Para memória futura, continuação


Paulo Sousa,

Jovem do futuro,

Já te falei sobre termos sido durante umas semanas o pior sítio do mundo. Em cada dois minutos um português morria com covid. Esta tragédia fez do nosso país notícia em todo o mundo. Ao contrário do que ocorreu nas primeiras semanas da pandemia, desta vez a solidariedade europeia manifestou-se.

A força aérea alemã, a Luftwaffe que no passado espalhou o terror, desta vez enviou para Portugal médicos, enfermeiros e ventiladores. Traziam também uma mensagem do governo alemão: “É para isto que servem os amigos”. Os nossos governantes, que estavam preocupados apenas com os seus jogos de poder imediatistas, não conseguiram esconder o embaraço. A chegada de ajuda internacional era a confirmação do que já sabíamos, de que estávamos em mãos incapazes e arrogantes. Responderam que aceitavam a ajuda e que era apenas simbólica, e sem entendermos porquê não os deixaram entrar nos hospitais públicos. Quem sofria ao ver tantos de nós a tombar, sentiu vergonha pela soberba dos indigentes e aprendeu em silêncio a dizer Vielen Danke Deutschland.

Os nossos governantes que estavam apenas serodiamente preparados para passear o rótulo das tutelas que lhes distribuíram, e que nunca pensaram que alguma vez teriam de tomar decisões, andaram perdidos. Também já te falei disso. Desataram a levantar proibições e tomaram-lhe o gosto. Entusiasmaram-se com o super-poder que o vírus lhes trouxe e, sem explicação nem propósito, proibiram a venda de livros. As bibliotecas e as livrarias foram forçadas a fechar as portas.

Quem estava infectado perdeu o olfacto mas mesmo quem não estava deixou de poder sentir o aroma dos livros das livrarias. Eu gosto de cheirar os livros, e quem gosta de livros sabe bem do que estou a falar.

Desde há uns anos os livros começaram a ser vendidos entre as batatas e as garrafas de vinho nos hipermercados. Alguns eruditos ficaram incomodados com esta banalização, mas eu fiquei encantado por achar que era ali, entre os bens de primeira necessidade que eles deviam estar. Nunca antes os livros tinham estado tão perto de tanta gente.

Com estas interdições, levantadas por aparente espasmo muscular, o acesso aos livros foi vedado por uma fita plástica colorida. Quando, nos hipermercados entre as frutas e as bolachas, vimos fitas plásticas a interditar os livros, entendemos que estávamos perante a cena de um crime. Não de um crime em investigação, mas de um crime em curso. E foi assim, de olhos embaciados, de ombros descaídos, com os braços pendurados e sem saber onde pôr as mãos, que ficamos à volta das fitas plásticas que impediam o acesso aos livros. Ficamos só a olhar para eles. Sem sequer os poder cheirar.

Para assinalar as diarreias mentais dos nossos governantes, alguns supermercados retiraram os livros das prateleiras e preencheram-nas com rolos de papel higiénico.

O confinamento forçado, além de impedir a venda de livros, impediu a circulação de pessoas para fora do respectivo concelho de residência. Os cafés e os restaurantes foram também proibidos de nos alegrar os dias. Alguns barbeiros e gabinetes de estética passaram a trabalhar na clandestinidade. Em nome da saúde pública ficaram privados dos seus rendimentos. Este foi um sacrifício pelo qual nem os profissionais de saúde tiveram de passar.

O clamor de fundo ainda é pouco mais que inaudível, mas sem poder trabalhar, alguns lembrarão um adágio dos tempos difíceis do Estado Novo, em que Salazar terá dito que tinha livrado o país da guerra, mas não o livraria da fome. Os socialistas no poder não evitaram que nesta pandemia estivéssemos entre os piores e, não fosse a União Europeia, não nos livrariam da fome. Para muitos, nem os milhões despejados pela União Europeia impediram a privação alimentar.

Noutros países o estado apoiou as actividades que mais sofreram com o confinamento, como forma de os compensar do esforço feito pela segurança de todos. Cá não existe dinheiro para isso. Preferiu-se apostar tudo na salvação da TAP que está parada há meses. Se for cumprido o actual plano, o estado gastará com a TAP mais do dobro do que a NASA gastou para colocar um robô em Marte, mas como com eles as contas derrapam sempre, daqui a uns anos veremos a que planeta teríamos conseguido chegar com dinheiro ali consumido. Todos os regimes têm o seu Convento de Mafra.

