O soldado disciplinado e leal.


Luís Menezes Leitão,

Se há uma coisa que me choca profundamente na actual classe política é a falta de convicções da maioria dos seus membros. Pessoas que convictamente defendem uma solução depois chegam ao Parlamento e ao Governo e vêm fazer absolutamente o contrário, baseando-se apenas no servilismo em relação ao chefe. O caso de Pires de Lima é particularmente elucidativo: vindo do sector privado onde tinha feito sucesso, foi feito ministro de uma pasta onde era vital que conseguisse dar um novo ímpeto à economia. Para isso, no entanto, era imprescindível que o deixassem aplicar as suas ideias e implantar o seu programa. Pires de Lima acaba, porém, por confessar que no governo, os que o julgavam um general estavam enganados. Não passa de um soldado raso “disciplinado e leal”. E por isso nem sequer consegue, contra todas as expectativas, baixar o IVA da restauração, sendo assim manifesto que nada está a fazer na pasta da economia. Pires de Lima parece assim o soldado da guerra do Solnado que diz ao capitão que tinha feito um prisioneiro, mas quando lhe perguntam onde ele está, responde que “não quis vir“. Se de facto a influência de Pires de Lima no governo é zero, cabe perguntar por que razão se mantém no cargo.

12 comentários em “O soldado disciplinado e leal.”

  1. “…onde era vital que conseguisse dar um novo ímpeto à economia…”

    hahahah! o salazarismo neo-comunista continua…é o Governo que dá ímpeto à economia! Ena!
    A classe político-jornalista gosta muito de auto elogios e de digamos exagerar a sua importância positiva.

    1. Um espectáculo… “salazarismo neo-comunista”!
      O leitor menos atento pode pensar que o Lucky pirou de vez, mas é apenas uma frase de anarquista assumido, disfarçado de liberal.

      Quando jogou Monopólio em criança deviam deixar que ele começasse logo com hotéis em metade das propriedades, e por isso a sua ideia de competição é essa. Tinha natural aversão às cartas da sorte que o obrigavam a pagar imposto por cada hotel, e que era a única coisa que o penalizava…
      Que tamanha injustiça… só ele que tinha hotéis é que pagava aquilo à partida.

  2. Para mim, não é por o homem não conseguir baixar o IVA da restauração (que até me parece que não é de baixar), mas que o actual ministro merece censura, merece, sobretudo pela guerra que, traiçoeiramente, fez ao antigo ministro Álvaro.
    O tempo dirá como ficamos muito pior.

  3. Estou de acordo com a opinião que emite. O governo agora, para justificar o OE2014, usa como argumento o facto de pretenderem enviar a troika para, com vossa licença,…
    Todavia, o governo esquece que o problema da soberania orçamental, e não só, transcende não só o âmbito nacional como também o da troika. Melhor, Bruxelas, com a cismática Alemanha a liderar, continuará a querer exercer pressões sobre os países com governos fracos para tentar provar que suas políticas resultam. Na realidade resultam, em miséria.

    Acontece agora um facto pouco divulgado e debatido: a Itália decidiu baixar impostos para relançar sua economia. Quero ver o que dirá Bruxelas e o governo português daqui por uma ano.

    A nossa ministra das finanças diz que as receitas do estado beneficiaram substancialmente com as receitas do IVA. Claro que sim! Qualquer quebra na aquisição relativa aos bens transaccionados pela indústria da restauração é sempre uma compensação para o estado tendo em conta o aumento da carga fiscal para 23%.

    Mas, senhora ministra, e a economia o emprego!? Finanças de fazer sumir qualquer um é capaz de executar.

  4. Baixar o IVA da restauração é mais um mito daqueles a que os portugueses gostam de se agarrar, muitas vezes sem saberem porquê. Os industriais da cafetaria e da restauração passaram anos a locuptar-se com o IVA que os clientes lhes pagavam, e que eles não enviavam para o fisco, porque não passavam facturas. E os que pagavam parece que gostavam de ser roubados, porque agora toda a gente defende a roubalheira de que eram vitimas.
    Quanto ao Pires de Lima, e se a situação não fosse trágica, até me apetecia rir do que diz e do que faz enquanto ministro da economia, depois do que ele disse do mal-amado Santos Pereira, que aliás lhe deixou uma serie de legislação já aprovada amiga dos empresérios e dos investidores, portanto do investimento, quer ao nivel da concorrência, quer ao nivel da eliminação de burocracia, e que vá lá saber-se porquê, ainda não viu a luz do dia.

    1. Não confunda o facto de se ter melhorado o sistema de fiscalização e, consequentemente, da colecta dos valores tributáveis no sector da restauração com qualquer virtude na subida da taxa do IVA.
      Ainda não quero pensar que o Alexandre entenda justo que um prato de sopa tenha a mesma tributação fiscal que um colar de diamantes e/ou um perfume.
      Por falar nisto: sabe que as lojas de luxo estabelecidas na Av. da Liberdade em Lisboa vendem artigos de luxo cujas taxas são recuperadas pelos turistas que as adquirem?
      Meu caro Alxandre, quem compra uma carteira ou outro artigo por € 10.000,00 borrifa-se para o facto da devolução do IVA. Eles compram, essencialmente, por ostentação!

