Os velhos à espera da morte


Pedro Correia,

 

Os velhos portugueses. Encontro-os solitários, sentados em bancos de jardins ou nas soleiras das portas De olhar errante e vago. Mudos e quedos, parecem fixar um horizonte que já não lhes pertence enquanto se alimentam de memórias. Jamais os vejo com um livro, sequer com um jornal – talvez alguns deles não saibam ler. Outros, mais gregários, jogam à bisca ou empinam copos nas tabernas. Mas os solitários – e são tantos – parecem não se entreter com nada. Sempre de olhar perdido no infinito. Passam velhos de outros países, que chegam em turismo de grande algazarra: os velhos portugueses solitários mal reparam neles. De mãos sobre os joelhos, camisa de algodão e calça de fazenda cinzenta escura, de boné sempre enterrado na cabeça, lembrarão os tempos de juventude, amores antigos, a energia já gasta? Impossível dizer: os rostos são impenetráveis.

Outros reservam a etapa final da vida para cultivarem um hobby durante muito tempo adiado, convivem, passeiam, entregam-se a actividades comunitárias. Mas estes não: limitam-se a ficar passivos, no seu melancólico banco de jardim. Como se aguardassem a todo o instante um passaporte para a eternidade.

14 comentários em “Os velhos à espera da morte”

  1. Mais bancos .. não! Por favor!
    Jà nos bastam os do “pilim” esses sim… à beira da morte!
    E o fatidigo banco do Jardim de Santo Amaro, do Pacheco Pereira ( Abrupto)
    Os bancos dos reús… vazios… por falta de comparencia de quem os devia ocupar!

    Banquinhos.. não !

    1. Ora, vejamos: `”Jà”; “fatidigo”; “reús”; “comparencia”.
      Tudo isto em apenas três linhas.
      E que tal as Novas Oportunidades?

  2. Olá, esses velhos solitários são como lobos vagueando pelo tempo que lhes resta, com as reformas tão magras que mal lhes dá para comer. Vivem tristes e no banco do jardim porque é a única viagem que o dinheiro lhes permite, são as réstias de um povo que não teve a oportunidade de evoluir e que foi calcado durante anos e anos. Quando alguém nos faz pensar que não valemos nada, por vezes acreditamos.
    Alice

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