Os ungidos, os outros e o meu voto


Paulo Sousa,

Os lisboetas são desde há muito, talvez desde sempre, uma amálgama de gente oriunda de muitos recantos do país, do finado império e do restante mundo. Está longe de ser a mais cosmopolita capital da Europa, mas é fácil concluir que será a cidade mais diversa do país.

Existe um círculo de lisboetas, nem todos alfacinhas nados, que por pisarem as alcatifas do poder interpretam-se a si próprios como tendo sido incensados por uma força superior que os distingue dos demais portugueses. Quando se tratam de lisboetas de adopção podemos dizer que num certo momento das suas vidas terão atravessado um pórtico reservado apenas aos escolhidos e afortunados. Depois desse momento, e que até poderá ter ocorrido de forma não consciente, passaram a considerar que os problemas do país se esgotam nas avenidas que percorrem e no que é noticiado pelos jornalistas lisboetas.

Para os nascidos já alfacinhas a dinâmica é diferente. Muito poucos alguma vez terão vivido na “província” que quer dizer fora da Grande Lisboa. É como se nascer e viver dentro da Grande Lisboa proporcionasse uma camada adicional de civilização e para eles isso é tão óbvio que dispensa explicação.

Recordo-me de no final dos anos 80, num qualquer intercâmbio escolar, uma turma de Lisboa (sei lá de onde, podia ser do Forte da Casa, de Oeiras ou até do Barreiro) visitou a Escola Secundária de Porto de Mós. Andaram por ali umas horas já não sei a que propósito, e alguns deles foram assistir a uma aula da minha turma. O livro dessa disciplina não tinha ilustrações coloridas. “Vejam lá que aqui os livros ainda são a preto e branco”, disparou logo o mais espigadote, para gáudio dos seus colegas. Podia ter sido bem pior, mas a piadola não gerou mais que uns levantar de sobrancelhas, uns olhares trocados entre nós, seguidos de uns encolher de ombros. Provavelmente o tipo até preferia ter ido naquele dia ao Jardim Zoológico, mas o melhor que lhe calhou foi um intercâmbio com um escola secundária na província.

De forma mais ou menos assumida, em todos os grupos do bicho humano existe a noção dos que lhe pertencem e dos que não partilham a mesma identidade e valores. Para o círculo dos ungidos de Lisboa, nados e adoptados, o poder pode ser tomado democraticamente, é óbvio, 25 de Abril sempre, blá, blá, blá, mas têm de ser por um dos seus confrades. Para os de fora, alcatrão e penas.

O ungidos toleraram Durão Barroso, José Sócrates (com a sua famoso casa na Rua Castilho) e António Costa, mas nunca perdoaram as gafes literárias nem o ligeiro sotaque algarvio de Cavaco Silva e muito menos as conferências de imprensa de Rui Rio feitas por a partir de hotéis do Porto.

Dito isto, aproveito este postal para fazer a minha declaração de voto não próximo dia 30.

Se o nosso sistema eleitoral não sofresse do centralismo que reflecte parte do que acima tentei retratar, em Portalegre a democracia seria igual à de Lisboa, mas isso não se verifica, pois, este deprimido distrito do interior elege apenas 2 deputados. Lisboa elege 48. Este tremendo desequilíbrio leva a que quem no distrito de Portalegre não tencione votar num dos dois principais partidos não valha a pena sair de casa para ir votar. A abstenção, como bem sabemos, resulta da falta de sentido democrático dos portugueses e depois de cada acto eleitoral todos os líderes partidários afirmam com ar sério que o país tem de estudar o fenómeno da abstenção e encontrar a forma de a reduzir. Já aqui postei sobre uma sugestão que reduziria este enorme desequilíbrio e aguardo que possa ser corrigido a breve prazo.

Leiria, o meu distrito, elege 10 deputados. Neste cenário, votar em qualquer partido que tenha menos de 10% das intenções dos voto, facilmente corresponderá ao desperdício desse mesmo voto. Se fosse eleitor em Lisboa ou no Porto (que elege 40 deputados) não duvidaria um segundo em votar IL. Se votasse no Porto ainda votaria com mais convicção pois saberia que estava a ajudar a que Carlos Guimarães Pinto fosse deputado. Não duvido que é de gente como ele, desempoeirada e com mundo, que repudia as fórmulas javardas do Ventura, com capacidade de argumentação e capaz de questionar o marasmo socialista, que o país precisa no Parlamento.

