contratação de trabalhadores estrangeiros fosse facilitada e o transporte desses trabalhadores fosse diretamente pago por nós (enfim, pelos empregadores), então os imigrantes não ficariam dependentes das máfias.
            É preciso legalizar, facilitar e organizar a imigração para que ela deixe de ser um negócio mafioso efetuado por linhas travessas. Se Portugal precisa de imigrantes, então o Estado português deve organizar a pagar a imigração.

          3. se queremos efectivamente acabar com as desigualdades não podemos permitir que esse tipo de negócios floresça no nosso país

            Mas quais desigualdades? Os trabalhadores imigrantes ganham o seu salário, que é o mesmo que seria pago a um trabalhador português e que é superior ao salário mínimo nacional, e que dá perfeitamente para viver. Se não há portugueses a fazer aqueles trabalhos, é porque as condições são penosas, não é porque se trate de “exploração”.

          4. Você dá uma no cravo e outra na ferradura.
            Estamos a falar de racismo e de escravatura, você reconhece que há máfias a operar em Portugal, e depois diz que não há desigualdades?
            Uma boa parte dos imigrantes não está legalizada, parte do que recebem é para pagar a mafiosos, trabalham mais de 12 horas por dia, vivem em condições deploráveis mas para si está tudo bem, não há exploração nenhuma.
            Oh, Balio! Por favor…

          5. (1) Claro que há máfias a operar no recrutamento e transporte de imigrantes para Portugal. Tal como eu disse, urge eliminar essas máfias, pondo o Estado português como agente de contratação e transporte de imigrantes para Portugal. Deve ser o Estado a fazer, de forma perfeitamente legal, o trabalho que as máfias atualmente fazem.

            (2) Se uma boa parte dos imigrantes não está legalizada, isso é precisamente porque o Estado português cria obstáculos indevidos ao recrutamento e à legalização dos imigrantes. Os imigrantes devem ser recrutados legalmente, sem a intervenção de máfias, pelo Estado português e pelos empregadores privados.

          6. (2)
            Isso é a quadratura do círculo. Se o Estado português criar condições para a legalização de todos os imigrantes então eles poderão trabalhar de acordo com a legislação portuguesa e as leis locais, mas nesse caso não seriam necessários emigrantes, bastariam os locais e contratá-los não seria lucrativo.
            Todo o sistema existe porque a maior parte destes emigrantes são ilegais, logo é como se não tivessem direitos. Só é rentável trazer gente do outro lado do mundo para colher framboesas se essas pessoas forem exploradas como trabalhadores sem direitos (praticamente escravos).

          7. Não. Os imigrantes fazem coisas que os locais não aceitam fazer (ou então aceitariam, mas somente por salários muitíssimo superiores). Mesmo que completamente legais, eles têm uma capacidade e uma vontade de trabalhar muitíssimo superior às dos locais.
            Os imigrantes vêem de países onde a agricultura é um modo normal de ganhar a vida, e aceitam ser agricultores. A maior parte dos portugueses está pura e simplesmente indisponível para passar o dia a trabalhar debaixo do sol.
            Os imigrantes, repito, não são explorados. Eles ganham o salário mínimo, que lhes chega perfeitamente para viver pelo menos tão bem quanto nos países deles e ainda dá para lhes pagar a viagem para cá e para enviar para as famílias. Ganham muito menos daquilo que um português aceitaria para fazer o mesmo (se é que haveria portugueses que aceitassem – não haveria), mas ganham de forma aceitável. Tão aceitável, de facto, que estão dispostos a atravessar meio mundo para vir cá trabalhar.

          8. Está a dizer que os imigrantes renunciam ao pagamento de horas extraordinárias, aceitam viver em condições completamente insalubres e endividam-se junto de máfias, porque gostam de ser maltratados?

          9. O conceito de “exploração” é um bocado relativo.
            Para a maior parte dos portugueses, trabalhar dez horas debaixo do sol por um salário de 50 euros é exploração. Mas para um nepalês isso não é exploração – é um belo salário, e ainda bem que há quem lhe dê esse trabalho todo.
            Trabalhar dez horas debaixo do sol por um salário de 50 euros é legal em Portugal. Mas, naturalmente, para muitos portugueses não deixa de ser “exploração” e até mesmo quase “escravatura”.
            É tudo relativo.

          10. Então para si é tudo relativo.
            Você faz-me lembrar aquela professora que quis acabar com o racismo na sala de aula e um dia vira-se para a turma e diz:
            – Meninos aqui não há brancos nem pretos, a partir de hoje são todos azuis. Vá vamos sentar. Os azuis claros aqui à frente os azuis escuros ficam lá atrás.

          11. Carlos Sousa, parece-me que não percebeu o sentido das aspas nos termos “exploração” e “escravatura”. Cada um atribui as classificações que quer a determinadas condições de trabalho (e estamos a falar de condições dentro da lei – como refere o balio). Daí ser relativo.

          12. Não é pelo facto de cada um atribuir as classificações que quer que os termos ” exploração ” e ” escravatura ” são relativos. Os termos “exploração ” e ” escravatura ” são relativos porque fazem parte de uma relação social já abolida na maior parte dos países civilizados.
            Em pleno século XXI não é admissível justificar com eufemismos condições de trabalho miseráveis e em clara violação dos direitos humanos.

  6. Excelente “post”. Reenvidicar-se vítima de “racismo” -quer pessoalmente quer como pertencendo a uma específica etnia- demonstra, entre outros infelizes “tiques” pessoais, uma vasta falta de cultura…

    1. Se o Pedro Correia decidisse publicitar o pior comentário da semana, este seria imbatível ou, no mínimo, um fortíssimo candidato..
      – Refere outros “tiques” pessoais que não se vislumbram no texto.
      – Critica uma reivindicação que nada no postal sugere.
      – Comete 2 (dois) erros de ortografia em “reivindicar”.
      – Chama ignorante (vasta falta de cultura…) à autora, sem assinar.

