Pedir desculpas pelo passado nacional


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Há pouco mais de uma década o Presidente Cavaco Silva realizou uma visita de Estado a Moçambique. Como é prática nessas ocasiões fez-se acompanhar por uma alargada comitiva: políticos, empresários, quadros da administração pública, agentes de produção cultural. No vasto programa constava um colóquio na universidade na qual eu trabalhava, dedicado à importância da língua portuguesa, o qual contou com a participação de destacados intelectuais moçambicanos (alguns dos quais foram então condecorados) e portugueses. 

A actividade decorreu na ampla sala do centro cultural universitário, um antigo cine-teatro com largas centenas de lugares. Os professores haviam sido convidados, os alunos mobilizados, a sala estava apinhada. Eu sentei-me bem lá no fundo, para fruir descansadamente o meu uniforme de “jeans” puídos e polo desbotado. Um dos painéis constava de alocuções de escritores consagrados, locais e portugueses – estes ali pois inseridos na comitiva oficial da visita de Estado. E assim, porque isso aceitando e liberdades criativas à parte, surgiam assumindo um difuso papel de representantes da sua área laboral, por episódico que fosse esse seu encargo.

 

Chegada a sua vez de dissertar, um desses consagrados escritores pátrios anunciou à audiência o seu agrado por estar em África. Pois, detalhou, sendo ele um escritor que no seu labor muito aprecia romper com as regras da língua estava entusiasmado por se encontrar entre africanos, e na terra destes, pois as suas línguas estão desprovidas de regras. Uma condição virtuosa, deixou explícito. E continuou naquilo que tinha para dizer, ao que se lhe sucederam as arengas de outros participantes. Terminado o ror de comunicações abriu-se o consuetudinário “espaço de diálogo”, dedicado às perguntas oriundas da plebeia assistência. Instalou-se o tradicional silêncio, dada a provável exaustão dos seniores presentes e a timidez, até receosa, dos juniores diante de tamanhos protocolos ali patenteados.

Por isso, lá bem do fundo da sala e qual navio quebra-gelo, como se costumam auto-justificar os primeiros intervenientes destas ocasiões aquando das suas pálidas perguntas, aproveitei a ocasião. É que na sala estavam vários feixes de jovens que já me haviam sofrido como docente o que me fez sentir, talvez estuporadamente, alguma responsabilidade, uma espécie de fervor deontológico, por assim dizer… E resmunguei qualquer coisa como, caramba, aparecer alguém em XXI a clamar que as línguas africanas não têm regras gramaticais é de bradar aos céus, será um apogeu da incultura em qualquer um mas inadmissível em que tem por trabalho a… escrita e a leitura.

Depois aconteceu um inexistente debate, brevíssimo como é sua natureza quando assim. Ao qual, para gáudio de todos, se sucedeu um aprazível beberete, juntando alunos, professores e convidados. Como sempre mergulhei, com a convicção da militância, no universo dos canapés, de chamuças e adjacentes fornido. Logo um ou dois compatriotas residentes me abordaram num até enfastiado “ó Zé Teixeira, também não precisavas de ter dito aquilo, cai mal numa sessão destas...”, respondendo-lhes eu, com a massa crocante escapando-se-me entredentes, já beiços abaixo, “o homem está aqui em representação, nossa mesmo…“, “não vou deixar que os alunos acreditem em tal coisa ou, pior, que os portugueses pensam assim…“. Deste modo arisco escapado à sanção comunitária avancei em busca de quem me trocasse o vinho branco, acídulo em demasia, por uma singela 2M ou mesmo, utopia, um gin tónico. Para ser interrompido por três ou quatro colegas moçambicanos, cada um deles num “ainda bem que disseste algo, eu não ia dizer nada dado o contexto“, do cerimonioso que era o dia. Enfim, escorropichado o tal vinho, talvez até a posterior cerveja se entretanto alcançada, que a tanto não me chega a memória, regressei ao lar ainda conjugal. Para ouvir um sorridente, mas talvez já então desalentado, “já sei que estiveste a desatinar“…

Vem-me esta recordação agora quando, uma década escorrida, vejo um tipo que aquando quarentão pensava com tamanho défice sobre o real circundante, e África em particular,  a surgir na capa das revistas generalistas entoando o trinado da moda, o pimba do “Desculpa África” em ritmo extended version, meneando-se ao que julga ser o agrado da plateia. Deixemo-nos de coisas, pode ser que seja um bom ficcionista, não sei, nunca o li. Mas se assim for este é mesmo um caso de “quem te manda a ti, rabequista, remendar sapatos”. Ou não o é (repito, não sei, nunca o li). E então será caso de usar o dito original… Enfim, o homem que conte as histórias que tem para contar, que é tarefa mais do que digna. E deixe-se de querer ser intelectual maître à penser, que não tem arcaboiço para tal.