Tendo como cenário de fundo os últimos 20 anos de estagnação económica, a arrogância e a sobranceria com que o PS trata o país, é urgente que o poder mude de mãos. Milhões de portugueses acharão o mesmo, mas têm receio que o seu voto no PSD possa dar azo a que Ventura venha a ter uma palavra a dizer na futura fórmula governativa. Para os que, não fosse o receio do Chega, até votariam PSD, o que devem fazer é mesmo votar PSD. Cada voto adicional no PSD reduz o peso relativo do Chega. Para quem não usufrua do privilégio de ser eleitor num grande círculo eleitoral e queira interromper a hegemonia socialista não tem alternativa ao PSD.

Por tudo isto, por achar que a fricção entre os media e Rio e Rio e os media, se auto-alimentam, por achar que a grelha de exigência aplicada a Rui Rio só foi aplicada até hoje a Cavaco Silva, e apenas por este também se apresentar como vindo de fora dos ungidos, votarei no PSD.

56 comentários em “Os ungidos, os outros e o meu voto”

      1. Certo. Mas que os muitos lisboetas nascidos na província, se comportam, para com os seus conterrâneos, com ares de superioridade superior aos verdadeiros alfacinhas, é um facto. Já a inversa raramente acontece.

        1. Isso acontece porque é Lisboa que acontece tudo.
          Quando morei em Lisboa ouvi uma frase idêntica da boca de um colega de trabalho. Na altura recomendei-lhe ir viver para Londres, Berlim ou Nova Iorque, porque em Lisboa não acontece nada.

  1. Portugal rural (leia-se fora de Lisboa) é bom é para patuscadas, ver monumentos e passear nos cenários bucólicos, e participar em tardes de cantoria pimba.
    É assim que a Capital e os Capitalistas (habitantes da mesma) olham para a província. Um local pitoresco.

    https://www.dn.pt/edicao-do-dia/07-jan-2022/obras-do-ferrovia-2020-voltam-a-derrapar-para-o-final-de-2023–14469012.html

    https://www.jornaldenegocios.pt/empresas/transportes/detalhe/pedro-nuno-santos-ferrovia-2020-esta-8-concluido-e-75-em-obra

    1. É assim que a Capital e os Capitalistas (habitantes da mesma) olham para a província.

      Pois mas infelizmente também é assim que a maioria das pessoas na província olham para elas próprias.

      Ou pelo menos deixam que as autarquias passem essa imagem e muito honestamente nunca vi ninguém queixar-se. Acho que seguem aquela máxima tenebrosa de “dar ao povo o que o povo gosta”. Oferta cultural em 99,9% dos concelhos: patuscadas e artesanato, até vai lá a RTP filmar e tudo. Há mais coisas? Mostrem-nas.

      (Disclaimer: sou alfacinha de gema mas depois vivi no campo muitos anos. Defendo os dois lados e não defendo nenhum. Para mim a única verdade é que em Portugal há muito pouca massa crítica em todo o lado. Está melhor, mas não chega.)

      1. E não se esqueçam: museus só com enxadas e fatiotas do tempo do Júlio Dinis já não interessam a ninguém.

        (também só os fazem para meter lá a amante do presidente da câmara como directora e os profs da secundária levarem lá os putos para verem umas peneiras de farinha. É um tudo um big lol).

      2. Também sou nado e criado em Lisboa, numa daquelas freguesias que até participa nas marchas e tudo. Entretanto migrei para a província, já trabalhei em ambas as duas.
        Do mesmo modo que o portuga não faz a mínima do que se faz lá fora, o lisboeta não sabe o que vai para lá do pórtico da A1. Há uns tempos, uma erudita intelectual do comentário disse que os debates das legislativas foram centrados nas ciclovias, que havia outros problemas e tal… vê-se mesmo “os” debates que viu.