      1. Quando me pergunta se acho bem que um prato de sopa pague o mesmo iva do que um colar de diamantes de milhares de euros, destrói logo à partida a hipótese de discutir o assunto com seriedade.
        Por outro lado, ainda bem que os turistas recuperam o iva das compras que fazem em Portugal. Sabe porquê? por que é prática internacional, e porque atrai turistas com poder de compra para virem a Portugal. Para turismo de “camisola de alças”, já basta o que temos no Algarve.
        Não é desejavel que em periodos de crescimento económico, a restauração seja onerada com a taxa máxima do iva. Mas como sabe o caro anónimo, infelizmente o periodo que vivemos é de vacas magras, portanto todos têm de pagar.
        P.S. Costuma pedir a sua factura quando vai ao restaurante ou ao café tomar uma simples bica?

        1. Bem, o assunto é sério, e apresentei-o com seriedade.
          Não acredite que os turistas vêm a Portugal para ficarem isentos de iva. Eles vêm, e aproveitam a oportunidade. Mas comprariam na mesma. Não acredite que é uma carteira de uma conceituada marca que faz aumentar esses turistas.
          Já agora, o turismo de massas também é uma via para o crescimento económico. E é também uma oportunidade para que esses, no futuro, quando a sua situação profissional se consolidar (refiro-me aos jovens), regressem.
          Vou também responder ao seu post scriptum:. Não, não a solicito. Eu não sou jogador. Mas devo acrescentar, não devo nada de nada ao estado.
          O esquema de tributação na restauração, se houvesse alguém capaz de pensar, resolver-se-ia pelo método da presunção: através dos investimentos, dos gastos com energia (gás e luz), com a água, do valor do património em termos de renda, do número de empregados e do volume de compras anuais apresentado chegar-se-ia a uma conclusão realista e não necessitariamos de sorteios. Já viu que estou a oferecer uma solução ao governo?

          A título de exemplo: um dia um empresário da restauração queixava-se que pensava perder muito dinheiro nos trocos e que não tinha a certeza se seus empregados cobravam, por motivo de pouca atenção, o que o cliente consumia, e isto levava-o a desconfiar dos mesmos. Sugeri-lhe que todas as manhãs entregasse uma verba de x a cada empregado, e cada um deles assinava um vale. A partir deste esquema, cada empregado, com o fundo de maneio entregue, era obrigado a pagar antecipadamnte ao caixa o que pedia para cada cliente (ele, o empregado, tornava-se num comprador e vendedor), ficando encarregue da cobrança. Ao final do dia cada um deles devia apresentar igual montante do que tinha recebido pela manhã. Se não tivesse tal montante colocava a diferença, se tivesse a mais eram gorjetas para distribuir por eles. Acabaram-se os problemas e as desconfianças, o clima melhorou e o empresário decidiu distribuir prémios na Páscoa e no Natal por seus empregados. Simples, não?
          Isto é só para demonstrar que há muita maneira do governo gerir as relações com o contribuinte.

          A economia paralela cresceu nos últimos tempos em Portugal, e continuará a crescer a par desse mesmo crescimento na Europa. Significa isto que não é com máquinas e maquininhas que se resolve esta questão, mas com cabeça. O Alexandre pensa que se alguém tiver absoluta necessidade de usar o carro e não tiver dinheiro para pagar o concerto a pronto não optará pelo arranjo através do “black money” (FREE OF TAX), termo usado em todos os países para quem foge ao fisco, incluindo os países nórdicos. O Alexandre pensa que a economia paralela é um fenómeno dos países do sul? E se um mecânico não tiver clientes com mais disponibilidades financeiras que estes últimos não será razoável pensar que ele para sobreviver entrará no esquema. O governo tem muito para reflectir sobre como estabelecer um patamar razoável na tributação. O que carrega num sítio perde noutro.

  5. Estive há uma semana em Portugal e em conversas com amigos, decidi-me a um exercício simples: perguntei quem é o ministro da economia. A razão foi simples: notei que eu próprio já não me lembrava de quem tinha substituído o Álvarinho.

    O resultado? Nem um foi capaz de o dizer (sem recorrer à internet). Alguns pegavam no Álvaro e lembravam-se de imediato que já lá não está. Outros referiam Maria Luís Albuquerque. E estamos a falar de pessoas que seguem a política com atenção decente (não são comentadores nem jornalistas, mas têm interesse no que se passa à sua volta) e até compram jornais (aqueles que ainda o podem).

    A minha conclusão foi simples: Pires de Lima é de facto uma não-personalidade. Nada fez até agora e continuará a não o fazer. E nem sequer tem o lado castiço do Álvarinho.

  6. Que eu saiba, o Dr. Pires de Lima não andou na tropa. Foi, isso sim, vendedor de cervejas. E político nas horas vagas. Portanto, não tendo formação militar, deve ter dificuldade em ser um soldado disciplinado. Quanto a lealdade, em se falando de política, é o que se sabe e como se viu, nos comentários que ele amiúde fazia sobre a actividade do ministro Álvaro Pereira.

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