Pela liberdade


Paulo Sousa,

É difícil transmitir a energia e a intensidade que transpira das imagens dos estimados 60.000 manifestantes que ontem à ontem estiveram nas ruas de Tblisi, mostrando o seu apoio a que o seu país possa aspirar a um dia ser membro da UE.

A Geórgia é uma nação antiga que sempre esteva rodeada de grandes impérios e não foram poucas as vezes que foi desprezada e humilhada. Tem frequentes problemas de instabilidade política e nem sequer controla o território que lhe é reconhecido pela ONU como seu. A Ossétia do Sul e a Abcásia são territórios ocupados pela Rússia e, de uma forma simplificada, estão para a Geórgia como a Transnístria está para a Moldávia. São factores de destabilização permanentes que inquinam a capacidade destes países poderem focar-se na sua modernização e no cumprimento das aspirações do seu povo, por paz e prosperidade.

Não pretendo de todo aqui fazer um ensaio de geopolítica, mas tal como vimos acontecer recentemente na Ucrânia, o que seria uma anémica conformidade pelo dia-a-dia, que travava a aspiração por uma evolução rápida dos equilíbrios políticos, acabou por ser tremendamente sacudida e acelerada após a invasão russa à Ucrânia.

Há mudanças efectivas a acontecer. A guerra decorre na Ucrânia, mas para além da luta por cada metro de terreno no Donbass, o combate que se trava é entre duas visões opostas do mundo. Com todas a falhas e imperfeições da UE, é óbvio que neste combate será decidido se as gerações futuras destes povos, e de todos os europeus, poderão viver em liberdade ou sob o autoritarismo que Putin consubstancia.

Tudo está em aberto e ontem os georgianos mostraram que querem estar do lado da liberdade.

40 comentários em “Pela liberdade”

  1. A adesão à UE não garante a liberdade em país nenhum. Os países têm de ser livres e democráticos para aderirem.
    Ver o Sr. Orban com o seu gosto pela liberdade, e a Comissão Europeia que nem sobre o calibre das bananas se entende estarem a dar garantias de liberdade a terceiros é confrangedor.
    Aceitar um país em guerra como membro, só tem duas saídas: Ou os outros membros declaram guerra à Rússia ou a solidariedade entre eles é uma farsa.
    A política de alianças cegas deu um lindo resultado em 1914. Segundo me contam, os generais de sofá diziam que estava tudo resolvido até ao Natal de 1914, mas enganaram-se ligeiramente.
    Quanto à visão do mundo da UE, tem dias: Ou é a visão alemã ou é a visão francesa. Para o que conta, os outros não riscam.

    1. Em alternativa à instabilidade e permanente busca de equilíbrios da UE, a Rússia e a China exibe uma estabilidade tremenda. É a estabilidade do exilio dos dissidentes e dos cemitérios sem lápide.
      Podemos concordar que os cidadãos europeus podem não se identificar com a arquitectura política europeia, mas a esmagadora maioria partilha os valores da liberdade, de democracia liberal e de tudo o que se lhe associa. Até os mais críticos da UE não se atrevem a correr na direcção oposta aos que fogem da opressão.

      1. Quando se tem um emprego que não nos satisfaz, deve-se procurar outro, se não se encontrar, deve-se emigrar. Quem vive em sociedades democráticas e discorda do sistema, deve procurar formar um partido para combater o dito sistema, ou reunir uma rapaziada para pegar fogo ao parlamento. Se não tiverem capacidade para uma coisa ou outra, a solução deve igualmente ser … emigrar. A Rússia apresenta problemas de natalidade e como tal a sua demografia corre riscos. É uma ótima oportunidade para alguns dissidentes da democracia e da UE, tirarem o passaporte. Vão ter que entrar a pé, mas quem corre por gosto não cansa.

        1. Então, e porque não uma primavera na Rússia para correr com o Putin?
          Depois é mais um país para a UE, só até aos Urais que a partir daí é a Ásia.
          E viveríamos todos felizes do Cabo da Roca a Cheliabinsk nos Montes Urais.

      2. A esmagadora maioria dos cidadãos da UE está a ser convencida que a adesão ao grupo é uma espécie de recompensa por danos sofridos, e que as condições de entrada que contam são: a Comissão querer e a Alemanha e a França concordarem.
        Compreendo a sua preocupação com a Rússia, mas eu não vivo lá, vivo cá.
        Já me custa a compreender a justificação para uma asneira com outra. No seu entender como a Rússia é uma ditadura não faz mal que a União Europeia deite as regras democráticas pelo cano abaixo. Ou então é uma questão de grau; a democracia europeia, no seu entender, é proporcional à russa, se Putin se tornassse democrático a democracia era importante como é um ditador já não faz tanta falta.

        1. Não sou eu que está a promover uma ditadura ao ponto de a poder comparar à UE.
          Olhe para a história e veja quantos anos de paz a UE conseguiu assegurar. As guerras que aconteceram no espaço europeu desde 1945 foram todas fora da esfera de Bruxelas.
          Se ler com atenção o postal verificará que faço referência às imperfeições da UE, mas o que acaba por ser ridículo na sua argumentação é que exija uma pureza absoluta a uma das partes e tolere, e até promova pela comparação, um regime que prende e agride quem se manifesta com uma folha em branco, ou até mesmo sem qualquer folha. Funcionamos assentes em princípios diferentes e isso explica muitos dos seus comentários. Felizmente para si vive no lado livre do mundo e pode dizer o que entender. Livra-se da prisão e de outras contrariedades, mas não se livra do ridículo.