  2. fui o militante 29 do PSD
    um dos fundadores da 1ª secção de Lisboa
    com mais 9 estive com Sá Carneiro na noite da queda do homem do caco
    apoiei Cavaco
    desisti com o entertainer, que dissolveu a ar durante a 5ª vaca
    nos meus quase 91 vou votar no CHEGA com máscara e luvas de cirurgião

  3. Pois é, Lisboa é o poço do mal e os lisboetas o seu exercito que maltrata os não lisboetas e pelos memos é criticado e definido como o pior dos piores.
    No entanto, o que não falta são não lisboetas que de tudo abdicam, até do que nunca se deveria abdicar, para se tornarem lisboetas por adoção.

  4. Está explicado porque é que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem.
    Interessa é correr com o Costa, o substituto até pode ser um palhaço…é boa essa teoria. É como na bola, há malta que fica mais contente quando o adversário perde do que quando o próprio clube ganha.
    Lá teremos depois o portalegrense ao fim de dois anos a queixar-se e a lamentar ” mas porque é que eu não votei no desempoeirado da IL?”.

    1. A comparação com o futebol que faz é boa. Por tudo o que já perdemos com o PS (20 anos a governar sozinho em 27, como disse o nosso colega JPT no mais recente postal) importa votar PS porque os outros são… quer dizer não são PS.

      1. Os números são o que são. O PS governou 20 anos em 27 diz você. Eu digo que o PS governou 20 anos em 47. Alguém governou os outros 27 anos, sabe quem foi?
        É engraçado como uma “bazuca” pode toldar a memória.
        Perece que está a esquecer o bloqueio da ponte ou o “que se lixe a troika ” ou o aplicar a austeridade em dobro ou a confissão do fiasco pelo Gaspar ou o Irrevogável Portas, ou o buraco BPN ou as acções com 120% de juros sem estarem cotadas em bolsa…enfim tudo bons exemplos alternativos.

  5. Se o país é um território julgo que seria notável dividir o número de eleitos pelo território e não pelos habitantes… Muita coisa mudaria.

    1. Um círculo único nacional, como funciona na Holanda (não sei o quê baixos, não me recordo) e em Israel, tem outras consequências. O que é sugerido pela Sedes (link no postal) é um sistema misto próximo do que funciona na Alemanha. Parece ser uma óptima evolução.

      1. O sistema misto alemão é muito complicado para a cabeça de um eleitor português típico. Ademais, pode conduzir a duas consequências indesejáveis. A primeira, já atualmente observada na Alemanha, é um crescimento desmesurado do número de deputados, à medida que o número de deputados individualmente eleitos vai aumentando de forma desacompanhada das votações dos partidos a que pertencem. A segunda é que se gasta mais dinheiro nas campanhas eleitorais, pois não são somente os partidos mas também os candidatos individuais quem tem que se dar a conhecer.
        A reforma dos círculos eleitorais pode (e deve) avançar sem que se introduza esse complicado sistema misto.

        1. O Salazar também achava que a democracia era muito complicada para o triste povo que ele apascentava.
          Perdoe-me a indiscrição, o balio é lisboeta de nascimento ou de adopção?

          1. o balio é lisboeta de nascimento ou de adopção?

            A minha morada fixa foi sempre em Lisboa, mas vivi longos períodos de férias quer nos arredores do Porto (de onde a minha mãe era natural) quer numa zona rural da Bairrada (de onde o meu pai era natural). Atualmente já pouco vou ao Porto (que é onde nasci), mas ainda vou com frequência à Bairrada.

