«E era com grande poder que os Apóstolos davam testemunho da Ressurreição do Senhor Jesus, gozando todos de grande simpatia. Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um, conforme a necessidade que tivesse.» (Actos dos Apóstolos, 4: 34-35)
O dia que hoje celebramos no mundo de matriz cristã tem um significado que ultrapassa a letra da liturgia, podendo ser assimilado por todos os seres humanos de boa vontade. Simboliza desde logo a supremacia absoluta da espiritualidade sobre o materialismo. Simboliza o resgate de todos os injustiçados à face da terra – aqueles que, como Jesus, também sobrevivem à traição, à calúnia, à humilhação e à tortura. Simboliza enfim o triunfo dos justos contra a iniquidade política (personificada em Pôncio Pilatos, que sabia estar a permitir a condenação de um inocente) ou religiosa (personificada em Caifás, sumo sacerdote da Judeia). Cristo, ao transcender o plano da morte física após sucumbir sob intenso sofrimento, demonstra que todos os filhos de Deus são revestidos da mesma dignidade essencial. “Nenhum poder terias sobre mim se do Alto te não fosse dado”, diz a um perplexo Pilatos, segundo relata o Evangelho de João.
O cristianismo, para não trair a sua raiz nem o seu destino, jamais deve omitir a face humana de Jesus, que nasce numa gruta obscura e morre crucificado entre dois salteadores. Alheado de toda a glória mundana, despojado de todos os bens terrenos, proclama para a eternidade que nem a morte é capaz de travar a indomável essência do espírito.
Reflexão para esta Páscoa. Reflexão para qualquer Páscoa que vier.
Texto reeditado
Quadro: Ressurreição, de Marc Chagall (1937)


Belos post, mesmo para um ateu.
Feliz Páscoa
Obrigado, caro Ricardo. Para si também.
Um belíssimo post , que o será mesmo para os não crentes ou os pouco crentes , como frisa o comentador anterior.
Nestas coisas da blogosfera como em tudo na vida vamos separando as companhias de que não prescindimos de todas as outras , mais pela inteligência e sensibilidade da análise do que por concordarmos muito , pouco ou nada com o texto .
E também vamos vendo quem se preocupa em manter um diálogo sério com todos os seus leitores , mesmo quando estes nem sempre o são .
Assim cansei-me dos derrotistas permanentes e daqueles que , sob a capa das boas intenções , defendem corporativismos ou ideologias cegas , “pão nosso de cada dia” nestes tempos .
E aos 66 anos estou farto de “velhos” , em especial dos que já o são aos 30 ou 40 anos , sempre a chorarem-se e com medo da vida , as mais das vezes sem grande razão para isso pois os que têem mesmo razões não têem tempo para se andarem a chorar pelos blogs .
Cada minuto que se perde a lamentar uma situação é um minuto que se perde a tentar resolver as suas consequências .
Mas é grande parte da nossa “alma fadista” .
Uma Boa Páscoa também para si , respondo-lhe aqui aos seus votos noutro local do DO.
Obrigado pelas suas palavras que muito me sensibilizaram. Também eu penso que “nestas coisas da blogosfera como em tudo na vida vamos separando as companhias de que não prescindimos de todas as outras, mais pela inteligência e sensibilidade da análise do que por concordarmos muito, pouco ou nada”.
É verdade, Pedro, é bem verdade. Mas, os apóstolos, davam mais que o testemunho da Ressurreição de Jesus, eles testemunhavam a sua propria ressurreição agindo como agiam.
Num momento em que o cristianismo dá provas de uma absurda estratificação – por hábito, afirmo que agora já não temos padres, ou apostólos, ou discípulos, temos antes cónegos, monsenhores, bispos e cardeais -, vem o Papa Francisco e começa a dar a volta a estas Pedras. Pedras estas que por ignorância, indiferença e comodismo pouco sabem sobre o que significa “toma a tua cruz e segue-me”. Tomar a Cruz, a verdadeira Cruz, é tomar doses de Amor que, traduzido para o “vernáculo”, significa serviço; e se neste serviço o sofrimento cair sobre cada um de nós, então, é um sofrimento com sentido. Todavia, o sofrimento consentido e propagado tem sido aquele que não tem sentido nenhum, ou seja, o que escraviza, adormece e entorpece o sentido da existência, porque tranca Deus na lei e no templo e não transforma o Homem em templo e Lei de Deus.
Obrigado por seu texto.
Obrigado eu. Não faço ideia quem seja, mas sensibilizaram-me as suas palavras e revejo-me na reflexão que aqui deixou.