Um dos erros mais frequentes e mais graves de qualquer político é a perda de contacto com a realidade. O governo de Passos Coelho foi dando alguns sinais preocupantes a esse nível. O discurso da emigração ou da pieguice foram manifestações que indiciaram algum isolamento e falta, pelo menos, de sensibilidade perante as situações aflitivas que muitos portugueses enfrentam. Por isso, a imagem de um primeiro-ministro que não teme as manifestações de descontentamento, que não ilude o contacto pessoal com os manifestantes e que, apesar da hostilidade latente, insiste em falar com eles, ouve-os e procura transmitir-lhes a sua visão das dificuldades e dos caminhos constitui uma boa notícia. Claro que não faltarão aqueles que procurarão salientar que a atitude de Passos Coelho não é mais do que uma operação de marketing e que este apenas aproveitou uma oportunidade para promover a sua imagem pessoal. Talvez seja assim. Mas, o certo é que outros tiveram essa possibilidade e não tiveram a dose de coragem pessoal e de humildade necessária para estar no meio de manifestações desse tipo. E, já agora, fosse qual fosse a motivação, o certo é que pareceu um acto genuíno que ficou muito bem ao primeiro-ministro.
Passos seguro em Gouveia
Rui Rocha,

Não sabemos o que lhe ía na alma, nem isso interessa para o caso. Nem tão pouco estamos a equacionar as alternativas, caso as houvesse.
O cerne da questão, aquilo que faz as pessoas manifestar-se, é o descontentamento… o múltiplo descontentamento, não somente com o conselho aos jovens desempregados, nem com o deslise da pieguice, nem sequer com a anulação de feriados e de tolerâncias de ponto; essas então, ainda menos. o Cerne da questão prende-se com tecnocracia, em lugar de democracia, com engenharias financeiras, em lugar de ideologias sociais e humanas.
Não sabemos se o Passos esteve seguro em Gouveia, se fêz das tripas-coração para parecer. Não sabemos se lhe garantiram que podia dar uma de destemido, porque estava tudo sob control, não sabemos se teve de trocar de calças quando chegou a casa. Aquilo que sabemos é que a política para a recuperação económica do nosso país está a ser mal conduzida e que as medidas que este governo tem tomado, não têm resolvido os grandes problemas de desemprego e de falência das empresas.
Vejo que não dá a Passos o benefício da dívida, Bartolomeu.
Preferia encontrar motivos sólidos, para lhe dar a Passos, o meu voto nas próximas eleições, Rui Rocha.
É uma posição prudente, Bartolomeu.
Tanto Passos como os manifestantes actuaram para aqueles que tudo vêem, vulgo, TV. Sem a cobertura dos media os manifestantes seriam menos e mais silenciosos e Passos tê-los-ia ignorado.
Não excluo essa possibilidade, Fernando.
Concordo, mas temo a instrumentalização mediática de tais manifestações. Às vezes a turba não é espontânea e muito menos cega.
Certo, Paulo. Para além do mais, isto é uma coisa que se faz uma vez. E depois outra. Mas, Passos não pode dirigir-se aos manifestantes em todas as manifestações. Em todo o caso, de momento, esteve bem.
Temos homem! Pelo menos comparando com os seus semelhantes já sai a ganhar. É raro ver um político na sua posição, com a fase que o país atravessa, não ter medo de dar a cara e dialogar com as pessoas.
Ainda há pouco tempo vimos a atitude contrária. E Sócrates saía sempre pela porta do cavalo.
Passos Coelho é bipolar: Há dias em que está bem, há dias em que está mal.
Mas eu não confio nele: é muito imprevisível (o que não é bom para um Primeiro) assim como não sabe gerir as expectativas.
Uma das grandes vantagens de Passos Coelho é ter sido precedido por Sócrates. Corre sempre o risco de ganhar na comparação.
Mas tens de concordar que a popularidade de Passos foi abaixo em menos tempo que a de Sócrates.
E por mais defeitos que Sócrates possa ter, como por exemplo, vir-lhe com facilidade a mostarda ao nariz no parlamento e em reuniões … era e é um político profissional que sabe gerir as expectativas.
Quero ver o que lhe acontece se Vítor Gaspar se fartar de estar no governo!