  6. Também sou eleitor de província e também equacionei votar PSD até que este recusou a pré-aliança com o CDS. Isto disse-me duas coisas:
    Primeiro que o conselho nacional do PSD (escolhido practicamente por Rio) por motivos não clarificados, recusou as vantagens matemáticas do método de Hondt e as políticas de uma reedição da AD, .
    Segundo que, recusando um pré-acordo à direita, ficaram totalmente livres para qualquer arranjo à esquerda, tenham ou não mais votos do que o PS.
    Isto não me inspira qualquer confiança. Ví o PSD a votar frequentemente al lado do PS, vi o forte desejo de Rio de se entender com A.Costa e, sobretudo, vi a miserável partilha das CCDR cozinhada por ambos.
    Sendo inúteis no meu distrito os votos no CDS ou na IL, ainda hesito entre a abstenção – que me era habitual – e o Chega mas os debates a que assisti inclinam-me para este último. Não pelas prestações de AV mas porque, ficando claro que ninguém o quer a governar ou sequer como aliado, resta o papel que o partido dos Le Pen teve em França: nunca exerceu o poder mas, assustados pelo seu crescimento eleitoral, os partidos de direita e até do centro, foram adoptando alguma das suas bandeiras e hoje a disputa é entre o centro e a direita, estando a esquerda relegada a, no máximo, poder apoiar Macron numa segunda volta.

    1. Rio abre a porta a entendimentos com o PS por achar, como quase todo o país, que são necessárias reformas daquelas que exigem 2/3 do parlamento. Haverá quem veja nessa abertura ao diálogo um ponto fraco da sua candidatura, mas eu acho que isso mostra razoabilidade.

      1. A malta não gosta de mansos. Quer é quem fale grosso, tipo a Catarina e as suas linhas vermelhas. Que o Costa se divertiu a pisar durante 4 anos, enquanto ela baixava a garimpa e fingia fazer oposição suave.

      2. Exactamente o raciocínio dos católicos do Zentrumpartei quando viabilizaram o governo de Hitler.

        Acredita mesmo que, por exemplo, Rio pode persuadir Costa a fazer resignar o procurador europeu para poupar uma vergonha e um processo contra Portugal? Ou que Costa apoiará Rio numa eventual reforma do ensino contra as manifestações da Fenprof?

        Tudo o que Rio pode obter de Costa é uma futura repartição do bolo como aconteceu nas CCDR. Quer Costa PM e Rio vice ou vice-versa, na práctica Costa vai comer Rio ao pequeno-almoço, engoli-lo, digeri-lo e vomitá-lo sem nunca perder o sorriso nem os aplausos da comunicação social.

  7. Correcto, mas a abstenção continurá a vencer o acto eleitoral de este mês e com maioria absoluta.
    Dos dois partidos mantêm-se potencialmente pré-ungidos
    Um dos protagonistas partidários apresenta como programa “mater a estabilidade”!, como se 6 anos de aumento da dívida soberana e redução do PIB fossem estabilidade e grande argumento eleitoral. Daaaa!.
    O outro, não tendo a tão necessária arte de mentir, limita-se a tentar demonstrar a realidade o que nem para animar as respectivas hostes dá.
    E assim vai este ex-País.

  8. É sem dúvida certeiro aquilo que escreve quanto ao peso desmedido (real ou percepcionado) de Lisboa e quanto ao sistema eleitoral por cá vigente. Creio apenas que esses são temas suficientemente importantes para merecer discussão e acção – embora saibamos que uma e outra não são convenientes para o poder nem verdadeiramente interessam ao eleitor – em si mesmos, sem necessitar do tremendo argumento “alerta que vem aí o Chega!” para lhes conferir tal dignidade.
    Socorrer-se-á de fórmulas javardas, Ventura, aceite-se. E andará rodeado de gente não exactamente credora de confiança. Mas fórmulas javardas e gente não exactamente credora de confiança quanto aos seus pergaminhos democráticos (e uso linguagem contida), há longos anos escutadas e suportadas, já sem um verdadeiro estremecimento, tal o hábito e a impunidade, e que se manifestam enquanto orgulhosas herdeiras de ideias e sistemas que reiterada e estrondosamente fracassaram, mataram milhões, impenitentemente atentaram contra valores que tomamos como sagrados e servem-se desses valores como plataforma para, podendo algum dia, acabar com eles, conhecemos nós em abundância. Vivem entre nós com plena legitimidade (democrática, ainda por cima) e respaldo legal.
    Chamamos-lhes “partidos de protesto”, que aceitamos como algo inevitável numa sociedade democrática (talvez enobrecendo-a até, ao aceitar no seu seio quem no fundo lhe tem repugnância), operando mesmo e por vezes como espécie de grilinhos falantes, de vozes da consciência. “Partidos de protesto”, chama-se-lhes. De esquerda, claro. E seguimos as nossas vidas, sem mais pensar nisso.
    Agora há um de direita. Mera reciprocidade, dir-se-ia. Com tanta legitimidade como os outros. É capaz mesmo de vir a influenciar o poder. É… Os de esquerda fazem-no há uns bons anos já. E não tocaram os sinos a rebate (quem sabe deveriam ter tocado). E chegámos onde estamos.
    Talvez fosse bom gritar menos “horror, vêm aí o Chega e o Ventura!” e em lugar disso evitar chegar ao ponto em que chegas e venturas começam a ganhar força. Talvez fosse bom que quem de direito e responsabilidade, pastoreando-nos décadas e décadas, se perguntasse como deixou as coisas chegar a este ponto (e ser por isso responsabilizado, nem que apenas politicamente).
    De resto, Chega e Ventura, lamentáveis ou não, assustadores ou não, são questões de reciprocidade, de equílibrio, de exercício de democracia. Chegámos aqui, desgraçadamente.
    E não foram nem o Chega nem o Ventura que aqui nos trouxeram.