Ao mesmo tempo, começaram a chegar as vacinas. O ritmo a que chegavam era muito inferior às nossas expectativas e necessidades. Os mais vulneráveis, os velhos e os doentes, foram os primeiros a serem vacinados. Mas desde o início que as filas começaram a ser furadas por penetras armados em chico-espertos. No teu tempo ainda se usa a expressão chico-esperto? Mesmo que já não se use, de certeza que se me estiveres a ler em Portugal, existe um perto de ti. O chico-esperto é egoísta, despreza o colectivo e, dê por onde der, acaba sempre por arranjar uma maneira de passar à frente dos outros e de se safar. Quando exposto e desmascarado arranja uma interpretação criativa das regras e, se tal for necessário, será suficientemente criativa para conseguir exactamente o contrário daquilo que se pretendia quando estas foram estabelecidas. O chico-esperto é um perito em sobrevivência. Mesmo que tenha de enganar e sacrificar uma aldeia ou um bairro cheio de gente decente, ou até uma geração inteira, ele irá safar-se. É uma habilidade socialmente perversa.

Portugal comporta-se na UE como um chico-esperto, mas no nosso caso também se pode designar por toino-habilidoso. Somos governados por um toino-habilidoso que é uma versão pós-moderna de um chico-esperto. Assim, alguns chico-espertos, protegidos pelo toino-habilidoso, furaram as filas dos prioritários e receberam a tão esperada picadela nos seus espertos e habilidosos tríceps, muito antes da vez que lhes competia.

Quando esses abusos começaram a ser conhecidos, justificaram-se chico-espertamente dizendo que como o frasco da vacina continha cinco doses, havia por vezes sobras e para não serem desperdiçadas acabaram por as desviar para si, ou para os seus amigos, ou até para os donos das pastelarias que frequentavam. E assim, com a maior desfaçatez, tentaram convencer o país que as vacinas, que sabíamos serem tão raras, afinal sobravam abundantemente todos os dias.

Com o passar das semanas, e como resultado natural do confinamento, os números da pandemia lá foram baixando. O ritmo de novas infecções foi seguido, com algumas semanas de atraso, pelos números dos internamentos e dos óbitos. Quando as novas infecções sobem, já sabemos que poucos dias mais tarde os hospitais entrarão em ruptura e, ainda antes dos hospitais começarem a vagar, conseguimos saber que o ritmo de infecções já baixou.

As escolas vão reabrir, pouco a pouco, começando pelos mais novos. Vamos ver se o natural aumento de casos, que se seguirá, será comportável pela capacidade hospitalar.

Depois de um inverno muito rigoroso e inesquecivelmente difícil, todos ansiamos que o renascimento que a Primavera traz à natureza seja alargado à situação que estamos a atravessar.

Já entendemos que isto é uma corrida de fundo, que cada dia é como mais um passo dado, e por isso estamos cada vez mais perto do fim de tudo isto. Não sabemos é quanto tempo ainda falta, nem em que estado é que lá chegaremos, nem como ficará o mundo depois deste tormento.

28 comentários em “Para memória futura, continuação”

  1. Esqueceu-se de contar que a polícia abordava indivíduos que passeavam sozinhos numa praia deserta. Ou que se sentavam na relva de um jardim.
    Ou que viajavam entre residências próprias localizadas em concelhos diferentes.
    Se isto não parece um pesadelo Orwelliano…
    😉

    1. Ontem revi um filme de 2005, “V de Vingança”. Incrível, o paralelismo que pode ser estabelecido entre o argumento e a realidade actual.
      Se não acordarmos vamos continuar nesta ditadura.

      1. Cada vez mais me convenço que sim. Estás arbitrariedades já ultrapassaram todos os limites. E o pior de tudo são os portugueses que aplaudem. A desobediência civil é a única saída.

    2. Tem razão.
      Impedir pessoas de passearem sozinhas, foi outra das perversidades que os nossos governantes acharam que travaria o vírus.
      Esses visionários. O vírus está farto de se rir deles e de nós.

      1. Ambos se estão a rir de nós. O vírus e os governantes. E agora vem aí a insanidade das medidas para a Páscoa, quando se espera que os bons cidadãos votem os seus pais e/ou avós que vivem sozinhos ao ostracismo. Li um texto magnífico no Observador que terminava dizendo que a desobediência a leis injustas é um imperativo moral (Carlos Fernandes). Subscrevo.

        1. quando se espera que os bons cidadãos votem os seus pais e/ou avós que vivem sozinhos ao ostracismo

          Por acaso não acho nada mal que o façam.

          Enfim, em última análise isso deve ser uma escolha de cada família, em particular de cada idoso. Mas acho perfeitamente racional que os idosos se votem ao ostracismo.

          Os meus primos (idosos) na Suíça desde o início da epidemia que prescindiram de contactar com os netos. E muito bem. Os netos continuaram a contaminar-se, mas os meus primos evitaram que os netos os contaminassem a eles.

          Uma mulher que eu conheço, que trabalha em Lisboa, já há meses que prescinde de ir a Trás-os-Montes visitar os pais, para evitar eventualmente contaminá-los.

          1. Os seus primos idosos ou os pais da sua amiga não estão sozinhos. Estão um com o outro.
            Um idoso estar sozinho porque quer não é problemático. Agora o governo ameaçar com multas para que as pessoas não possam estar com os familiares é outra totalmente diferente.

      2. Impedir pessoas de passearem sozinhas, foi outra das perversidades que os nossos governantes acharam que travaria o vírus.

