Parar de novo para ver Gabriela


Pedro Correia,

 

Julgo que muitos dos leitores, tal como eu, foram acompanhando ao longo destes quatro meses Gabriela, a telenovela que a Globo produziu para assinalar o centenário do nascimento do mais universal dos escritores brasileiros – Jorge Amado, criador de Gabriela, Cravo e Canela (1958). Este fabuloso romance ambientado em Ilhéus, na década de 20 do século passado, durante o surto expansionista provocado pela exportação do cacau colhido nas fazendas do estado da Baía, já tinha sido transposto para o ecrã em 1975, também em formato de telenovela – e foi logo então êxito no Brasil, tal como seria dois anos mais tarde em Portugal, onde ajudou a mudar hábitos (o hábito de “ver novelas”, desde logo), costumes e até a maneira de falar, devolvendo aos portugueses expressões que por cá já estavam mortas e enterradas (“teúda e manteúda”, por exemplo).

 

Da versão original recuperou-se parte da magnífica banda sonora (incluindo o tema principal, composto por Dorival Caymmi), manteve-se parte substancial da adaptação dramatúrgica e recuperaram-se dois actores, embora em papéis diferentes: Ary Fontoura, que era o Doutor e agora interpretou o divertido coronel Coriolano Ribeiro, e o então galã José Wilker (dr. Mundinho Falcão) deu corpo ao coronel Jesuíno Mendonça, o mais antigalã possível. Sonia Braga, a Gabriela de 1975, esteve para ser desta vez Maria Machadão, a proprietária do Bataclan – centro de convívio social nocturno da vila – mas o papel acabou por ser (bem) confiado à cantora Ivete Sangalo. Outra boa escolha foi a da protagonista, agora a cargo de Juliana Paes.

 

 

Esta é uma Gabriela mais fiel ao texto original, sem o severo crivo da censura da versão anterior, rodada no auge da ditadura militar brasileira. Fala-se mais e mostra-se mais. De política, de sexo, de atavismos sociais em confronto com uma incipiente modernidade que desembarcava então no Brasil profundo, ainda dominado pelos descendentes dos desbravadores originais, para quem a única lei era a da bala e a justiça prevalecente equivalia à vontade do mais forte.

Esta Gabriela voltou a ser um sucesso no Brasil. E tornou-se um êxito também em Portugal, onde este domingo é exibido o último episódio: a SIC acertou em cheio ao incluí-la na sua programação. Frases desta telenovela – a que prefiro chamar telerromance, para distingui-la dessas produções em série, sem o menor interesse, que ocupam lugar nobre nos nossos canais generalistas – popularizaram-se no Brasil inteiro, provando que a qualidade dos diálogos da adaptação de 1975 não se perdeu nesta versão, mantendo-se ao nível da excelente direcção de actores (algo a que os autores portugueses de telenovelas deviam prestar muito mais atenção do que prestam).

 

“Jesus, Maria, José!” – a frase-chave da velha Dona Doroteia (personagem eliminada na versão de 1975) – é uma dessas expressões que conquistaram milhões de brasileiros e andam também já na boca de muitos portugueses que se tonaram fiéis espectadores desta Gabriela do século XXI. Outra, também proferida pela implacável Dona Doroteia (um extraordinário desempenho da veterana actriz Laura Cardoso): “O senhor é corno!” Outra ainda – esta ascendeu mesmo sem demora ao anedotário nacional brasileiro – é “Eu vou-lhe usar”, a frase favorita do coronel Jesuíno à sua finada esposa, Dona Sinhazinha (interpretada nesta versão por Maitê Proença, sempre magnífica).

Território onde implacáveis coronéis das roças casavam com respeitosas senhoras de sociedade mas conviviam afinal com “damas moças”, sempre sem questionarem a sacrossanta instituição do matrimónio, esta Ilhéus de Gabriela (que era a da infância e juventude de Jorge Amado) constitui um microcosmos de uma certa época, marcada pela hipocrisia das convenções sociais que só eram respeitadas na aparência. Que isto seja feito de forma implacável mas também divertida, em excelente português, graças a um naipe de talentosos actores bem dirigidos, e com um roteiro de qualidade, basta para explicar a popularidade deste telerromance, eficaz cruzamento de folhetim camiliano com um manual de sociologia política.

 

Como aconteceu com muita gente, também não perdi um episódio. E só lamento que os nossos melhores escritores não sejam também adaptados ao ecrã com a qualidade desta adaptação assinada por Walcyr Carrasco que tornou Jorge Amado um autor ainda mais popular e universal, 11 anos depois da sua morte.

