Os tugas (23)


Pedro Correia,

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As marquises. As eternas marquises. As inevitáveis marquises. As inenarráveis marquises lusas. Mal “compra uma casa” (quer dizer, mal se endivida até ao tutano a uma entidade bancária para adquirir um T-2 que três décadas mais tarde será propriedade sua se Deus quiser), Chico dos Anzóis fecha a varanda.

Fecha as duas varandas, se as houver.

Fica com uma marquise – ou com um par de marquises. Para evitar as “correntes de ar”. Para evitar o sol “abrasador”. Para depositar a enferrujada bicicleta que não voltará a ter selim, uns cacos velhos, três vasos com sardinheiras e uma quantidade infindável de pó doméstico.

 

Chico dos Anzóis desce à rua em fato de treino com o emblema do Benfica, de braço dado com a sua Maria Jaquina, rumando ao carro estacionado em cima do passeio que os transportará ao centro comercial.

Levantam ambos os olhos para o andar onde residem. Enlevados. Orgulhosos da sua marquise com os reposteiros corridos para evitar que a indiscreta vizinhança deite os olhos aos vasos de sardinheiras e à colecção de cacos. Marquise em vidro fosco, igual às outras marquises todas da rua, do bairro, da povoação.

Da Tugalândia em geral.

 

País de marquises. Inimigo das varandas, da aragem e do sol. É bem-feito que a chuva volte hoje a cair de norte a sul.

27 comentários em “Os tugas (23)”

  1. Qual é a mulher que não gosta de fazer amor numa marquise? Resposta: todas as mulheres têm fetiches com marquises, por isso o Zé dos Anzóis, que não é nenhum mono, sabe o custo da poda e como agradar a sua Maria Jaquina.

    1. “Qual é a mulher que não gosta de fazer amor numa marquise?”
      Não me lembro de ter respondido a esse inquérito. Nem tão-pouco ter sido consultada.
      Mas já que se fala no assunto, que é como quem diz, com as mãos na massa, não estou a ver muito bem que prazer uma mulher possa desfrutar a fazer amor numa marquise apertada de um T2 minúsculo atafulhada de bicicletas enferrujadas e vasos de sardinheiras murchas e de outras decadentes velharias de semelhante ou parecido teor.

      1. Breve comentário só para dizer que estes comentários me fizeram rir e adorei o sentido de humor dos comentadores
        (no nosso T2 não fizemos uma marquise da única varanda, mas lembro com saudades as marquise do apartamento dos meus avós na Av. Duque d´Avila, um era uma espécie de escritório do meu avô com livros e discos e o outro um prolongamento da cozinha, os dois virados para pátio interior de onde se viam outros prédios)

        1. E eu a inveja que senti do quarto de uma colega mais “abonada”, feito numa marquise toda envidraçada, cheio de luz e de sol, no toutiço de um prédio na Av. Estados Unidos da América, em Lisboa… Os irmãos, todos rapazes, partilhavam quartos; a ela calhara-lhe a varanda remodelada em marquise, com móveis “estúdio” feitos à medida, estantes e armários e cacifos até ao tecto, um mundinho feminino, original, rectangular e luminoso.

          É a pobreza que torna tudo feio, até as marquises.

    1. “Era taxar um adicional-especial do IMI “
      Não é a primeira vez que ouço esta. E admiro a capacidade dos nossos cidadãos para imaginar novas maneiras de tirar dinheiro do nosso bolso. Outro exemplo muito interessante: já há o imposto único de circulação. Pois já li quem defina um imposto único de estacionamento. Quer estacione, quer circule pago por existir. Criatividade não falta.
      Fecham-se as marquises porque as pessoas querem espaço útil. No meu caso (moro num primeiro andar) fechei as marquises por duas razões essenciais: proteger-me do ruído insuportável e poder dormir. A outra razão é a segurança: acho que num andar tão baixo o fecho (com vidro à prova de bala) diminui a possibilidade de um assalto. Enquanto tiver dinheiro, pagarei tudo. Quando acabar … não pagarei. Ou talvez invente novas maneiras de extrair dinheiro a quem o tem, sei lá.

      1. Realmente, meter vidro à prova de bala numa caixilharia de alumínio diminui mesmo a possibilidade de um assalto. O assaltante não consegue parar de rir.

        1. “O assaltante não consegue parar de rir. ” É verdade. Há assaltantes que apesar de criminosos têm muito sentido de humor. Sobretudo os carteiristas riem muito e acham muito divertida a actividade. Há uns tempos um ficou muito espantado porque numa tentativa de assalto bateu no meu vidro com uma espécie de marreta e não…partiu. O homem ficou de boca aberta. E riu. Depois a contas com a polícia não sei se riu ou chorou.

    2. E as câmaras podiam fazer mais jantaradas ou, caso sejam lideradas, pelo Chega, pagar 280000 euros, a um (1!!!!!) influencer, para ir falar, aos jovens, do concelho, sobre… ser influencer digital a 600km de distância dali?

    3. É espantosa a facilidade que certas pessoas têm para num ápice resolverem todos os problemas que não lhes dizem particularmente respeito. Taxa-se e pronto!

