Pausa à mesa do póquer


Pedro Correia,

 

Imaginem uma mesa onde se joga póquer. À volta da mesa, quatro cadeiras. Nessas cadeiras estão sentados quatro homens: Aníbal, António, Paulo e Pedro. Cada qual fazendo bluff, temendo as cartas que os restantes possam lançar.

A política portuguesa, por estes dias, transformou-se nisto. Há um país inseguro, que sustém a respiração, suspenso destas cartadas. Um país sob intervenção externa, que há mais de dois anos perdeu a soberania financeira, aguarda que naquela mesa termine o jogo. Sem a mais remota esperança que daqui resulte uma solução mais sólida e mais estável.

 

Passaram apenas duas semanas desde que foi tornada pública a demissão de Vítor Gaspar, acompanhada de uma carta que constitui um notável contributo para a antologia do humor negro na política portuguesa. “Os riscos e desafios do próximo tempo são enormes. Exigem a coesão do Governo. É minha firme convicção que a minha saída contribuirá para reforçar a sua liderança e a coesão da equipa governativa”, dizia o ex-titular das finanças nessa missiva supostamente dirigida ao primeiro-ministro mas tendo afinal por destinatários dez milhões de portugueses, inaugurando o estilo “carta aberta” no exercício da governação.

Quinze dias depois, tudo parece ter regressado aos penosos dias do pântano – num teste quase desesperado à liderança e à coesão, palavras habitualmente invocadas na razão inversa da sua existência, como Gaspar bem sabia quando as colocou na sua carta que abriu oficialmente a saison de crises políticas.

Não admira, por isso, que um dos quatro opte por uma pausa no mais remoto e desabitado recanto do território português. Perfeita antítese da atribulada política portuguesa por estes dias, o plácido arquipélago das Selvagens. Com apenas quatro habitantes e banhado pelas águas mais limpas do mundo, como as classificou o oceanógrafo Jacques-Yves Cousteau.

 

A Bolse treme, levando Lisboa ao terceiro pior desempenho do mundo? Os juros disparam? Há novos pedidos de demissão na equipa das finanças? Chovem acusações de que se pretende “institucionalizar o caos”? Nada que o som das cagarras não dissipe enquanto se contempla o vasto Atlântico que inspirou os navegadores das naus de Quinhentos.

Talvez elas nos tragam notícias do eclipsado Gaspar, o ex-ministro em quem o chefe do Governo costumava “confiar plenamente” em dias que parecem já muito distantes. Talvez elas contribuam para atenuar o choque das contínuas surpresas em que se transformou a montanha russa da política nacional. Talvez elas ajudem a revigorar o supremo árbitro do sistema, mais eloquente nos longos períodos de silêncio do que no esporádico uso da palavra.

Ou talvez não.

 

14 comentários em “Pausa à mesa do póquer”

  1. Quando escutava o célebre discurso sobre as grandes reformas do estado aquilo que me vinha à ideia era uma letra, sim, um título de dívida que compromete devedor à liquidação da mesma, mesmo que para isso a tenha que reformar consecutivamente e, lá está, com os consequentes pagamentos dos juros vencidos e vincendos. Só que este título, como sabem os que sabem, em caso de não pagamento ou reforma, também compromete o credor, quer este tenha o título em carteira quer tenha levado ao banco para desconto.
    Aqui chegados, saibamos que as reformas vigoraram, mas parece que a partir de agora ficam todos a berrar; sacador e sacado já não têm mais por onde sacar.
    Será que o Presidente ainda não viu que a existir acordo d salvação o mesmo só pode ser estabelecido entre credor e devedor?
    A única política de salvação nacional é esta, tudo o resto é andar a brincar aos médicos e aos doentes.

  2. Embora muito remotas e desabitadas, as Selvagens têm grande importância para Portugal, pois permitem ampliar consideravelmente a Zona Económica Exclusiva marítima, em detrimento da Espanha (e, em menor grau, de Marrocos). Por essa razão, a Espanha continuamente procura tomar conta delas (mais ou menos como a China e o Japão com as ilhas Diaoyu). E também por essa razão, já foram visitadas por dois anteriores Presidentes da República. Pelo que, esta visita de Cavaco reveste-se de certa importância. Talvez mais importância prática e económica, de facto, do que o jogo de póquer.

    1. Fez bem em referir isso, mas a importância estratégica desse pequeno arquipélago tão pouco conhecido dos portugueses não oferece a menor discussão. Questiona-se apenas o critério de oportunidade. Apenas esse. Que, em tempo de grave crise política, é de levar em conta.

  3. Acabei de reler a famosa carta de Gaspar à luz de uma coisa que ignorava (e porque será que me/nos mantiveram na ignorância?): que uma maioria de 2/3 do Parlamento permite passar qualquer medida, mesmo considerada inconstitucional. De facto, os destinatários da missiva são 10 milhões de portugueses, que só daqui a um bom par de anos ficará a saber quem fez o quê, como e quando.
    Tem alguma dúvida sobre o fim do jogo? Eu não. Trata-se de um pequeno interlúdio lúdico, a feijões. A realidade segue dentro de momentos, com dinheiro à séria em cima da mesa.

      1. Trufas? O porker? Não!
        Esta modalidade é: “Telhas… segura-as”!

        O que pode estar do outro lado?
        Só um poker de novenas, pois ali o straight flush está fora de questão, e os ases estão deste lado.
        Contra as novenas, os ases nem precisam ajoelhar.
        As coisas seriam diferentes se houvessem três paus seguidos… assim, vai ser desfrutar e recolher fichas.

          1. Pois, os paus estão lá… mas não têm os valores certos.
            “A 9 2” não permite nenhuma sequência… será um simples flush, o bluff foi descoberto.

  4. Eu acho que isto agora vai. Ouvi que o PCP propôs reuniões com Os Verdes e com a Intervenção Democrática. Caso sejam aceites os convites (a minha maior dúvida), a coisa promete e vai ver-se luz.

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