Outono quente


Pedro Correia,

1. Já existe o canal Parlamento. Ainda não existe o canal Conselho de Ministros. Mas já faltou mais: as fugas de informação cirúrgicas tornam-se generalizadas e ganham a emoção de um relato de futebol. O sentido de Estado parece ter emigrado para parte incerta.

 

2. Difundir informações sem fundamento, causando um inconcebível alarme social, não penaliza só uns: penaliza todos.

 

3. Largar más notícias com abundância pelas manchetes da imprensa e pelos comentadores mais próximos enquanto se gere o silêncio: eis todo um programa de acção.

 

4. Bastam dez pessoas aos berros durante cinco minutos: as redes sociais transmutam a berraria em notícia, validada pelos chamados órgãos “de referência”, muitos deles cheios de editoriais contra o “populismo”. Meio século depois, nunca Marshall McLuhan esteve tão actual: o meio é a mensagem. Que, pelo efeito de banalização, logo se transforma em massagem.

 

5. Cento e cinquenta mil portugueses trabalham em Angola, nosso principal fornecedor de petróleo. Portugal é o maior parceiro comercial de Luanda. Há 8800 exportadoras portuguesas no mercado angolano, por mais que isso incomode certos aprendizes de feiticeiro. A parceria estratégica, que serve os interesses nacionais, devia ficar à margem da luta partidária. Para não desembocar nisto.

 

6. Taxa sobre produtores de electricidade, anunciada com espavento, vai repercutir-se na bolsa do consumidor. Eduardo Catroga, com notável despudor, já tinha avisado.

 

7. Bastam seis meses para a ambição partidária suplantar o espírito de serviço público? Se não é parece.

 

8. A extrema-esquerda em marcha. Abrindo caminho à extrema-direita: não acreditem que acontece só lá. Como alertava o PCP quando estava no Governo, em 17 de Junho de 1974, “as formas de luta devem ser cuidadosamente examinadas antes de decididas”.

18 comentários em “Outono quente”

  1. Quanto às artes do spinning aconselho esta entrevista à BBC
    “Opinion polls in Britain suggest public faith in politics and politicians has plummeted in the last decade. Why? A lot of powerful reasons lie within the pages of a dark political memoir written by Damian McBride. He was the spin doctor for former British prime minister, Gordon Brown, and routinely used smears, leaks and a host of dirty tricks to serve his master’s interests and undermine his enemies. In the past Damian McBride never let the truth stand in his way. What about now?”
    http://castroller.com/podcasts/Hardtalk/3760764

  2. Muito interessante, Pedro.

    1) Parece revelação irrevogável.
    De qualquer forma, de Gaspar a Borges, as finanças têm na sombra Maria Luís um contorno ainda mais paupérrimo que o original, já de si de grande pobreza.
    Mesmo assim, Macedo ainda vai merecendo maior consideração.

    2) Segundo acto irrevogável.

    3) Terceiro acto, agora com toque de cozinha de avental, regado o robalo e o cherne.

    4) Terceiro acto, na versão cozinha de avental com prato de carne vermelha.

    5) idem

    6) Isso já é mesmo coisa da criançada – os palhaços chegaram à cozinha.
    (Para simbolismo, que tal aplicar uma multa exemplar de 1 Euro à EDP?)

    7) idem

    8) Ah, pois é! Pois é, pois é… mas não sai da apetência da extrema-esquerda, sai da sua incompetência. A revolta se não é bem canalizada por um lado, sai pelo outro.

    1. Pois, meu caro. Sublinho, pela sagacidade, esta sua frase que tão bem funciona como remate: “A revolta se não é bem canalizada por um lado, sai pelo outro.”
      É mesmo isto.

  3. 5. A “pareceria estratégica” só atrapalha os negócios das empresas metendo politica ao barulho.

    6. O que é que tem de despudor o que Catroga diz?
    Os custos das empresas são repercutidos no consumidor, só neste país populista onde parece ainda existir a barreira mental do 25 de Abril certas coisas só são supostamente pagas pelos “capitalistas”.
    Ainda se vai a tempo de descobrir que produtos baratos destroem o financiamento do Estado Social(ista). Menos imposto. Então se fossem grátis…

    1. Meu caro lucky,

      O que Catroga quis dizer, contrariando toda a sua tese sobre a resolução da crise (não se esqueça que ele foi um dos “grandes negociadores” com a troika, e até tirou fotos nas reuniões com Sócrates), e também a sua teoria de que “os credores meter-nos-ão na ordem” (sic), é que a EDP não está disposta a gingojices (agora que ele foi nomeado administrador). Gincana? Faça-a a populaça! Ora porra!

    2. O Lucky continua com a síndrome do Monopólio.
      Começar com metade dos os hotéis não é vantagem suficiente, ainda deveria ser possível aumentar os valores das rendas fixadas nas cartas. Isto já para não falar na injustiça das cartas da sorte penalizarem muito os donos de hotéis. E os que começaram sem hotéis, hmmm? Esses sortudos, não têm que pagar esse imposto… é mesmo injusto.
      LOL.

  4. Passando por cima do resto (embora não consiga deixar de manifestar a minha estupefacção pelo que ontem foi anunciado depois da conferência de imprensa de Portas sobre a 8ª e 9ª avaliações, com a mencionada anunciante a seu lado, em que foram referidas umas insignificantes “pequenas e médias poupanças”), encontro uma certa ironia em a CGTP ter vontade de manifestar-se numa ponte do antigo regime, que já se chamou Ponte Salazar (e contra cuja construção, diga-se de passagem, os comunistas estiveram).

