Pensamento da semana


Teresa Ribeiro,

Quando oiço ou leio que “a tecnologia digital está cada vez mais centrada nas pessoas”, demoro-me sempre a apreciar a excelência da frase. Trata-se, evidentemente, de uma mentira mas, como sempre acontece com as melhores mentiras, tem na raiz uma verdade. De facto a tecnologia digital está cada vez mais centrada nas pessoas. Não para as servir, como o chavão sugere, mas para as espiar, estudar, catalogar, manipular e por fim retirar dividendos da informação recolhida. Sabemos que é de eufemismos que vive a propaganda comercial, mas este, por ser particularmente sonso, incomoda-me mais.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

19 comentários em “Pensamento da semana”

  1. Uma outra forma em que a tecnologia digital está centrada nas pessoas é para as viciar. Os jogos de computador são especificamente construídos no sentido de viciar as pessoas, de lhes criar uma adicção.

  2. Talvez há trinta ou quarenta anos, já eu chocava familiares e conhecidos pelo meu pessimismo quando vaticinava que os “computadores” iriam colocar mais pessoas em exclusão no séc. XXI do que o analfabetismo no séc XX.
    Hoje quando vejo idosos nas entradas de hospitais ou em serviços públicos (maxime conservatórias) com ar assarapantado a olhar para as máquinas distribuidoras de senhas de atendimento acho que o meu pessimismo só pecou por defeito.

    1. As máquinas distribuidoras de senhas de atendimento não são computadores.
      O problema das máquinas é que fazem muitas vezes ao utente perguntas a que ele não sabe responder, ou então cuja resposta não é imediata.

      1. “As máquinas distribuidoras de senhas de atendimento não são computadores.”

        Por isso escrevi “computadores” entre aspas. Essas máquinas têm um processador ou seja são tecnologia digital que é o assunto do post. Mas há 30 ou 40 anos não era habitualmente utilizada a palavra digital nesse sentido (se alguém dissesse tecnologia digital provavelmente pensar-se-ia numa técnica de comparar impressões digitais).

        E não se trata apenas de “fazer perguntas …” . Mais significativo é não terem prevista a opção final de pedir ajuda a um assistente à semelhança dos atendimentos telefónicos automáticos ou seja, não foram pensadas para a faixa etária que mais utiliza os serviços de saúde.

        Mas nem será importante porque quando a eutanásia de voluntária passar a necessária (por interesse económico nacional ou outro qualquer motivo válido nesta sociedade sem alma nem princípios) estes pormenores resolvem-se por si.

        1. não terem prevista a opção final de pedir ajuda a um assistente

          Certo. Se a pessoa não consegue fazer a máquina funcionar, bem pode ficar ali minutos a fio até que alguém a vá ajudar.

          O mesmo problema têm as máquinas de pagamento de portagens em auto-estradas. Frequentemente ficam automobilistas minutos parados em frente delas, sem perceberem como aquilo funciona.

          O mesmo problema, ainda mais grave, têm as máquinas de venda de bilhetes para os transportes coletivos. Também aí se formam filas de pessoas que não entendem em que botões devem carregar, nem em que local devem colocar qual cartão.

    2. Prós e contras

      Prefiro agora entrar num sítio (site) e tratar das minhas coisas online, do que ir assarapantado para uma fila da loja do cidadão.

  3. A tecnologia foi uma coisa boa na simplificação de um aliviar de problemas humanos.
    Pena é não ter parado para aí há uns vinte anos.
    Desgraça é continuar a evoluir.

    É impressionante! Verdadeiramente fantástico como pude sobreviver sem tanta perfeição a conduzir-me a existência, quando o máximo de tecnologia que conheci foi o Jap Hitachi a pilhas para ouvir “o soldado na trincheira” do Fernando Farinha e o “Angola é nossa” do Governo, quando andava na tropa.
    Milagre, só pôde!

    1. Tecnologias: o grande mal começou com os tipos que inventaram a escrita, uma tecnologia que nunca devia ter existido. A mania das invenções dá cabo de nós e afasta-nos da natureza.

      1. “A mania das invenções dá cabo de nós e afasta-nos da natureza.”
        Não é verdade, caro anónimo.
        Mas é verdade que todas as invenções com impacto na vida do dia a dia (escrita, imprensa, rádio, acordo ortográfico, automóvel, plásticos, detergentes e pesticidas, etc. etc.) provocaram muita discussão e confusão. Alteram hábitos e há sempre uns que são a favor e outros que são contra. Por vezes a inovação perde e desaparece, por vezes ganha e permanece. Como distinguir os dois casos? Eis a questão.
        A informática e os telemóveis não são excepção. Há quem diga que originaram um isolamento maior. Penso o contrário. No meu caso, e graças ao WhatsApp, tenho contacto frequente (até com fotos e videos) com parentes, sobrinhos e amigos, pessoas (até os parentes próximos) que dantes passam meses e anos sem que seu soubesse delas.
        E os plásticos? Têm grandes inconvenientes hoje, é certo. Mas a maior parte das pessoas nem reflecte no que contribuíram para a higiene e saúde pública.

  4. Todas as invenções humanas têm prós e contras, a tecnologia digital não é exceção. Cabe-nos a nós todos aproveitar os prós e combater os contras tendo em atenção que não há almoços grátis.

    Está a utilizar um blog na net para se queixar da tecnologia digital.

    1. Se foi para mim o ” está a utilizar um blog na Net para se queixar da tecnologia digital” se foi para mim, repito, deveria ter prestado mais atenção ao que escrevi.
      Penso que há vinte anos já havia blogs.

    2. Pois estou, anónimo das 9.59. Posso? Ou não se toca na tecnologia digital nem com uma flor?
      Claro que uso e dependo de tecnologia digital, pois vivo neste mundo e ainda para mais trabalho no setor da comunicação. As TI para mim são já fundamentais no exercício da minha profissão, mas não gosto da forma como está a evoluir e a transformar o mundo. No equilíbrio entre prós e contras receio que os contras ganhem cada vez mais relevância. Mas essa discussão, como sabe, não é minha, é universal.
      O post, mais do que discutir os prós e contras das TI, pretende chamar a atenção para a forma como o marketing doura a pílula quando fala de “serviço personalizado”. Expressão eufemística que esconde todo um programa, nada inocente.

      1. Não vale a pena a agressividade. Parece que bati nalgum nervo. Não tinha essa intenção.

        Penso que protestar porque o marking não é exato é um bocado inútil. Marketing não é informação.

  5. A pobre da “tecnologia digital” tem costas largas, tal como um pobre bisturi. Nas mãos de uns salva. Nas mãos de outros mata.

  6. Os dados são o novo petróleo. Faltará pouco para terem cotação nos mercados, tal como as “commodities”.
    Muito avançámos desde colocar as fraldas ao lado da cerveja.
    A comodidade dos serviços rápidos e sem sair de casa tem o preço do controle total dos nossos movimentos (a Sonae sabe o que comemos, a Brisa sabe por onde andamos, a MEO sabe a quem telefonamos, o Fisco sabe tudo sobre tudo).
    A lógica das redes sociais em que queremos fazer parte de uma comunidade tem o preço dessa comunidade saber tudo sobre a nossa personalidade e vida íntima, mesmo o que não queremos que se saiba.
    A constante navegação na internet define o nosso perfil enquanto pessoa, e consumidor. Isso vale dinheiro. O dinheiro que o FB precisa para nos manter felizes.

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