    1. Havia, não sei ainda há, uns publicitários, vulgos vendedores de banha de cobra, que traziam dentro duma mala um monte de cartas num elástico e sempre liam uma que elogiava o xarope pra bexiga.
      Por incrível que pareça o Ventura do Chega, ou o Chega do Ventura, ninguém mais aparece a dizer o que seja, exceptuando umas tiradas no Congresso, parece um publicitário, dizem que do calcitrim evangélico, a apresentar um xarope para castrar, e também lendo uns recortes de notícias sobre o que toda a gente já sabe, para vender o seu xarope.
      Sobre o beneficio do xarope nunca se soube se fazia bem ou mal à bexigo ou se seria aplicado na castração em geral de pedófilos activos ou passivos e como seria com as pedófilas.
      Agora dizer ir votar num Chega destes, há outros por vários países da Europa e não só, o da Itália teve e ser corrido, com a mesma “mala de cartas” e o mesmo xarope, é falta de inteligência. O calcitrim Ventura não apresenta uma única ideia para o País, ele apresenta e logo a seguir diz que não vai ser assim ‘está no programa mas não será assim, pois mas depois haverá mais estudos’ e não sai desta treta. É o que tem escolher populistas, nos outros países também, comentadores de futebol, artistas bem falantes, palhacinhos, à frente de forças escondidas que apenas querem achincalhar para se safar das dívidas. O calcitrim Ventura foi da Autoridade Tributária (Finanças) interrompeu com licença e formou uma empresa de consultadoria em offshores.
      O antigo vendedor de banha de cobra quando alguém de passagem dizia ‘vai embora ó aldabrão’ ele respondia ‘aquele tem problemas com a mulher’, e continuava a publicitar o xarope pra bexiga, que quem tivesse com atenção via ser comprado pela mesma pessoa várias vezes. Grande semelhança com o calcitrim do Ventura.

      1. Quanto a si, caro anónimo, nada sei. Em todo o caso, Calcitrim é coisa que ainda não gasto. Nem isso, nem maravilhosas pantufas, confortabilíssimas poltronas plenas de tecnologia, miraculosos aparelhos auditivos ou geniais artefactos afins. Tudo isso absolutamente indispensável para uma velhice confortável. Não faltam muitos anos para que integre esse “grupo-alvo”, mas ainda não cheguei lá e quando chegar espero sinceramente ser dotado de suficiente razão para não cair em dispendiosas patranhas mesmo que em suaves prestações; ou, faltando-me a razão, ter junto de mim quem possa controlar os disparates a que me empurre a senilidade às mãos de quem dela faz negócio (isto admitindo – premissa algo arrojada – que terei fundos com que correr o risco de os desbaratar nessas coisas). E quanto a xarope, só mesmo para a ocasional e benigna tosse de uma constipação; e desses vendidos em farmácia.
        Creio ter percebido do seu texto (que suponho tenha sido um admirável exercício de humor, mesmo que amargo, mas perante o qual me falta manifestamente a sofisticação intelectual requerida para o saber interpretar e apreciar) que V. presumirá que votarei no Chega. Nada, lamento, naquilo que escrevi, o autoriza com honestidade a tanto. A coisa, sabendo eu muito bem em quem não votarei, está por mim em aberto.
        O que pretendi notar no meu comentário acima é simples:

