Peixe fresco só no… mercado ou na lota


Teresa Ribeiro,

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Aprendi há pouco tempo um novo cheiro: o cheiro a peixe de hipermercado. Lembrei-me disto a propósito da campanha que tem passado na televisão sobre o “peixe fresco” de uma grande superfície. O peixe de hipermercado tem um cheiro indefinível. Não é a mar (que é ao que cheira o peixe realmente fresco), nem sequer é a peixe (que é ao que cheira o peixe que já não está assim tão fesco).

Se não cheira a podre (já me aconteceu algumas vezes ser enganada pelo brilho das luzes e do gelo e levar para casa peixe que não estava em condições), cheira a… não sei quê. Eu digo que é a “hipermercado” porque, verdade seja dita, não encontro paralelo a este cheiro a não ser noutro hipermercado. Nisto, afianço, há um padrão e que reflecte, como é óbvio, uma forma específica de tratamento da mercadoria.

Ignoro pormenores, mas um dia, quando eu passava pela peixaria de uma grande superfície à hora de chegar o peixe, fez-se alguma luz. Numa azáfama as peixeiras tiravam de caixas vindas de uma câmara frigorífica o “peixe do dia”, em estado de pré-congelado. Percebi então a rotina. Diariamente e até que se venda aquele peixe quase congela em câmaras frigoríficas quando é recolhido à noite e descongela na banca durante as horas de expediente do dia seguinte. Diariamente até ao dia em que for vendido vogará nesta alternância térmica. Não por acaso cada vez são mais os pediatras que recomendam o peixe congelado para consumo das criancinhas por ser um alimento mais seguro. Percebe-se porquê.

A publicidade ao “peixe fresco” das grandes superfícies, diga-se em abono da verdade, é rigorosa. Lá fresquinho é todo ele. Os termómetros não mentem. Quanto à sua frescura, é uma questão de sorte. Se acertou em peixe com pouco tempo de casa, não terá razão de queixa, embora mesmo nestes casos do cheiro a hipermercado não se livra. Cheiro a mar, ou mesmo a peixe, só no mercado ou  na lota.

Será que a ASAE anda em cima disto?

0 comentários em “Peixe fresco só no… mercado ou na lota”

  1. Se não cheira a podre (já me aconteceu algumas vezes ser enganada pelo brilho das luzes e do gelo e levar para casa peixe que não estava em condições)

    O facto de cheirar mal não significa que não esteja em condições.

    Muitos bons queijos cheiram pessimamente.

    Há formas de deterioração da comida que cheiram e/ou sabem mal mas que não têm perigo para a saúde. Por exemplo, uma sopa pode estar azeda, ou um queijo pode estar com bolor, e isso sabe mal mas não faz mal à saúde.

    E mesmo no peixe, eu costumo comprar um, que aprecio muito, chamado “pata roxa”, que cheira bastante mal depois de cozinhado, embora eu o compre fresquíssimo, vindo diretamente de Sesimbra, e embora seja delicioso.

    1. O sr Lavoura, por exemplo, cheira pessimamente. Comparar queijo com peixe fresco só a idiotas (estou a ser delicado) ocorreria.

      1. Deixe lá o “lavoura”… ele só conhece o cheiro a bacalhau e pouco mais, parece que pata roxa também, do grupo dos tubarões…( quando não dá para mais)
        Deve ser um grande peixeiro.

  2. As pessoas das grandes urbes, na sua grande maioria, sabem lá o que é o cheiro a peixe fresco. Sabem lá o que é o sabor de carne fresca.
    São autênticos rebanhos de ovelhas, por onde vai uma vão as outras todas, induzidos por publicidade enganosa que o que é bom está tudo nas grandes superfícies.

  3. Uma realidade mais frequente do que parece que o cliente não tem forma de identificar, a não ser que saiba “ver” o peixe; olho cheio, guelra vermelha, textura elástica e ausência de cheiro a fénico na guelra. Uma das formas reside no conhecimento da rotina do peixe de cada fornecedor; proveniência, trajeto e condições de armazenagem (tempo e temperatura). As etiquetas respectivas ajudam informam alguns detalhes.

    Nem todo o peixe que é descarregado na lota é fresco, nalguns casos podem ter duas semanas de armazenamento em ambiente refrigerado. Segue-se todo o processo de manuseamento para venda em lota que se processa, anacronicamente, à temperatura ambiente normal, o transporte para os armazéns grossistas que o gelam e armazenam e o transporte para o retalhista que deve manter as condições de armazenagem adequadas até final da validade.

    O peixe nos híperes é sempre apresentado com gelo abundante – geralmente há máquina de gelo disponível -, mas pode ter havido falta no processo. Por outro lado, quando a temperatura de armazenagem na câmara frigorífica é inapropriadamente baixa – inferior a -1ºC – ocorrerá o congelamento superficial e lento do peixe, do qual resultarão danos nas membranas celulares, com perdas dos fluidos orgânicos e de textura (tende a ficar mole e a perder sabor).

    Quanto a mim, peixe fresco, refrigerado, nunca com mais de uma semana desde a captura, mantido continuamente refrigerado com gelo de água doce e quando em câmara frigorífica ou expositor ventilado, nunca abaixo dos -1ºC e 85 a 90 % de humidade relativa (e de preferência com evaporadores estáticos ou de baixa velocidade de ar).

    Portanto, quanto a mim, Mercados Municipais – devidamente apetrechados, por muitas e variadas razões -, sim, híperes, não. Peixinho da n/costa – o melhor do mundo -, de preferência de pesca artesanal ou semi-industrial local sim, peixe importado não.

    Saber observar os produtos alimentares é uma necessidade quase geral. Umas campanhas de TV de 5 minutos cada, ajudavam e seria benéfico para todos.

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