
No campeonato das citações de poetas ontem disputado na sessão solene do 25 de Abril em São Bento, não houve claro vencedor. No topo, destacou-se um trio: Natália Correia, Sophia de Mello Breyner e Manuel Alegre mereceram duas citações cada. Natália, do PAN e do BE. Sophia, do PS e do Presidente Seguro, estreante nestas cerimónias. Alegre, do PS e do PSD. Subiram ao pódio simbólico nesta Liga dos Poetas. Superando outros, que só receberam uma citação: Jorge de Sena (BE), António Gedeão (PSD) e Eugénio de Andrade (Seguro).
Camões e Pessoa foram omitidos desta vez. Compreende-se. O primeiro tem um dia só para ele (10 de Junho), o segundo reparte-o com Santo António (13 de Junho).
O Chega, pouco dado à poesia, não entrou nesta Liga. Mas poderia ter recorrido à prosa literária. Era dia apropriado, pois André Ventura e restantes deputados dessa bancada apresentaram-se de cravo verde nas lapelas. Cenografia que quase implorava citação de Oscar Wilde, o mais notório cultor de cravos verdes.
Mas devo reconhecer que lhes fica muito bem.

O chega é mais dado à prova taberneira; apesar do discurso nas tabernas conseguir ser mais elevado.
Nem mais! E o Verde,uma cor tão bonita naquelas lapelas…
A AR continua a ignorar esse grande ícone de Abril que foi Luiz Pacheco.
Pacheco, só o Pereira.
Os cravos haviam ser da cor dos pregos.
Cravos geneticamente modificados são pouco recomendáveis. Até mais ver.
Corredores da Assembleia da República. Dois deputados do Chega, Afonso e Rui, caminham lado a lado. Afonso ajeita freneticamente um cravo verde na lapela, tentando dar-lhe um ar “agrícola e viril”. Rui caminha ligeiramente curvado, a suar do lábio superior, enquanto tenta enfiar um livro de capa dura no bolso interior do casaco sem que ninguém note.
Afonso: (Dá uma palmada no próprio peito) Fica-me a matar, esta merda. Isto do cravo verde foi uma jogada de génio do Chefe. Os esquerdalhas do PS e do Bloco até se espumam. Limpámos a imagem da revolução, não usamos a cor dos comunas e ainda parecemos gajos da terra.
Rui: (Com a voz a tremer, a empurrar o livro mais para fundo) Sem dúvida, Afonso. Muito… campestre. Uma estética muito… arrojada.
Afonso: O que é isso que andas aí a esconder debaixo do sovaco como se fosse contrabando de tabaco? É o programa eleitoral do partido? Não precisas de ler isso, homem.
Rui: É… literatura, Afonso. Um clássico. “A Importância de Ser Ernesto”. Pensei que, já que a malta do sistema anda lá dentro a citar a Sophia e o Alegre, nós também podíamos elevar o nível.
Afonso: Ernesto? Algum autor da nossa malta? Alguém de bem?
Rui: O autor chama-se Oscar. Oscar Wilde. Tinha umas tiradas fantásticas contra a hipocrisia da sociedade…
Afonso: (Pára a meio do corredor e olha para Rui como se ele lhe tivesse acabado de oferecer uma quiche de tofu) Tu estás a gozar comigo. Tu trouxeste um livro para São Bento? Queres ser expulso da bancada parlamentar? E logo do Wilde? O que é que estiveste a beber na casa de banho?
Rui: Mas Afonso, a literatura…
Afonso: És burro ou fazes de conta para não pagar IMI? Tu sabes o que é o raio do cravo verde que tens espetado ao peito? Achas que o Chefe inventou isto no tasco entre dois traçadinhos porque lhe deu uma saudade do Sporting?
Rui: Foi… foi para não usarmos o vermelho, Afonso. O verde é a esperança, a caça, a nossa agricultura lusitana…
Afonso: O cravo verde, meu grandíssimo calhau com olhos, era a imagem de marca do teu amigo Oscar Wilde e da sua grupeta de amigos dândis lá em Londres, no século XIX. Sabes para que é que servia?
Rui: (Engole em seco, a mão a apertar o livro dentro do casaco) Para… celebrar a Primavera e a poesia?
Afonso: Era o Grindr da época vitoriana, Rui! Era o sinal secreto deles! Era como os homossexuais se identificavam uns aos outros no meio da rua sem irem presos! Andamos nós aqui armados em bastiões da moralidade, a gritar contra a ideologia de género, a defender a família tradicional e a bater no peito, e a nossa bancada inteira parece o coro do Festival da Canção.
Rui: (Olha para o próprio cravo, em pânico, com os olhos arregalados) Mas o Chefe… o Chefe disse na reunião que era uma pedrada no charco da esquerda…
Afonso: A pedrada no charco dele foi um tiro nos pés! A nossa sorte, a nossa grandíssima sorte, é que a malta do Chega não lê, e a malta de esquerda está demasiado ocupada a citar a Natália Correia para reparar no nosso outfit de drag race de trazer por casa.
Rui: (A tirar freneticamente o cravo da lapela) E agora? O que é que eu faço a isto? Eu tenho mulher e filhos, Afonso! Sou de Braga!