22 comentários em “Parar de novo para ver Gabriela”

  1. Juliana Paes tem uma boa prestação no papel de Gabriela, mas, quanto a mim, perde na comparação com a beleza selvagem de Sónia Braga. Quanto às demais personagens, também gosto particularmente da Dona Doroteia, um enorme desempenho de Laura Cardoso.
    No que concerne à adaptação dos nossos grandes escritores, enfim, se for para realizar filmes como «O Crime do Padre Amaro», «Jesus, Maria, José!»…

  2. Deixei de ver ao fim de uma série de tonterias.

    Uma (entre muitas) das que mais contribuiram para eu perder a disposição e a paciência para continuar a seguir a Gabriela foi o episódio de um leilão da virgindade de uma jovenzita, no Bataclan.

    E não foi a peripécia em si que me chocou, não a considerei aberrante no enredo da novela nem recordo se constava ou não do romance – o que é irrrelevante -, mas antes a maneira como foi apresentada.

    De facto, a suposta pobre coitada que a tal se sujeitou PARA DEIXAR DE PASSAR FOME apareceu em excelente forma, bem tratada e melhor produzida, à vontade numa lingerie que por certo lhe seria estranha, risonha e com a descontracção de uma modelo experiente perante uma sala cheia de machos excitados e ululantes, e sem se importar muito por ser leiloada e depois “estreada” por um coronel muitíssimo mais velho e que com toda a probabilidade causaria enorme repulsa a qualquer uma naquela situação.

    Entendi que aquilo decididamente passava das marcas.

    1. O comentário que aqui deixa é suficiente para perceber que passou ao lado do espírito deste telerromance, assente em dois ingredientes essenciais: o sentido de humor (com frequência quem acompanhou o desenrolar da acção soltava umas boas gargalhadas perante certos episódios) e a função arquetípica de boa parte das personagens, que funcionavam essencialmente como símbolos. Na linha, aliás, de um Eça de Queirós, escritor que tanto influenciou Jorge Amado. Muitas personagens de Eça – Ega, Dâmaso, Eusebiozinho, Juliana, Raposão, etc – não resistem ao crivo da verosimilhança pelo exagero com que são descritas e em muitos casos pelo mais absoluto vazio moral que as caracteriza. Mas funcionam perfeitamente como arquétipos de uma sociedade decadente, de um mundo em transição. Algo semelhante ocorre na ‘Gabriela’ – tanto no romance como nas adpatações à TV.

      1. E andarem todos vestidos como se tivessem acabado de sair do alfaiate também era irónico, compreendi agora.

        1. Tomemos isso como distanciamento brechtiano: tornar claros os artifícios da representação cénica para estimular o efeito crítico e destacar a componente ideológica da mensagem. De resto, para vermos roupa de todos os dias não é preciso nenhum telerromance: qualquer telejornal serve.
          Detecto, com agrado, um registo irónico nas suas palavras: adequa-se ao tom e ao estilo de ‘Gabriela’.

  3. Confesso que não tenho muita paciência para telenovelas, mas esta Gabriela prendeu-me desde o primeiro episódio, e nem a propósito escrevi um pouco sobre o assunto ainda hoje. Muito aquém do que aqui está. Obrigada pela informação completa. Nada melhor do que aprender, mesmo quando se trata de uma telenovela. Apesar desta não ser uma telenovela qualquer. Aqui existe qualidade, daquela muito boa.

    Tudo me prende. Os diálogos excelentes sempre polvilhados com uma pitada de humor. Os actores do melhor que existe. Nada ali é vulgar nem banal. Dá gosto sentar-nos no final da noite, e ficar ali uma meia-hora a assistir a um grupo de pessoas que faz jus à profissão que tem. A nobre arte de ser actor.

    1. De acordo, Maria. Os diálogos desta ‘Gabriela’ eram extraordinários.
      Um exemplo:
      Coronel Ramiro para Dona Doroteia: “A senhora é uma velha fofoqueira e palpiteira. Bico calado!”
      Dona Doroteia: “Ainda não nasceu homem para me calar.”

      E várias outras. Amanhã voltarei ao tema, pois vale a pena.

      1. Mensagem subliminar (eheh)
        Ainda não sou velhota, mas um dia lá chegarei, por enquanto não faço questão.
        Fofoqueira não tenho o menor jeito, mas um dia quem sabe… bem, talvez não. Só se me pagarem bem 😀
        Palpitar é bom para o músculo cardíaco. Dizem.
        Não é um homem qualquer que me consegue calar, tem de ser assim para o especial. E mesmo assim tenho muitas dúvidas.

        Um bom-fim-de-semana.

  4. Excelente texto. Também apreciei ver de novo esta Gabriela, o que confirma a minha opinião de que o fundamental para o sucesso é ter uma boa história para contar. E essa é a do livro de Jorge Amado, que considero a par de Os Pastores da Noite a sua melhor obra.

    Quanto a esta versão, acho que Juliana Pais não nos faz esquecer Sónia Braga, e nos dá uma Gabriela com muito mais idade, pois a actriz já vai nos 32 enquanto Sónia Braga fez esse papel com 25 anos. No Brasil a escolha foi muito criticada, pois uma actriz mais jovem daria com certeza mais frescura e fogosidade à personagem.