  7. Claro que há racismo entre vários tipos de pessoas, mas a mim interessa-me mais o que se passa por cá e o que tem mais impacto na sociedade em que vivo.
    Não digo que o seja, mas esta parece uma afirmação do tipo: “eles até são bem tratados, lá na terra deles é pior”.

    1. Jo,
      Penso que é por causa do receio de que as pessoas tirem o tipo de conclusões que está a tirar, ou a insinuar, que a discussão sobre o racismo não se faz de forma mais aberta. Afunila-se o discurso dentro do que se considera ser o politicamente correcto, e quanto ao resto assobia-se para o lado, fingindo que não existe. Mas para o fenómeno ser entendido em toda a sua plenitude e a partir daí combatido de forma mais eficaz estou convicta de que se tem de ir mais longe, falando de tudo o que se passa no mundo e não esquecendo também de fazer o devido enquadramento histórico. Segmentar é dividir. Segmentar é também varrer para debaixo do tapete realidades menos mediáticas ou, usando o seu raciocínio, “que têm menos impacto na sociedade em que vivemos”.

      1. Sim devemos começar onde os casos são mais graves. Ao pé da Somália do Afeganistão, da Rússia, de Israel, etc, até temos uma sociedade bastante benevolente nestes aspetos.
        Vamos então considerar que tudo está bem no melhor dos mundos?
        Ao contrário do que diz não faltam pessoas a apontar o racismo nos grupos a que não pertencem, o que temos bastante falta é dos que querem arrumar a própria casa.

        1. Inferir do que escrevi que aquilo que quis dizer é que “está tudo bem no melhor dos mundos” é mesmo não querer ver para lá do que o politicamente correcto determina.

          1. Não inferi coisa nenhuma do seu texto. Acusar os outros com um espantalho, como está a fazer com o politicamente correto, não me parece um bom modo de discutir.
            Pensa sinceramente que o racismo na nossa sociedade é provocado pelo racismo nas outras?
            Claro que se deve estudar tudo, mas pretender que é inocente este citar de outras sociedades ao mesmo tempo que se desvaloriza o que acontece na nossa revela muita ingenuidade.

          2. Mas por que razão chamar a atenção para o facto de o racismo não ser um mal exclusivo da raça branca e não acontecer apenas no mundo ocidental é desvalorizar o que se passa na nossa sociedade?!
            O que entendo é que é saudável ter a coragem de afirmar que há racistas de todas as cores e em todos os continentes e que é desse ponto de partida que se devia começar a discussão. Pretender que o racismo e a escravatura foram inventados no ocidente, nos séc XV e XVI não só é falso, como conduz a uma visão simplista do fenómeno que por sua vez alimenta um discurso maniqueísta que só serve o ódio.

  8. “contra um dos seus atavismos, o preconceito racial”. Só ?. Preconceitos/s ! Et nun et semper. Um por todos. Todos por um. Quantos somos, quantos temos. Ninguém atire pedra que faça ricochete.

  9. A história, a antiga envergonha brancos, alguma atual, deveria envergonhar os não brancos pelas atitudes racistas que tem em relação aos brancos ao quererem tirarem dividendos do passado, em vez de se preocuparem com o acabar da discriminação negativa, não querendo simplesmente obter uma positiva.

    1. Melhor seria não falar sequer em “pretos” e “brancos”, porque a realidade não é, literalmente, a preto e branco. Há racismo entre negros. Há racismo entre brancos e entre amarelos. E o que é curioso é que toda a gente o sabe, mas ninguém fala disto. Porque é complexo e está tão disseminado que é difícil isolar vítimas e culpados. A verdade é que o racismo é endémico. Mas afirmá-lo, não é sexy. Para muitos soa a branqueamento do papel do homem branco.
      Sei que há quem o faça com esse propósito, mas não é porque alguns o fazem que os factos mudam. E dizer que todos somos culpados não só é verdadeiro, como facilitaria o diálogo inter-racial.

    2. “A história, a antiga envergonha brancos.”

      A história antiga sobre essa perspectiva nova envergonha todos. A educação publica parece que não ensina sobre os ataques para caçar escravos nas costas dos Algarves e Atlântica feitos por piratas do Norte de África. Ou podemos ir às costas de Itália cobertas de torres para aviso da chegada de piratas do Norte de África ou Otomanos.
      Quando os Portugueses chegaram ao contacto com o Reino do Congo era um reino esclavagista. Que os reinos Africanos esclavagistas como Dahomey resistiram o mais que puderam à pressão dos colonialistas Europeus para acabar com a escravatura.
      Vergonha ou Orgulho?
      https://www.newyorker.com/culture/personal-history/my-great-grandfather-the-nigerian-slave-trader
      Os Marines Americanos começaram aqui…
      https://en.wikipedia.org/wiki/First_Barbary_War
      https://en.wikipedia.org/wiki/Barbary_slave_trade
      https://en.wikipedia.org/wiki/Francisco_Félix_de_Sousa
      “o maior esclavagista” segundo o artigo,,,tem uma estátua em África

  10. o preconceito racial só acabará quando todas as culturas forem iguais….um mundo monocórdico , com toda a gente igual , de modo que não exista o “outro diferente” …estamos bem encaminhados , com a coca obesa cola e o maclixo na linha da frente . tão bom , não é , o resultado da terraplanagem.?

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