Afonso: (Dá uma palmada na mão de Rui, obrigando-o a largar o cravo) Deixa estar a porcaria da flor! Se a tiras agora é que dás nas vistas. Põe o cravo, esconde esse livro do demónio antes que a Rita Matias te veja e te tente fazer um exorcismo com um terço de Fátima, e caminha.
Rui: Caminhar como?
Afonso: Estufa o peito, engrossa a voz e, por amor de Deus, caminha sem rebolar. E reza para que a Iniciativa Liberal também não tenha o hábito de ler clássicos ingleses. Anda!
Do melhor.

Tal e qual! Não há coincidências! Vai-se a ver o Oscar Wilde também era frequentador de festivais de hambúrgueres…🙄🙄🙄
São uns tristes.
Tristes, mal educados, mal formados e com graves deficiências intelectuais.
Poesia é realmente o mais indicado para associar ao 25 de Abril, cujo resultado, nu e cru, foram 6 ditaduras comunistas pró-soviéticas e um PREC de 19 meses. Será defeito meu mas não consigo vislumbrar relação com a tão apregoada liberdade, que enche discursos mas não é comprovada pelos factos.
Defeito seu é opinar escondendo o nome.
Se o único defeito que encontra no meu comentário é o anonimato, declaro-me surpreendido e dou-lhe os parabéns.
Numa coisa você acertou : o defeito é seu, e é grave.
Santa, santíssima, ignorância…
Mas que isto tem muita graça, lá isso tem… O “karma” é tramado e não perdoou os imbecis…
Onde quer que esteja, Oscar Wilde deve estar exultante e não perderá, por certo, a oportunidade para gargalhar e zombar… 🙃🙃🙃
Quanto à côr verde, que é a minha preferida, além de ser linda, fica sempre muito bem, como o Pedro Correia afirma…
Quando eu lhes chamo labregos ignorantes, há quem fique consternado…
Pois que fiquem consternados, caro João Guimarães… Como dizia o outro, de quem, por acaso, nunca gostei, mas que agora sou forçada a citar: “Habituem-se!”
Eu, em privado, até lhes chamo nomes muito piores do que “labregos ignorantes”… Confesso que estas criaturas despertam em mim os instintos mais primários, quase sempre acompanhados de algum vernáculo…
Decerto Ventura e os seus próximos – e definitivamente – não sabiam destes significados atribuídos aos cravos embebidos em arsénio. Eles e, arrisco apostar, quase toda a gente. Incluindo nós, ou a grande parte de nós, que por aqui comentamos.
Foi um tiro no pé (nos pés)? Foi, decerto, e vamos ver onde vai parar o aproveitamento desse disparo por parte de entusiasmados bem-pensantes. Tem tudo para ser um festim. Uma orgia.
Não creio – não é preciso ser apoiante de Ventura para de cabeça fria o aceitar – que um político, para o ser com competência, deva ser um profundo conhecedor da literatura, meios intelectuais e hábitos de minorias sexuais da Inglaterra e França oitocentistas.
Enfim, do Chega, com ou sem significados armadilhados, foi o histrionismo esperado. Qual a ideia dos cravos verdes? Não faço ideia. E alguém espera, vinda dali, especial densidade intelectual? Não sejamos, sinceramente ou cuidadosamente iludindo-nos, ingénuos. Nada de novo, por aí.
Mal, multo mal, grosseiro de forma inadmissível, esteve o deputado Delgado, alguém que em regra – concorde-se ou não com o que pensa – usa de civilidade. E isso perante um discurso que mais não fez, e já foi muito, do que educadamente verbalizar evidências. Doem muito?
Não é de Ventura que se espera uma reserva de decência protocolar. Mas quando aqueles de quem – concorde-se ou discorde-se daquilo que defendem – afinal se esperaria tal decência, falham redondamente nessa missão pública (sim, pública) que dizer?
O CHEGA! é sportinguista?
João Barros da Costa
Não. O Chega é só uma agremiação de imbecis.
Vulgo burricada.
Exactamente, João Guimarães…
Uma cáfila. Ou duas, sendo o Chega.
Para começar, muito obrigada pela ligação ao “Literary Hub” – entre tanta oferta e o escasso tempo vão-me escapando estas pérolas.
Um belíssimo artigo, sob qualquer perspectiva, incluindo a da simples instrução, começando logo pela minha. Portanto, merecedor de tradução, sem dúvida; e então de “tradução táctica” nem se fala.
E estou certa de que o “crânio ideológico” que se lembrou do boçal achincalho também agradece, porque o saber não ocupa lugar; sobretudo em gente tão oca e desprovida, que só pelo aldrabar, rebaixar e empeçonhar consegue fazer prova de existência.
Naquele fundo pouco profundo em que enxurdam, não passam afinal de uns coitados cansativos, sem nada de novo ou mesmo de recauchutado que seja para apresentar como seu. Restam-lhes estas alarvidades deletérias e a gritaria constante como “mensagem ideológica”.
Bem triste ficaria eu se aparecessem de cravo vermelho ao peito. Já o verde venenoso até lhes cai muito bem, pelo veneno e pelo vazio, por não significar rigorosamente nada (como diria Oscar Wilde).
Nem mais, cara ZEBRA, aquela bancada não deixa de nos surpreender pela negativa.
Como diria o meu velho pai, cada tiro, cada melro.