Pensamento da semana


João Sousa,

Em tantos blogues de gente voluntariosa que lê freneticamente, e nas secções de livros que ainda vão sobrevivendo nos jornais, é raríssimo eu ver uma crítica a um livro de divulgação científica. A falar verdade, não me recordo da última vez que vi alguém, num transporte público, a ler um livro de divulgação científica. Não estou a sugerir que ande toda a gente a ler o Mundos Paralelos de Michio Kaku, menos ainda o Breve História do Tempo de Stephen Hawking, por vezes algo herméticos para os não-iniciados. Mas é que nem vejo o Cosmos de Carl Sagan, que se lê como um romance, nem sequer uma das para-autobiografias de Richard Feynman que se lêem como uma comédia.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

21 comentários em “Pensamento da semana”

  1. Acrescentaria aos mencionados “Os Três Primeiros Minutos do Universo”, de Steven Weinberg. Mas sobretudo as hilariantes comédias de Douglas Adams, como, por exemplo, “À Boleia Pela Galáxia” e “Agência de Detectives Holística”. Ou “Está a Brincar, sr. Feynman!”, de Richard Feynman.
    As obras de Douglas Adams são muitas e variadas. Imperdíveis – mesmo para leitores menos familiarizados com as temática científicas.

    1. Parte significativa do catálogo da Gradiva merecia ser aqui mencionada. Não sou, de forma alguma, um historiador da edição em Portugal, mas tenho a ideia de talvez ter sido o primeiro projecto editorial a investir fortemente nesta área.

      Confesso que a minha relação com Douglas Adams tem sido difícil. Tenho há anos os dois títulos que mencionou e já tentei algumas vezes entrar neles mas… ainda não funcionou.

  2. Oops, pois. E “contra mim falo (concordo)” – não que leia freneticamente ou blogue sobre livros. Mas há muito, muitíssimo, tempo que não leio divulgação científica (neste sentido) – a não ser sobre ecologia, mas o que é pouco diferente do que refere. Preguiçosa falta de curiosidade. Mas também filho desta ideia geral da superioridade da “cultura literária”.

    1. Idem: contra mim falo. Há já um punhado de anos que não leio nem compro nada desta área. Também devo admitir que há já um punhado de anos que os meus hábitos de leitura se degradaram imenso, tendo-me dedicado quase em exclusivo a reler. Acho que tenho atravessado uma “crise de fé” nos livros.

    1. Sim, é verdade, mas também é verdade que os membros desse blogue não são aquilo que eu consideraria “público em geral”. O que eu escrevi pretendia dizer mais respeito ao público “leigo”, que não tem actividade científica ou técnica.

  3. O Macaco Nú.
    Quem diz livros científicos, diz de História, Mitologia, Filosofia ou Geografia.
    Agora é mais biografias e livros de culinária.

    1. E auto-ajuda – não se esqueça dessa categoria que tantas árvores tem assassinado.

      Biografia e culinária não são secções editoriais que, à partida, mereçam menosprezo. O problema é, nos tempos que vivemos, terem sido invadidas pelos bárbaros: por cada biografia de gente “com História” como Churchill, são perpetradas vinte biografias de cantores e apresentadores pimba…

  4. Tem razão, é por falta de livros de história e divulgação científica que alguns escritores consideram o holocausto nazi a “forma mais humana ” de matar a fome aos judeus.
    Eu não acho que haja falta de leitura de grandes obras, o que eu acho é que há excesso de parvoíce nas pequenas obras.

  5. Grande verdade! E receber mensagens a dizer que se deve ter a mania porque se citam artigos e livros científicos? Além disso, os autores dos livros de ciência não têm por norma quem lhes pague para outros falarem nos blogues (ups).

    E convenhamos, também depende do meio… Por cá é salutar ir buscar frases feitas à internet e criar um artigo, já noutros países é uma condenação ao fracasso.

    E finalmente, o João acha mesmo que muitos dos livros que a malta empilha e decida falar são lidos pelos próprios? Nah… :-))))

    1. Ena… alguém aqui acordou hoje com os pés destapados… 😉

      Agora a sério. Há alguns anos, uma colega de trabalho descobriu-me num jardim, à hora do almoço, a ler um pulp de Mickey Spillane (e nem sequer era um bom Spillane) e disse-me, com um tom cheio de pontos de exclamação: “João, não te sabia um intelectual!!!” Parece haver muita gente para quem os livros não passam de um cilício que foram forçados a usar durante os negros anos da escola.

      A internet é uma imensa fonte de desenrascanço. Já vi, em alguma blogosfera, recortes de jornais com obituários tão semelhantes entre si e à entrada do falecido na Wikipedia que levantaria suspeitas ao mais ingénuo. Mas estamos no país onde se fizeram exames por fax e os jornais se acotovelaram para noticiar o mais recente ensaio publicado por um político semi-retirado (e escrito directamente em francês e depois traduzido para português, garantia ele em entrevista dada a uma plumitiva cronista). Há muitas páginas de jornais, escritas via Google por estagiários de redacções, com um valor informativo apenas ligeiramente superior ao dos textos Lorem Ipsum que os designers colocam nas maquetes de paginação.

      E aqui que ninguém nos ouve: essa dos livros empilhados até parece piada dirigida a um certo ex-comentador dominical de política que, todas as semanas, apresentava o equivalente a um pequeno furgão de livros que tinha “lido e gostado”.

      1. Não poderia dizer melhor :-)))

        P.S.: excepto a parte dos pés destapados, mas apanhei uma “molha” daquelas 🙂

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