    Sendo ambos bons actores, acho que António Fagundes nos deu um coronel Ramiro muito diferente do de Paulo Gracindo. O coronel Ramiro anterior, embora fosse chefe dos coronéis, era um homem respeitável e com sentido de honra. Este não passa de um chefe de gangsters.

    Também acho que José Wilker nos dá outra dimensão do coronel Jesuíno. O anterior, embora tivesse morto a mulher a tiro, é apresentado como um desgraçado que cometeu um crime passional. Este é um homem tão frio e desprezível, que se torna quase uma caricatura.

    Em qualquer caso, acho que esta nova Gabriela não nos faz esquecer a versão de 1975. Mas é seguramente um trabalho de grande qualidade. Por mim, também praticamente não perdi um episódio.

    1. Aconteceu o mesmo comigo, Luís. Acompanhei também a versão original, que tinha excelentes actores (Paulo Gracindo, Armando Bógus, Elisabeth Savalla, Dina Sfat), e concordo que esta não faz esquecer aquela. Mas as condições de produção são incomparáveis, devido à ausência da censura nesta versão do centenário de Jorge Amado, que a torna bastante mais próxima do romance. Alguns actores são melhores nesta versão – como Marcelo Serrado, que interpreta a personagem de Tonico Bastos, ou Suzana Pires (a Glorinha), já para não falar da incomparável Laura Cardoso.

  5. Belo texto, que me desperta a vontade de acompanhar a novela quando por cá passar. E obrigado pelo pedaço de nostalgia que vivi ao ver o filme (e ouvir a música) apresentando os actores das duas versões. Claro que nada será da mesma forma, quanto à recepção, não creio que com esta idade me possa apaixonar tão perdidamente como me apaixonei naqueles tempos pela Malvina (Elizabeth Savalla). Ou, quem sabe?

    1. Nunca se sabe, meu caro. Espreita quando passar aí e verás que ficas agarrado como eu fiquei: comecei a ver por mero acaso o primeiro episódio, para o confrontar com a versão anterior, e tornei-me espectador fiel até ao fim.

  6. Eu vi a Gabriela original numa reposição que não sei bem precisar quando aconteceu, sei que ainda estava na primária. Lembrava-me de alguns nomes, da malvadeza de Coronel Melk e pouco mais. Revi desta vez, não tenho regra nenhuma mas a verdade é que não acompanhava uma novela há bastante tempo, e esta história, este elenco foram decisivos para voltar a esse mundo. Não só não me arrependi como fui gostando mais e mais, até à pena de ter acabado. Ninguém ser perfeito, toda a gente ter o seu “podre” e o humor com que está escrita é brilhante. Tinha saudades e nem sabia.

    1. Também eu já não acompanhava uma telenovela há muito tempo, Marta. Quebrei o jejum com esta – e ainda bem que o fiz. A escrita, em particular, é excelente. As portuguesas, nesta matéria, não lhe chegam aos calcanhares. E não é preciso acompanhar nenhuma: basta espreitá-las ocasionalmente para concluir isto.

  7. Completamente de acordo. Nostalgias à parte – os nossos olhos também não são os mesmos, quase 40 anos depois! – acho que esta versão não fica atrás da primeira a não ser em pormenores, e em alguns aspectos até é melhor porque está mais próxima do livro. Por causa deste video reparo num desses pormenores, que não é tão insignificante como isso: ao contrário da Juliana Paes (que faz uma excelente Gabriela, na minha opinião) a Sónia Braga não tinha as axilas depiladas, o que faz todo o sentido na personagem de Gabriela. Outro pormenor é a Ivete Sangalo, uma boa surpresa no papel de Maria Machadão mas um bocadinho nova de mais para a personagem. E um terceiro: a Zarolhinha, tanto no livro como na primeira versão, tinha um defeito num olho que justificava a alcunha. Esta não tem, não sei porquê. E concordo que a personagem do Coronel Ramiro Bastos está bastante mais abrutalhada do que na primeira versão, em que era prepotente e implacável mas tinha uma certa sofisticação.

    1. É como dizes, Ana: o nosso olhar mudou. Mesmo com tal ressalva, que sempre nos condiciona, esta ‘Gabriela’ passa com distinção, globalmente, no teste crítico.

  8. Sou fã e acabei de avisar os camaradas no FB p n perderem o último episódio. N vi a primeira Gabriela (sou de 76), mas achei esta novela absolutamente encantadora, com uma fotografia lindíssima e personagens deliciosas. Há 16 li o romance do Jorge Amado c título (quase) homónimo: um dos meus escritores preferidos e um dos meus livros prediletos. Perco é nunca.

    1. Nada disso: sou frontalmente contra o acordo. E estou muito bem acompanhado. Acontece apenas que acompanho a Professora Maria Regina Rocha no moderado elogio que faz ao AO apenas no que se refere a novas regras de emprego do hifen.

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