        – que a questão do sistema eleitoral português merece de facto ser discutida, mais não seja pelas distorções que potencia, embora duvide que o poder (o de turno e o que ambiciona estar de turno) tenha nisso interesse e menos ainda tenha nisso interesse um Soberano, o povo, que quer é que o dispensem do incómodo de pensar e o deixem entregue às sua mediocridade que nem sequer é áurea, composta de futebol, das curvas anatómicas da namorada do craque da bola, da salivante inveja dos copiosamente exibidos devaneios milionários do craque da bola e da “soft porn” diligentemente servida pelos “reality shows”;
        – que, muito que isso nos aborreça, se há entre nós uma infinita tolerância pelo populismo de esquerda (para quem, como se sabe e é afirmado com solene gravidade, tudo se resolveria confiscando a fortuna dos ricos) e para o seu propagandear de ideias que a História revelou como assassinas infrenes e figadais inimigas da liberdade, então é forçoso, em nome desse valor a que chamamos democracia, da liberdade de pensamento e expressão, que se aceite entre nós, querendo manifestar-se, o populismo que é recíproco desse de esquerda. Será mesmo uma grande chatice, mas a coerência e a honestidade assim no-lo deveriam impor;
        – que, isto assente (mas decerto não o será para si), mais do que desconsiderar liminarmente esse populismo de direita e o potencial de sucesso político que encerre, mais do que tomar quem a ele adira como “deploráveis” (os tais “deploráveis” pelo juízo de certa importante senhora) fatalmente estúpidos e irredimivelmente indignos de estar vivos numa sociedade iluminada pela razão, melhor fariam os partidos e os políticos “tradicionais” que de há muito nos governam, ou fazem coisa formalmente equiparável a isso, em honestamente se interrogarem sobre o que nos trouxe até um ponto em que esse populismo de direita floresce (e o de esquerda persiste). Porque o que quer que seja que nos tenha feito chegar a este ponto será necessariamente fruto da sua já longa e extremosa acção “governativa”, e aceita-se geralmente não ser a maior demonstração de inteligência isso de esperar resultado diferente da teimosa repetição dos mesmos actos.

        De modo que, já agora, afastado o voto na IL, por razões longas de explicar e que não vêm ao caso, algo me diz que – uma vez mais – lá vou rabiscar um disparate qualquer no boletim de voto, para o inutilizar. É que, muito honestamente, temo o que lhe possam fazer se o deixar um branco. Mas é como escrevi acima: a coisa ainda está em aberto.

  9. São precisos menos votos de protalegrenses para eleger um deputado do que votos de lisboetas.
    Para conseguir eleger alguém da IL basta que muitos eleitores votem na IL, não é preciso mudar de casa. O mesmo se aplica a todos os partidos. O facto de pouca gente em Portalegre estar disposta a deixar de votar noutros partidos para votar na IL é que deveria ser motivo de reflexão, não o tamanho círculo.
    Nunca lhe ocorreu que se toda a gente que vota num determinado partido tiver a atitude de dizer “não voto porque não serve de nada” não vale a pena o partido existir, vai perder sempre.
    Cavaco Silva não era desprezado por ser um tacanho de província, era desprezado por ser um tacanho com a boca cheia de bolo rei, sem nenhuma empatia pelos outros – veja-se o caso da reforma, em que se queixava que 10000€ era pouco para ele, ao mesmo tempo que defendia a diminuição das reformas da generalidade dos portugueses. Quanto a Rui Rio é desprezado dentro do PSD, não por ser da província mas por ser presidente da agremiação – é algo que vem com o cargo no PPD-PSD.
    Ser da província tem a vantagem de ser uma boa desculpa quando se falha.

