Para tudo há um preço


Pedro Correia,

“A PT é uma empresa muito importante para o País. E a participação da PT na Vivo é um activo estratégico de sucesso no mercado brasileiro – é mesmo a empresa de telecomunicações nº 1 no Brasil. Sucede que a internacionalização da PT e a sua presença no Brasil é absolutamente fundamental para a economia portuguesa.
Eu compreendo, por isso, muito bem o interesse dos espanhóis da Telefónica em comprar uma empresa tão boa como a Vivo, tal como compreendo os interesses financeiros dos accionistas da PT em obterem ganhos de curto prazo.
Mas ao Estado Português não compete defender os interesses das empresas espanholas, nem interesses financeiros de curto prazo – mas sim os interesses estratégicos do País. E a verdade é que esta proposta não convenceu o Estado, não convenceu o Governo.”

São palavras de José Sócrates, impressas há exactamente 28 dias, no jornal Público. Palavras, como tantas outras deste primeiro-ministro, destinadas a figurar numa espécie de antologia muito particular. Nem um mês decorreu e já a poderosa Telefónica passa a liderar o mercado brasileiro de telecomunicações após adquirir a participação da PT num raide digno dos filmes do Rambo. Diferença: oferecia 7,15 mil milhões de euros, mas acabou por oferecer 7,5 mil milhões. Olé.

Sócrates, como sempre ocorre quando é ultrapassado pelos acontecimentos, congratula-se com o sucedido: “Valeu a pena ter resistido às pressões.” Já está esquecido das suas próprias palavras, aparentemente tão categóricas, dadas à estampa no início do mês. Ficam reimpressas aí em cima, com a devida vénia: a função dos blogues é também a de reavivar permanentemente a memória dos leitores. Entretanto, ficamos a saber qual é o valor exacto dos “interesses estratégicos do País”, na óptica do primeiro-ministro: 350 milhões de euros. Razão tinha o outro: para tudo há um preço.

 

ADENDA: Em matéria de nacionalismo económico, o Brasil dispensa lições portuguesas. Como sempre foi óbvio. (Via Blasfémias)

8 comentários em “Para tudo há um preço”

  1. Não estou nada convencido de que o interesse nacional valha sequer os 350 milhões. É preciso analisar as condições de pagamento. Se for verdade o que penso, há uma parte do preço com pagamento diferido. A ser assim, será necessário ver qual o valor actual das tranches diferidas (será sempre inferior) e comparar com o valor anteriormente oferecido pela Telefónica (creio que este seria pago a pronto).

    1. Bem visto.
      De qualquer modo, fica por saber se e por quê a PT é realmente estratégica para o País. Apenas ficámos a saber que o Brasil é estratégico para a PT.
      Na verdade, o Estado privatizou a PT e são os donos da PT que devem definir os seus interesses e decidir em consonância.
      Na prática, o Estado nada ganha com a PT a não ser permitir ao Governo meter lá um ou dois rapazes com maior ou menor jeito para fazer uns fretes políticos obscuros sem precisar de lhes pagar do Orçamento público.

  2. Neste caso, o PM não foi ultrapassado pelos acontecimentos.
    A questão fulcral aqui não são os 300M€. É o facto de a PT ter entretanto assegurado um futuro no Brasil.

    A PT, tal como a Telefónica, precisa dos mercados emergentes como Brasil.
    Perder a Vivo sem ter uma alternativa no mercado brasileiro seria muito preocupante para o futuro da PT.

    Quando o Governo vetou a venda da Vivo, a PT não tinha um futuro no Brasil assegurado.
    Pior, poucos dias antes da AG e do veto, os acionistas da Oi, a alternativa mais interessante para PT, acordaram entre si proteger a Oi da entrada de outras empresas.

    Mas a Telefónica queria a Vivo, estava disposta a pagar princepescamente por ela e o veto podia não se ia aguentar eternamente face à legislação europeia. O processo podia arrastar-se anos mas podia também ser despachado em meses.

    A PT não podia ficar eternamente na Vivo protegida pelo veto do Governo.

    O veto acabou por ser só uma forma de dar margem de manobra à PT para negociar a entrada na Oi.
    Assim que a PT conseguiu assegurar a entrada da Oi. era o momento de vender a Vivo.

    1. Sr. Ricardo B
      O senhor explicou com simplicidade e clareza, a situação. Só não a entende quem não quer entender.

    2. Concordo consigo. Parece-me que de facto desde o início o que estava em causa era precisamente assegurar contrapartidas expressas na participação de empresa estratégica no mercado brasileiro. E o PM sabia disse. O uso da golden share surge como o meio para exercer pressão nesse sentido, além de reafirmar perante os cidadãos a atenção do governo em relação às empresas estratratégicas do país permitindo pela sua posição a conclusão de um negócio favorável… Parece-me assim que a golden share surge aqui como uma estratégia que se sabia à partida que iria soçobrar, uma mera estratégia negocial e política. Mas, o segredo ainda é a alma do negócio não?

  3. Como o preço destes anos de desvairo socialista…

    Neste enredo brasileiro
    com diálogos mal falados,
    destaca-se o tom foleiro
    de actores esfarelados.

    O interesse tão falado
    e, agora, desvanecido
    é um termo encabulado
    num discurso entorpecido.

    Com esses milhões avivados,
    após meses de incertezas,
    deixarão alguns tão lavados
    das mais ingénuas justezas.

    É cedo para festejar
    os milhões espanholados,
    para não se lacrimejar
    sobre feitos empolados.

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