Não me alongarei – mais uma vez – sobre esta gemebunda “desculpabilização” tão em moda entre tantos. Apenas repito o que ciclicamente vou metendo sobre estas pobres mentes de atrevidas gentes: 

“… a disposição mental que leva ao conto de fadas é a da moral ingénua, isto é, a moral que se exerce sobre os acontecimentos e não sobre os comportamentos, a moral que sofre e rejeita a injustiça dos factos, a tragicidade da vida, e constrói um universo em que a cada injustiça corresponde uma reparação.” (Italo Calvino, Sobre o Conto de Fadas, Teorema, p. 100).

 

 

30 comentários em “Pedir desculpas pelo passado nacional”

  1. Há dias li essa do Valter Hugo, e pensei para comigo: coitado, mais um escritor a pretender aceder ao estatuto de intelectual.
    Mas Portugal de Abril tem de pedir desculpa aos africanos negros e brancos que ali residiam e aos que ainda residem por lhes ter negado o direito a uma independência decorosa que mereciam e por ter entregue também esses países africanos nas mãos de indecorosos colonialistas, ainda que pretos, que hipotecaram a soberania das nações e ofereceram a miséria aos povos africanos.

      1. Como grande intelectual que sou, contra o colonialismo instalado em África e Portugal pós 25 de Abril, desconheço o significado da palavra renhanha. Poderá ser mais uma palavra que está aí para aumentar a colonização da pátria portuguesa.

          1. Como grande intelectual que sou, de ouvido limpo, desconheço os fonemas ou palavras que essa figura de linguagem diz reproduzir.
            Provavelmente é a reprodução do som que dirá respeito a um objecto colonialista que entrou sem visto na nação.

          2. Desconheço a alfândega a que alude pelo que me eximo a elaborar sobre a sua hipotética porosidade

  2. Se ele não dissesse aquela frase o seu nome teria aparecido na capa da revista?
    Claro que não.
    Não é só moda é também o “sistema” de recompensa e punição do jornalismo neo-Marxista.
    Para as pessoas se promoverem têm de dizer aquilo com que os jornalistas concordam.

  3. Chamar escritor a Valter Hugo Mãe é um exagero, não?
    Lá porque escreve umas coisas e publica uns livros não que dizer que seja um escritor.
    Da mesma forma eu, também, faço umas habilidades com a bola tenho um remate forte mas não sou um jogador de futebol.

    1. Repito: nunca li o autor, não o digo em registo blasé, pura e simplesmente nunca o li. Nunca o havia lido, perdi qualquer curiosidade após este episódio. Como tal recuso-me mesmo a opinar sobre a sua qualidade de escritor – detesto aqueles parvos, viçosos na direita blogal que ascendeu ao comentariado na imprensa, que botavam sobre Saramago e outros: “nunca li, não gosto”. São umas bestas, a “lisboa” de merda que grassa por aí. Agora: este autor é um escritor. É ficcionista, escreve, publica, é lido, é entendido como escritor pelo “campo literário”, criticado, recenseado. Ou seja, e não estou a ser minimmente irónico, o homem é um escritor. Se é bom ou mau ou mediano é outra coisa, outro assunto. A cada leitor a sua sentença. Eu continuarei a passar ao lado, a não ser que alguém que muito preze me recomende algum dos seus livros. Mas ainda não aconteceu.

  4. Quando é que o 25 de Abril vai pedir desculpa?

    De uma Ditadura nasceram 6 Ditaduras(Angola. Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Principe e Timor Leste(ocupado)) + uma democracia controlada.
    Mais de 1 milhão de pessoas morreram porque boa parte dos que fizeram o 25 de Abril queriam a ditadura substítuida por outras ditaduras. Isto em pleno século XX. Não estamos falar do século XV…
    Desse 1 milhão de pessoas mortas em guerras civis boa parte tinham sido portugueses.

    1. ‘…boa parte tinham sido portugueses’ ?
      O que quer dizer com ‘boa parte’ quer dizer a outra parte a má/menor/pequena parte não tinham sido portugueses?
      Julgo não estar a incluir nessa pequena parte cubanos, russos, sul-africanos e mercenários diversos, quem tinham sido então?

      1. Também houve que pessoas que morreram nas guerras civis e nasceram depois das independências, logo nunca poderiam ter sido portugueses.

        O “boa parte” quer dizer significativa quantidade.

