Insuspeito de me identificar com o PCP, devo no entanto prestar homenagem aos comunistas: só eles reagiram ao facto de o Fundo Monetário Internacional ter elaborado um relatório sobre Portugal que chegou ao nosso País sem uma tradução em português. Como se fizesse parte dos deveres constitucionais cá da pátria dominar o idioma do Tio Sam. “Os deputados da República [Portuguesa] têm como língua de trabalho o português”, declarou o comunista Manuel Tiago na Assembleia da República, lembrando o óbvio, que por vezes parece esquecido. Poderia ter até acrescentado que o artigo 11º, nº 3, da nossa lei fundamental especifica que “a língua oficial é o Português”. Porque um país como o nosso, com uma identidade cultural sedimentada há nove séculos, não pode ser confundido com uma empresa exportadora ou uma companhia aérea.
Acresce a isto o facto de Portugal ser desde 1960 membro do FMI e seu contribuinte líquido, o que bastaria para exigirmos ser tratados com a devida consideração.

Ao Memorando de Entendimento aconteceu o mesmo durante semanas. Foi o semanário Expresso que procedeu à tradução, que só muito posteriormente apareceu num site do governo, encabeçado pela seguinte Nota: O idioma da versão original e oficial do Memorando em referência é o inglês. A presente
versão em português corresponde a uma tradução do documento original e é da exclusiva
responsabilidade do Governo português. Em caso de eventual divergência entre a versão inglesa
e a portuguesa, prevalece a versão inglesa.
Isso não é verdade. O Memorando foi traduzido pelo Aventar. a-troika-em-portugues/
http://aventar.eu/2011/05/04/memorando-d
Depois de Sócrates ser confrontado na TV (penso que pela Judite de Sousa) com esse facto, lá mandaram fazer uma tradução oficial.
A atitude dos jornais tem sido óbvia: não lhes interessa que haja traduções, porque quem não domina a língua inglesa compra jornais para saber o que lá está escrito.
Tem razão. O que na realidade aconteceu foi que o Expresso publicou o Memorando de Entendimento antes mesmo de ter sido dado ao país conhecimento do dito.
Mas é verdade que durante semanas não houve tradução oficial do documento e que só ao fim de muitos protestos ela apareceu.
http://expresso.sapo.pt/expresso-revela-d ocumentos-com-programa-do-fmibcece=f6468 42
Ohhh… eles até dão o cu, se lho pedirem, quanto mais a lingua…
Sem dúvida. Mais um insulto que todos aqueles idiotas engoliram sem pestanejar.
Chegaram a fazer alguma tradução legal do MoU?
Demorou semanas – e só após inúmeros protestos. Já depois de o blogue Aventar ter prestado esse serviço público aos portugueses.
Se bem me lembro, já foi o caso do Memorando de Entendimento.
E lembra bem, Isabel.
Se me permite acrescentar, acho que o desrespeito é mais vasto do que o referido.
Os funcionários do FMI devem ter feito o documento em inglês porque assim deveria estar estabelecido na encomenda. O grave é que quem lhes encomendou não tenha tido o discernimento de encomendar uma versão em português ou tenha permitido que a divulgação e discussão se faça em torno de um documento noutra língua que não a nossa. E que um Secretário de Estado tenha feito uma conferência de imprensa sobre um documento em inglês. E que a Comissão Europeia se arrogue o direito de querer que uma análise, discussão e aprovação de medidas que viram o País de pernas para o ar se façam em menos de dois meses. E que o Governo deste País aceite tudo como bom e queira pôr em prática reformas do Estado desta magnitude sem que se conheçam os pressupostos, a validade dos dados ou dos cálculos.
Tudo isto é desonroso para os portugueses. Estamos a ser tratados como acéfalos, como gente sem vontade e sem quaisquer direitos.
Uma tristeza o estado a que isto chegou.
Por isso acho (e escrevi isso lá no meu canto) que a única atitude digna é toda a gente recusar-se a falar com o Governo sobre aquele documento.
Cresçam, aprendam, cultivem-se, sejam homenzinhos e depois, então, apareçam. Agora vão chatear outros.
Muito bem.
Dentro de poucas horas haverá uma primeira versão do documento traduzido. Em apenas um dia algumas dezenas de voluntários deram uma grande lição de cidadania, a quem precisa de a receber.
Uma lição de cidadania, sim. Parabéns – uma vez mais – pela vossa iniciativa.
Não inventámos a roda, mas desconfio que a partir de agora situações destas não se voltam a repetir: é possível traduzir em poucas horas todos os documentos que nos dizem respeito, a nós portugueses.
A menos que comecem a aparecer em mandarim, sempre demoraria mais uns dias, mas consegue-se.
Claro que sim, tudo se consegue. Também acho que não voltará a acontecer. Cidadania é mesmo isto: não nos limitarmos ao resmungo, nem à conversa de café, e mostrarmos – aos políticos, às instituições, ao Estado, a nós mesmos – que é sempre possível fazer melhor.
O caso é que se perdeu o mais elementar sentido de dignidade. Não se quer saber, não se ensina e amesquinha-se por intolerante e retrógrado quem reclame destes desaforos.
Respeito ao deputado Miguel Tiago por esta e mais algumas acções de atalhar à leviana falta de respeito com a cultura dos portugueses.
Cumpts.
E o mais espantoso é que na elaboração do relatório participaram técnicos do FMI que dominam bem a língua portuguesa. Um deles, pelo menos, é português – filho de um ex-ministro das Finanças.
‘A língua inglesa fica sempre bem e nunca atraiçoa ninguém’ julgam eles.
By Jove!
Lá no meu estaminé, no Fio de prumo, também já me tinha revoltado contra esse hábito de os estudos não serem, pelo menos bilingues.
Mas compreende-se a intenção:aquilo é para as elites que falam melhor inglês do que português…
Já dizia o Eça, cara Helena, que o problema de Portugal são certas “elites”.
FMI … ” It’s too many years turning chickens “
Excelente inglês técnico.
É inqualificável, fizeste muito bem em salientar aqui este absurdo. Honra seja feita aos comunistas, que não o deixaram passar no parlamento sem um reparo.
Só estou em desacordo contigo num ponto: o contribuinte português já não é líquido, infelizmente é cada vez mais gasoso.