          1. Olhe para a história e veja quantos anos de paz a UE conseguiu assegurar.

            Eu olhando para o momento pesente – e não para a história – está-me a parecer que a União Europeia está a candidatar-se a uma guerra com a Rússia. Parece-me que a União Europeia não está muito interessada em assegurar a paz, pelo contrário, está sobremaneira interessada (até nas palavras de Ursula von der Leyen) em ganhar a guerra.

          2. O que diz faz sentido se conseguir acreditar que perante uma, duas, cinco cedências às ameaças russas, seria possível conseguir uma paz permanente. Olha para a história e verá como isso é uma conclusão encolhida e ignorante.
            Sugiro uma busca no google por “Chamberlain” e “acordo de Munique”.

          3. Portanto, o Paulo Sousa elogia a União Europeia por ela ter conseguido manter a paz na Europa durante muitos anos, mas logo de seguida sugere que isso da paz já é coisa passada, agora a União Europeia deve mas é ir para a guerra (contra a Rússia).
            A mim parece-me a atitude do Paulo Sousa a modos que contraditória. Se o Paulo Sousa advoga a guerra, então não deveria andar a elogiar a União Europeia por ter (no passado) mantido a paz.

          4. O seu problema é que vê muito bem o que se passa no seu vizinho, mas desintressa-se do que se passa em sua casa.
            É uma atitude de quem está contente consigo próprio, porque o vizinho está pior.
            Voltando à vaca fria. Estas promessas de adesão lembram-me as que fizeram à Turquia e a maneira como a RDA entrou na UE. Tudo é possível desde que o chefe queira, se não quiser não há.

          5. O seu terá a ver com uma devoção de tal ordem pelo vizinho, vizinho esse que é um primitivo que até come com as mãos, que o consegue aplaudir e ao mesmo tempo criticar o seu chefe de cerimónia por ter trocado o talher de peixe pelo de carne.
            Como lhe disse, ao dizer tais palermices, poupa-se à prisão mas não se poupa ao ridículo.

          6. Faltava cá a alusão: quem não concordea comigo ama o meu inimigo. Pode não gostar da Rússia mas o modo de pensar estalinista agrada-lhe muito.

          7. Essa é mais uma das práticas habituais dos putinistas, que é confundi-lo com a Rússia, o que é acrítico, seguidista e ridículo

      1. Cara pessoa que assina V.,
        O que seria de nós (leitores e comentadores deste espaço) sem essa explicação.
        Só faltou acrescentar que Ray Charles era da etnia afro-georgiana (também foi propositado, uma tentativa de piadola).

        1. Caro Pedro, por acaso antevi que ia responder assim, com a ironia do costume 😉

          Mas porra o Ray Charles era preto? Caraças. Nunca tinha reparado.. Só via um gajo porreiro. 🙂

          Abraço

  2. Por uma questão de “redes” não sei se a Europa, que afinal tem de acabar em algum lado, deve incluir países que não sejam confinem uns com os outros e a Geórgia quebra a integridade territorial europeia e cria grandes vulnerabilidades às invasões em massa do território. Mesmo admitindo que são caucasianos, a Geórgia está entalada entre a Rússia e a Turquia (que não é um país europeu). A Arménia e o Azerbeijão, logo ali ao lado, são países tidos como países asiáticos. Todos esses países são extremamente vulneráveis a migrações em massa.

    A falta de afinidades linguísticas com o indo-europeu (que é a grande família das línguas latinas, germânicas, bálticas e eslavas) também me parece relevante — aliás o mais relevante: essa raíz comum para mim é o melhor critério de definição daquilo que é ou não é Europa.

    Não sei, talvez mude de opinião, mas por agora acho que não é absurdo levantar algumas objecções a uma ideia destas.

      1. Ok.. Eu talvez tentasse argumentar que existe uma continuidade histórica entre o sul de Itália e a Grécia, ou que não é a mesma coisa ter umas 30 milhas náuticas de Mediterrâneo a separar o calcanhar da bota das primeiras ilhas gregas e estar ali encravado nas montanhas entre os russos e os turcos da Anatólia, mas você no papel tem razão.

  3. A União Europeia não defende a Liberdade. Já o demonstrou inúmeras vezes. censura e regulação e mais regulação.
    Draghi até é PM em Itália sem eleições… mas os jornalistas estão todos calados… porque será?
    A única não despiciente diferença é que a Rússia é ainda pior.

    1. A União Europeia não defende a Liberdade. Já o demonstrou inúmeras vezes. censura e regulação e mais regulação.

      Exatamente.

      E isso é em modo regular. Desde que começou a guerra Rússia-Ucrânia está muitíssimo pior. As sanções à Rússia vieram limitar fortissimamente a liberdade económica dos cidadãos e empresas da União Europeia.

        1. O café na func pub é às 10.30 porque ainda têm de ir almoçar e depois um bocadinho antes das 3 têm mesmo de se ir embora: têm imensas coisas para fazer à tarde.

  4. Isso de a União Europeia estar do lado da liberdade tem muito que se lhe diga.
    Como se vê atualmente com as sanções comerciais à Rússia, a União Europeia não está do lado da liberdade coisa nenhuma. A União Europeia restringe fortemente a liberdade económica dos seus cidadãos e empresas.

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