    1. A CGTP, segundo promete, mobilizará quinhentos autocarros em marcha lenta na ponte. É obra, em tempo de crise: haja alguém a lucrar com isto. A começar pelas gasolineiras.

  5. Meu caro Pedro,

    Permita que comente somente o ponto 5 de sua reflexão. Parceria estratégica, onde? Que parceria é essa? Eu comprendo as estratégias usadas por uns quantos em um e outro país para benefícios mútuos. Mas essa da parceria estratégica inventada pelo PR de Angola fez-me rir.

    Fico com a sensação que esta questão não passa de mais uma pressão sobre o poder político nacional no sentido de exercer pressões sobre os órgãos judiciais.
    Comprendo que alguém em Angola se sinta ultrajado pelas chamadas fugas de informação – e aqui dou-lhes razão -. Sim, porque a haver fuga de informação, num processo em segredo de justiça, deviam ter vindo a público todos os nomes envolvidos: angolanos e portugueses. Segundo li nos órgãos de comunicação nacionais os nomes vão para além de cidadãos angolanos.

    Por último, se Angola é o principal fornecedor de petróleo de Portugal isto só beneficia Angola e os accionistas que existem na empresa de exploração de petróleo em Angola. Há muitos outros países a quererem vender seu crude a Portugal.
    Angola sem o conhecimento português não andará por bons caminhos. Estratégicamente, Portugal é-lhes mais conveniente.
    Fim!

    1. Meu caro, tenho lido na blogosfera e ouvido em canais de TV (até num canal que há poucos meses fez uma entrevista reverente e agradecida ao presidente angolano, a quem não foi feita uma só pergunta incómoda) muita bravata contra Angola.
      Esquecem estes sandokans de trazer por casa que há 150 mil portugueses radicados em Angola. A economia angolana, felizmente em expansão, é hoje o ganha-pão, directo ou indirecto, de pelo menos 400 mil portugueses – lá e cá.
      A economia angolana, felizmente em expansão, absorve hoje muita tecnologia portuguesa. Portugal é o maior fornecedor externo de Angola.
      O discurso anti-Angola – às vezes feito por aqueles que aplaudem regimes com péssimos créditos em matéria de direitos, liberdades e garantias, e que fracassam em toda a linha no combate à corrupção, como o da Venezuela – é simplesmente irresponsável. E (perdoe-me a linguagem tão fora de moda) contrário aos interesses nacionais.

      1. Pedro,

        então falamos de interesses. Parceria estratégica não há e nunca houve. Uma parceria estratégica engloba uma política comum para ganhar corpo internacionalmente, e isto não acontece nem com Angola, nem com Moçambique, nem com Timor, nem com o Brasil nem com a Guiné. Aliás, seria de todo impossível implementar tal estratégia.
        Os capitais de alguns angolanos estão mais interessados agora em seguir a via do Dubai e, se forem bem sucedidos, talvez Espanha. O Brasil não lhes interessa, e o sistema brasileiro, ao contrário do nosso, também não os estímula muito. Aliás, a política dita de investimentos angolanos em Portugal interessa também aos particulares portugueses envolvidos que propriamente à nação portuguesa. E isto, até agora, não tem sido estratégico para a nação.
        O ganha pão dessa quantidade de gente que refere é feito pelo trabalho desses portugueses, no interesse de Angola, e não porque seja um favor. Eles estão lá não como pedintes mas como actores no dito progresso da nação angolana, tal como aconteceu e acontece com os imigrantes angolanos em território nacional. E os investimentos portugueses que lá se fazem são de raíz e proporcionam 100 x mais emprego directo a angolanos relativamente ao nr. de portugueses que lá trabalham.
        Angola, em Portugal, limita-se a aplicar capital em empresas cujos accionistas portugueses lhes interessa manter uma perna lá e outra cá. Eles ainda não fizeram um investimento de raíz que gere empregos e valor acrescentado. Limitam-se a aplicar dinheiro em empresas consolidadas cujos accionistas, como referi, lhes interessa ganhar corpo cá e lá. E atrevo-me a pensar, e penso livremente, que alguns desses investimentos ou parcerias em Angola, feitas por alguns portugueses, só serviram para entrar no capital de empresas portuguesas cujos accionistas angolanos já estavam colocados.

        Mas volto a afirmar: se, segundo Eduardo dos Santos, em Junho tudo estava às mil maravilhas e o noivo e noiva se deleitavam com os êxtases das pulsões “sexuais”, o que mudou a partir daí? Algo tirou o estímulo a um dos nubentes. E esse algo foi a fuga de informação selectiva dos processos em justiça sem que o nome dos portugueses, que fazem parte desse processo, fossem referidos. E isto é mau, muito mau.
        Mas parece-me que o jornal de Angola, aquele mesmo que falou mal de uma nação e que agora muda de figurino, pretendia que a classe política nacional pusesse ordem nisto, esquecendo que em Portugal devia vigorar o direito da separação de poderes; que a meu ver não vigora, por causa da politização da justiça.
        A economia angolana não está assim em tão grande expansão. Mas lá vai dando para desenrascar alguns, lá e cá de cá e de lá.
        Tenho pena que os ditos investidores angolanos não tivessem usado esse dinheiro que andaram a espalhar por aqui para investir em Angola a favor dos seus. Mas creio que o dinheiro aqui investido e noutros sítios está mais seguro que por lá.
        Pedro, não sejamos ingénuos. Se Angola estivesse interessada em acabar com o que quer que seja o PR angolano não teria feito o discurso que fez. Ele sabe bem que está enlaçado pelo pescoço neste abraço sufocante entre mestres do entreter. Cá para mim quero que todos se lixem!

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