        1. Faz uma ideia, não contando com os colonos e seus descendentes, digo colonos por ter sido assim que nos anos 50’s muitos partiram para Angola, p.ex., ou os comerciantes europeus já lá estabelecidos há décadas, quantos nativos tinham documento de identificação de cidadão português, mesmo os já inseridos pelo estatuto de indigenato? Faz uma ideia quer em Angola, Moçambique e Guiné?

          1. Não sei. No censos de 1970 existiam 15 milhões de pessoas nas colónias, deveriam ser algumas centenas de milhar. O estatuto do indigenato acabou ainda em ditadura com Adriano Moreira.

  5. Valter Hugo Mãe é, assumo por inteiro, uma embirração minha absolutamente gratuita – pois nunca li uma linha sua, nem sequer o prefácio que escreveu para um livro da Cristina Ferreira. O Valter é alguém cuja carreira tento seguir de perto – para evitar cruzar-me com ela. Acho-o um apatetado com bastante talento para a autopromoção.

    Em 2013, disse ele numa entrevista ao DN: “Afinal, o sexo do homem é muito mais honesto, visível e mais facilmente lavável, enquanto o das mulheres é mais sinistro”. Valter Hugo Mãe parece ser como os marinheiros antigos que viam adamastores naquilo que desconheciam.

    1. O autor deve ter vindo a produzir textos ou declarações irritantes, pois vejo muita gente a resmungar com ele. De facto não acompanho – e como digo em comentário acima, decerto que influenciado pelo episódio que aqui recordo pois, honestamente, raramente vi tamanha estupidez ignorante à solta. Também é certo que vivi muitos anos fora e que sou pouco dado à ficção portuguesa contemporânea…

      Quanto ao que refere sobre o autor tenho que sublinhar que não quero seguir a velha discriminação e como tal não quero criticar o apego peniano do escritor que deixa transparecer um certo afã sodomita. Pois cada um como qual, vive e deixa viver, é o lema seguido…

        1. É possível, Anonimus. Insisto no que já acima disse, não estou minimamente a ser blasé quando afirmo nunca o ter lido. Tenho um evitamento face ao que vai botando – e estou consciente por esta minha irritação já longínqua. Vi agora a capa e – dado que o título convoca o rame-rame que por aqui vai – fui ver o que dizia. Mais do mesmo, não tanto “polémica” mas apenas um seguir na onda do momento.

  6. Novamente, imensa dificuldade em localiza a cacha.
    Rendeiro, uma senhora nómada… só depois apontei para o Mãe.
    Não sei, nunca li, quero lá saber o que diz ou pensa. Também há muito deixei de ler a Visão.

  7. Já agora, se o senhor quiser pedir desculpa, faça favor. A África (à dita negra, mas também à magrebe), à América do Sul (também por lá andámos a gamar o ouro, se bem que eles não lhe davam uso, e a fazer mestiças), à Índia em particular, à Ásia em geral, aos Turcos Otomanos, aos ciganos e judeus, e por que não, às mulheres, aos deficientes, às crianças, aos velhos, aos animais e aos pinhais que abatemos para fazer caravelas.

    1. Sim, o PAN é que também devia tomar parte neste esforço por nos desculparmos, tamanha a razia em árvores que as malvadas artes de marinharia nos provocaram

    1. Não se incomode, quando chegar o momento algum porta-voz falará por si e por todos nós. Bastará ser difícil passar o orçamento do ano.

  8. Em relação a “aparecer alguém em XXI a clamar que as línguas africanas não têm regras gramaticais é de bradar aos céus” eu diria mesmo mais: “aparecer alguém a clamar que existem línguas sem regras gramaticais é de bradar aos céus”, é o embasbacamento pelo que se considera uma “transgressão” quando não passa de um oxímoro.

    1. Nem mais, caro jj.amarante. Mas há um pormaior adjacente, é que a crença de que as línguas africanas estavam desprovidas de regras (ou delas deficitárias) – e que seriam até por isso meros “dialectos” (distinção que muito perdurou e ainda perdura no falar deseducado) – nisso acompanhando uma inferior racionalidade dos seus falantes assim submetidos a um mero linguajar, foi um tópico que ultrapassou a abordagem linguística. Ou seja, andavam há largas décadas os especialistas (logo de início os missionários) a sistematizarem as regras (e muitas vezes nisso também criando línguas diferentes em contextos linguísticos muito semelhantes) e mantinha-se essa crença desvalorizadora das línguas e mentes dos negros. Isso ainda mais me chocou quando já tantas décadas passadas sobre essa crendice me aparece um escritor – e com prosápias a intelectual público – a botar coisa como esta.

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