O próximo discurso de Cavaco.


Luís Menezes Leitão,

 

Portugueses:

 

Como sabem, desloquei-me para as Ilhas Selvagens, a cerca de 1000 km do epicentro da crise política que surpreendentemente atingiu o nosso país e que o meu anterior discurso estranhamente até veio agravar.

 

Só posso concluir que os actuais líderes partidários, os que estão e os que aspiram a ser governo, não estão à altura da gravíssima situação que o país atravessa. Na verdade, apesar de ter apelado à concórdia, harmonia e boa vontade dos dirigentes partidários para subscreverem de cruz tudo o que a troika impuser, só tenho assistido a divergências e quezílias. Os portugueses ignoram o que se passa nessas reuniões entre os três partidos porque as mesmas têm decorrido à porta fechada, mas o David Justino, meu observador, tem-me feito um relato que é de pôr os cabelos em pé. O homem é obrigado a tomar calmantes depois de cada reunião e receio que daqui a pouco peça a demissão. E eu ficarei sem nenhuma personalidade de prestígio para facilitador do diálogo entre os partidos.

 

Só encontrei por isso uma solução para o nosso país. Como os nossos políticos são uns verdadeiros selvagens, o único sítio adequado para eu exercer a Presidência é nas Ilhas Selvagens. Começarei por dormir lá na quinta-feira, dia da moção de censura de Os Verdes, não vá dar-se o caso de a moção ser aprovada e o governo que eu declarei na plenitude de funções vir a ser demitido por um parlamento irresponsável. Teria naturalmente que a seguir dissolver o parlamento, mas a confusão que se geraria não torna aconselhável a minha presença no continente.

 

Aqui nas Selvagens poderei ponderar a melhor forma de resolver a crise política. Aos políticos do continente prefiro a companhia das cagarras, dos calcamares, dos roques-de-castro, das almas-negras, dos pintainhos, dos corre-caminhos e dos francelhos. E se os políticos profissionais, essa gente horrível, continuarem a aborrecer-me com estas iniciativas e a incapacidade de se entenderem encontrarei provavelmente uma solução no actual quadro constitucional: nomeio primeiro-ministro o faroleiro das Selvagens. Afinal de contas só é preciso alguém que subscreva o novo memorando com a troika. E se o país já teve um governo na Ilha Terceira, onde Mouzinho da Silveira fez importantíssimas reformas, porque não governá-lo a partir das Selvagens?

6 comentários em “O próximo discurso de Cavaco.”

    1. Roendo uns laranjas na falésia,
      Olhando a Europa azul à minha frente,
      Ouvindo um rouxinol na incerteza,
      No calmo improviso do doente.

      Em baixo povos trémulos nas tendas,
      Off shore, as águias brilham as pratas,
      E a Brisa vai contando velhas rendas,
      De porcos e baías de piratas.

      Havia uns granadeiros na ilha…

  1. TVS — Telejornal
    “Boa note
    Caros selvajanos e selvajanas, atendendo a que os partidos do “contenente” não se entendem, declaro solenemente a independência da Republica da Selvajaria”…

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