    1. Já me tinha esquecido desse episódio da boca cheia de bolo rei. No filtro dos ungidos passa sim senhor o eng Sócrates, mas um algarvio a comer bolo rei… nem pensar.
      Sobre a representatividade eleitoral, no link do postal encontra uma sugestão que resolve as limitações eleitorais dos distritos pouco povoados.

      1. Equece-se do que não lhe convém para manter a narrativa. É natural, todos o fazemos.
        Parece que é proibido falar em Cavaco sem falar em Sócrates, como se Sócrates tivesse tido boa imprensa no fim do governo quando a sua influência estava a diminuir.
        Fugir a uma pergunta atafulhando a boca de bolo rei é uma atitude de bronco, de norte a sul do país, ilhas incluídas. Fugir do governo e da direção do partido quando a situaçao está a virar, deixando outro a apanhar os cacos, é uma atitude de Cavaco, atacar um primeiro ministro do próprio partido para ter ganhos de popularidade, como no caso da má moeda, é uma atitude de Cavaco, fugir de uma manifestação de estudantes do secundário é uma atitude de Cavaco, pendurar uma bandeira nacional de pernas para o ar à frente de toda a gente, deixa-la lá, e ir-se embora foi uma atitude de Cavaco,

        1. Lembrar-se-á que a primeira vez que se falou no caso Freeport foi nas eleições que Sócrates disputou com Santana Lopes. O que resultou disso foi que o PSD estava desesperado e inventou um caso. Mais tarde foi a procuradoria britânica que pegou no assunto atrás de corrupção. Quanto milhões foram furtados ao país nesse e nos outros casos conhecidos? Quais os danos que os portugueses sofrera com a falência em que o PS de Sócrates nos colocou? Para além da maioria dos actuais ministros já o terem sido nesse temo, quais as consequências que o PS retirou de tudo isso? Quais os danos para o país de todas as várias palermices do Cavaco? Quer comparar o que não é comparável? O PSD tem menos pecadilhos também porque esteve menos tempo do governo, mas Cavaco, tal como Rio com as suas frequentes aselhices pecam acima de tudo por uma coisa: Não são da elite lisboeta e, pior que isso, não aspiram a sê-lo.

          1. Digo-lhe que Cavaco não é desprezado por ser da província mas por ser pouco esperto, responde-me que Sócrates é um ladrão. Se Sócrates não fosse ladrão Cavaco já era bronco?
            Faz as suas avaliações por comparação?
            Tem de ver se encontra outro argumento.
            Sócrates será um ladrão, mas isso não quer dizer que teve boa imprensa. Só alguém que não andou por cá pode achar que a imprensa de Lisboa protegeu Sócrates. Ou então só lêm jornais da parvónia.

  10. Pois eu, como Alfacinha, gostaria de ver o país governado a partir de uma outra cidade portuguesa.
    Poderia ser Portalegre, Bragança, Idanha-a-Nova, apostaria numa cidade do interior para realojar o parlamento, e as nossa “cortes”, e arejar Lisboa da gente infecta e de jogos florentinos que empesta o ar desta cidade.
    Poderão desamparar a loja alegremente sejam estes Alfacinhas, Lisboetas de adopção, ou de qualquer outra paragem.

  11. O perigo do sistema eleitoral alemão vê-se em personalidades como Joacine Katar Moreira ou Gonçalo Ribeiro Teles. São pessoas que facilmente são eleitas por elas mesmas, mesmo que pertençam a partidos minúsculos (ou então, que se integrem num partido minúsculo qualquer somente para poderem concorrer). Com um sistema eleitoral do tipo alemão, facilmente o parlamento ficaria com muitos deputados assim, eleitos em nome próprio, e em breve teríamos, em vez de 230 deputados, 250 a 300. Um tipo como o André Ventura facilmente se faria eleger mesmo sem ter que fundar um partido nem escrever um programa eleitoral minimamente consistente.

