Pardon my portuguese


Pedro Correia,

Insuspeito de me identificar com o PCP, devo no entanto prestar homenagem aos comunistas: só eles reagiram ao facto de o Fundo Monetário Internacional ter elaborado um relatório sobre Portugal que chegou ao nosso País sem uma tradução em português. Como se fizesse parte dos deveres constitucionais cá da pátria dominar o idioma do Tio Sam. “Os deputados da República [Portuguesa] têm como língua de trabalho o português”, declarou o comunista Manuel Tiago na Assembleia da República, lembrando o óbvio, que por vezes parece esquecido. Poderia ter até acrescentado que o artigo 11º, nº 3, da nossa lei fundamental especifica que “a língua oficial é o Português”. Porque um país como o nosso, com uma identidade cultural sedimentada há nove séculos, não pode ser confundido com uma empresa exportadora ou uma companhia aérea.

Acresce a isto o facto de Portugal ser desde 1960 membro do FMI e seu contribuinte líquido, o que bastaria para exigirmos ser tratados com a devida consideração.

25 comentários em “Pardon my portuguese”

  1. Ao Memorando de Entendimento aconteceu o mesmo durante semanas. Foi o semanário Expresso que procedeu à tradução, que só muito posteriormente apareceu num site do governo, encabeçado pela seguinte Nota: O idioma da versão original e oficial do Memorando em referência é o inglês. A presente
    versão em português corresponde a uma tradução do documento original e é da exclusiva
    responsabilidade do Governo português. Em caso de eventual divergência entre a versão inglesa
    e a portuguesa, prevalece a versão inglesa.

    1. Isso não é verdade. O Memorando foi traduzido pelo Aventar.
      http://aventar.eu/2011/05/04/memorando-da-troika-em-portugues/

      Depois de Sócrates ser confrontado na TV (penso que pela Judite de Sousa) com esse facto, lá mandaram fazer uma tradução oficial.
      A atitude dos jornais tem sido óbvia: não lhes interessa que haja traduções, porque quem não domina a língua inglesa compra jornais para saber o que lá está escrito.

      1. Tem razão. O que na realidade aconteceu foi que o Expresso publicou o Memorando de Entendimento antes mesmo de ter sido dado ao país conhecimento do dito.

        Mas é verdade que durante semanas não houve tradução oficial do documento e que só ao fim de muitos protestos ela apareceu.

        http://expresso.sapo.pt/expresso-revela-documentos-com-programa-do-fmibcece=f646842

  2. Se me permite acrescentar, acho que o desrespeito é mais vasto do que o referido.

    Os funcionários do FMI devem ter feito o documento em inglês porque assim deveria estar estabelecido na encomenda. O grave é que quem lhes encomendou não tenha tido o discernimento de encomendar uma versão em português ou tenha permitido que a divulgação e discussão se faça em torno de um documento noutra língua que não a nossa. E que um Secretário de Estado tenha feito uma conferência de imprensa sobre um documento em inglês. E que a Comissão Europeia se arrogue o direito de querer que uma análise, discussão e aprovação de medidas que viram o País de pernas para o ar se façam em menos de dois meses. E que o Governo deste País aceite tudo como bom e queira pôr em prática reformas do Estado desta magnitude sem que se conheçam os pressupostos, a validade dos dados ou dos cálculos.

    Tudo isto é desonroso para os portugueses. Estamos a ser tratados como acéfalos, como gente sem vontade e sem quaisquer direitos.

    Uma tristeza o estado a que isto chegou.

    Por isso acho (e escrevi isso lá no meu canto) que a única atitude digna é toda a gente recusar-se a falar com o Governo sobre aquele documento.

    Cresçam, aprendam, cultivem-se, sejam homenzinhos e depois, então, apareçam. Agora vão chatear outros.

  3. Dentro de poucas horas haverá uma primeira versão do documento traduzido. Em apenas um dia algumas dezenas de voluntários deram uma grande lição de cidadania, a quem precisa de a receber.

      1. Não inventámos a roda, mas desconfio que a partir de agora situações destas não se voltam a repetir: é possível traduzir em poucas horas todos os documentos que nos dizem respeito, a nós portugueses.
        A menos que comecem a aparecer em mandarim, sempre demoraria mais uns dias, mas consegue-se.

        1. Claro que sim, tudo se consegue. Também acho que não voltará a acontecer. Cidadania é mesmo isto: não nos limitarmos ao resmungo, nem à conversa de café, e mostrarmos – aos políticos, às instituições, ao Estado, a nós mesmos – que é sempre possível fazer melhor.

  4. O caso é que se perdeu o mais elementar sentido de dignidade. Não se quer saber, não se ensina e amesquinha-se por intolerante e retrógrado quem reclame destes desaforos.
    Respeito ao deputado Miguel Tiago por esta e mais algumas acções de atalhar à leviana falta de respeito com a cultura dos portugueses.
    Cumpts.

    1. E o mais espantoso é que na elaboração do relatório participaram técnicos do FMI que dominam bem a língua portuguesa. Um deles, pelo menos, é português – filho de um ex-ministro das Finanças.

  5. Lá no meu estaminé, no Fio de prumo, também já me tinha revoltado contra esse hábito de os estudos não serem, pelo menos bilingues.
    Mas compreende-se a intenção:aquilo é para as elites que falam melhor inglês do que português…

  6. É inqualificável, fizeste muito bem em salientar aqui este absurdo. Honra seja feita aos comunistas, que não o deixaram passar no parlamento sem um reparo.

    Só estou em desacordo contigo num ponto: o contribuinte português já não é líquido, infelizmente é cada vez mais gasoso.

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