        Não foram os nossos governantes quem achou isso. Os nossos governantes sempre permitiram que as pessoas passeassem sozinhas. Isso nunca foi proibido.

        Quem proibiu as pessoas de passearem sozinhas foram certos autarcas, especialmente (creio) do PSD, e refiro-me concretametne ao autarca de Cascais, que teve a brilhante ideia de interditar espaços de passeio, mesmo para quem quisesse passear sozinho.

        Perante o aplauso unânime e entusiástico dos jornalistas.

  2. “Com o passar das semanas, e como resultado natural do confinamento, os números da pandemia lá foram baixando.”

    Ou talvez, como resultado da evolução natural das epidemias…

    1. “Ou talvez, como resultado da evolução natural das epidemias…”
      Apoiado. Eu nunca tomo remédios porque sei que a evolução natural de qualquer doença é acabar.

        1. ” Ou acaba com a doença ou ela acaba consigo.” É isso. Nada de remédios. Para qualquer um dos desfechos não são necessários.

    2. Não discuto a necessidade de confinamento. É um facto que interrompe a transmissão do vírus.
      A gestão de todo o processo é difícil por não existir um ponto de equilíbrio entre a maximização da segurança e a minimização dos prejuízos económicos.
      Em qualquer cenário a diferença parte sempre da capacidade de antecipar a realidade, ou na sua ausência, de ser simplesmente arrastado pelas circunstâncias. Os nossos governantes andaram sempre a reboque.

      1. Eu estou ainda à espera que me demonstrem que os confinamentos funcionam. Dados os seus efeitos colaterais era importante que os seus proponentes o fizessem. Não vi nenhuns dados que o demonstrem claramente.

      2. “Não discuto a necessidade de confinamento. É um facto que interrompe a transmissão do vírus.”

        Não está demonstrado tal coisa sobre este “confinamento” que incluí transportes públicos a operar entre muitos dos absurdos. Se o confinamento interrompe o vírus quantos casos atingiram os trabalhadores nas obras e em muitos outros trabalhos onde nem sequer se usa máscara?

  3. Covid do futuro,
    Nem imaginas os dias maravilhosos que estou a passar em Portugal neste ano 2021. Posso passear nos jardins à vontade, sentar-me nas fitas dos bancos, passear à beira mar, e tudo isto sem a presença de humanos, um sonho.
    Olha! Por falar em humanos, sabes que eles estão confinados há mais de um ano?
    Vê lá tu, com um tempo tão bom. E dizem que não saem por causa de mim, vê lá, se isto não é racismo o que é que será?

  4. A comparação num dado momento entre países dá sempre asneira. Se formos ver os dados de hoje a Alemanha tem mais mortos por milhão de habitantes nesta data do que Portugal. Isso não quer dizer que eles sejam burros e nós inteligentes, quer apenas dizer que as coisas são assim. Se calhar quando era o contrário também não era uma questão de uns serem bestiais e outros bestas.
    Quanto aos livros o seu raciocínio é um caso nítido de corte de uma quantidade grande em fatias. Nenhuma fatia é importante por si só, mas juntas fazem um bolo.
    Exemplificando; há alguma prova que as capelistas são um foco de infeção muito grande? Não, abrem-se as capelistas. O mesmo raciocínio aplica-se às lojas de roupa, às lojas de recordações, às livrarias e a praticamente tudo quando considerado isolado.

    1. Por outro lado se a comparação for demorada, entre nós e o resto da Europa, a asneira fica sempre do nosso lado. Por outro lado, se a asneira, num dado momento, não se manifestar do nosso lado isso significa que não estejamos a fazer asneira ou na asneira. Apenas implica que o intervalo de tempo tomado em conta foi muito curto, na ordem dos milissegundos.

      1. Quando acertamos é por acaso, sobretudo neste momento. Disso não há dúvidas.
        Já a ideia de que existem lá longe uns paizinhos sábios que sabem tudo, já é mais difícil de engolir.
        Não me sinto suficientemente orfão para acreditar em países providenciais.

  5. Perante este “quadro”,qual a sua atitude?Como teria feito? Sim,porque criticar todos o fazem e são contra tudo,mas apresentar alternativas,zero! E atenção que não votei neste governo.

    1. Se não fosse capaz de antecipar a realidade, e isso depende também da capacidade de conseguir decidir rapidamente, e de correr o risco de assumir as consequências de uma decisão, então reduziria os apoios à TAP e em vez de gastar apenas 15 milhões no apoio os media, gastaria bem mais. Com os media ainda mais alinhados com a boa vontade do governo, tudo teria corrido melhor. Não resolveria a tragédia mas haveria menos vozes dissonantes e todos concordariam que ao contrário do que aconteceu nos EUA e no Brasil, aqui a culpa foi de facto da população.

      1. ” Pera Manca será no mínimo body shaming ” Pois, não se deve chamar manca à pêra, é preferível “pêra portadora de deficiência”.

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