    1. O balio entendeu as ameaças de um sistema eleitoral como o alemão e acha que o nosso é muito melhor. Acha que num sistema como o alemão poderíamos ter uma Joacine Katar e um Ventura na Assembleia, o que seria grave.
      Quem é esse Ribeiro Teles?

    2. Se houver duzentos deputados, cem eleitos de forma proporcional, no todo nacional ou por distrito, e outros cem nos respectivos círculos uninominais, em que é que isso vai aumentar os deputados? Outra coisa que me causa espécie é comparar Joacine com Ribeiro Telles. Houvesse muitos deputados como este último.

  12. Querer correr com este governo e ao mesmo tempo apoiar a discriminação entre os alfacinhas e os restantes portugueses não será uma contradição?
    Estamos há dois anos a sofrer o maior ataque às liberdades individuais. Estamos há dois anos a sofrer o maior ataque à democracia. Mas pelos vistos isto não o incomoda, só o incomoda é ser o PS a governar. Então e se lá estivesse o PSD ou o partido que você gosta, a governar há quase dois anos em estado de emergência?será que também ficava calado em relação a estas injustiças?ou o seu problema é só contra os alfacinhas serem uns privilegiados?

    1. Dois anos de estado de emergência? Não, o problema são mesmo 20 anos de estagnação, uma maioria absoluta que resultou na 3ª falência do país em 30 anos, e todas pela mão do mesmo partido. Se tivesse sido o PSD a fazer coisas com essa gravidade merecia ser punido por isso. Mas como foi o PS… pobre país.

      1. É incrível como passado tanto tempo do holocausto ainda haja pessoas que concordem com a discriminação e segregação do seu semelhante.
        É incrível como o efeito de halo consegue branquear os maiores cancros da governação pós 25 de Abril.
        Concordo consigo o PS não é flor que se cheire, mas no quadro actual quem é que você tem melhor? É o PSD que apoia o führer da Madeira ou o PSD que apoia o governo com o chega nos Açores ou o PSD do Continente que ainda nem programa tem?
        Ou votamos noutro partido qualquer e vamos a eleições a cada seis meses?
        Não será melhor resolvermos primeiro o problema da discriminação entre os portugueses, lutar para repor a liberdade e a democracia e só depois, sem chantagens morais nem juízos de valor, votar em consciência num governo capaz?
        Ou será que os portugueses são assim tão estúpidos que necessitem de um paizinho para lhes dizer como devem respirar e qual a distância a que devem estar dos outros meninos?

        1. Propõe então suspendemos a escolha de um governo capaz, até que porque nunca seria seria uma escolha em consciência, e depois, apenas apenas depois de “resolvermos primeiro o problema da discriminação entre os portugueses, lutar para repor a liberdade e a democracia e só depois, sem chantagens morais nem juízos de valor”.
          Entendi o seu ponto.

          1. Não, não entendeu o meu ponto.
            Eu não disse para suspendermos a escolha de um governo capaz, o que eu disse é que neste momento não há, em alternativa, um governo capaz.
            Mas como você gosta de pôr as coisas ao contrário, eu faço-lhe a pergunta também ao contrário. Neste momento qual é o partido ou a coligação que pode garantir uma governação capaz e que não nos obrigue a ir a eleições daqui a seis meses?

  13. Bom post. Partilho da sua visão. Deveria haver uma forma mais justa de fazer a distribuição dos deputados, quando existem grandes discrepâncias de densidade populacional. Os concelhos foram perdendo imensa influência juntamente com a população.
    O meu voto (em Lisboa) vai sem dúvida para a IL. Se o Paulo Rangel tivesse ganho as eleições do PSD poderia eventualmente votar PSD.
    Quanto ao Rui Rio, só tem uma qualidade inestimável: não é o António Costa. Não é coisa pouca, mas não chega para ganhar o meu voto. Não tenho dúvidas que seria muito melhor primeiro ministro que o actual detentor do cargo. Pelo menos não seria tão despudoradamente mau. Não parece ter nenhuma ideia de como mudar o país, mas parece estar várias ordens de grandeza acima deste bando do PS em seriedade e integridade. O que, diga-se de passagem, não é difícil. Ainda assim, estou grata por não precisar de votar no PSD de Rio.

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