  2. Chico dos Anzóis e Maria Jaquina, resplandecentes nos seus fatos de treino domingueiros (ele com a águia do Benfica ao peito, ela com um padrão leopardo de feira), preparam-se para entrar no seu próprio carro estrategicamente estacionado com as quatro rodas em cima do passeio. É a ordem natural das coisas na Tugalândia.

    Chico vira-se para trás, suspirando de orgulho ao admirar o terceiro andar esquerdo. Lá está ela. A sua nova marquise em alumínio anodizado e vidro fosco, uma ode à claustrofobia, guardiã de uma bicicleta ferrugenta e três vasos de sardinheiras.

    De repente, uma figura fardada com uma prancheta na mão e um olhar de carneiro mal morto bloqueia-lhes o caminho.

    Fiscal: Senhor Francisco dos Anzóis?

    Chico: (Apalpando os bolsos, num reflexo condicionado de quem deve dinheiro a alguém) Depende de quem pergunta.

    Fiscal: Câmara Municipal. Departamento de Fiscalização Urbanística. É sobre aquele caixote de alumínio que o senhor pendurou na fachada do prédio como se fosse uma gaiola.

    Chico: Gaiola?! Ó meu amigo, não me falte ao respeito que a casa é minha, paguei-a com o meu suor! E aquilo é uma marquise de vidro duplo, que me custou os olhos da cara!

    Fiscal: Vamos por partes, senhor Francisco. Primeiro, a casa não é sua, é da Caixa Geral de Depósitos até 2056. Segundo, aquela aberração arquitetónica corta a respiração a qualquer pessoa com o mínimo de bom gosto. Terceiro, vai ter mesmo que deitar isso abaixo.

    Maria Jaquina: (Puxando os colarinhos do fato de treino) Deitar abaixo?! Mas o senhor está com os copos, ou quê?! Então a gente fechou aquilo para não entrar o pó de África e para eu secar as cuecas do meu Chico à vontade, e agora vem o senhor mandar demolir?

    Fiscal: Minha senhora, eu lamento profundamente a exposição das roupas íntimas do seu marido, mas o Plano Diretor Municipal não prevê a criação de estufas ilegais para secagem de roupa interior. O senhor Francisco alterou a fachada do edifício sem licença.

    Chico: Sem licença?! Ó chefe, olhe para o fim da rua! Olhe ali para o prédio do presidente da junta! É tudo marquises! Até as marquises têm marquises lá dentro! O país é feito disto!

    Fiscal: (Com um sorriso letal, anotando na prancheta) É verdade, senhor Francisco. Mas olhe, teve azar, calhou-lhe a si. E o senhor tem 30 dias para deitar abaixo. Caso contrário, a Câmara manda cá uma equipa de demolição ao preço da hora de um neurocirurgião no privado. Por favor, senhor Francisco. Assine aqui a notificação.

    Chico: (Recuando, ofendido na sua honra) Não assino nada! O meu primo está a estudar Direito na Lusófona! Já vai no segundo ano, pelo menos na cadeira de História do Direito, que ele o resto ainda não fez! E meto uma providência cautelar no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem!

    Fiscal: Óptimo. Faz muito bem. Bom fim de semana. E cuidado para não tropeçarem nos peões quando saírem com o carro do passeio.

    O fiscal vira costas. Chico dos Anzóis e Maria Jaquina entram no Nissan. O ambiente é de luto pesado.

    Chico: (Liga os limpa-para-brisas por engano, de nervos) F***-se, Jaquina…agora só nos safamos se o arquiteto da Câmara for do Benfica. Lembra-me de ir comprar duas grades de Super Bock para lhe levar na segunda-feira.

    O Nissan arranca, rasando a canela de uma velhota. A marquise lá no alto, em alumínio champanhe, chora gotas de condensação. A tragédia portuguesa está consumada.

  3. «A Vereda da Sardinheira é um trecho específico da Etapa 2 do Caminho de Santiago em Nisa, localizada no concelho de Nisa, no distrito de Portalegre

  4. Marquise, nem é problema… problema é os que fazem, a marquise, deitam 2 paredes, abaixo, para alargarem quarto/sala, e aparecem, a queixar-se, que as paredes, laterais, não passam 2 anos, sem abrir fendas, e que a culpa, só pode ser, dos vizinhos, de cima…

  5. Muito bom. Abomino marquises. Pois, a chuva não veio pelo menos aqui em Lisboa. Cada ano se nota mais a poluição.Fazia falta uma boa chuvada.

    1. Muito bom o quê, Teresa? Pagar mais taxas? Não construir marquises? Construí-las e fechá-las? Ou deixá-las abertas? Abertas são inúteis. O tempo de passar uns momentos à janela já se foi. Isso era nas aldeias quando só havia rés do chão ou um piso. Até se namorava à janela. Hoje, abertas são completamente inúteis. Ou se fecham ou não se constroem.

  6. Com o preço do metro quadrado a quase 2.500 euros (em média claro), qualquer metro a mais faz jeito. O que não dá jeito nenhum é pagar 400.000 euros pelo T2, com paredes tão finas que o som do peido chega ao vizinho à velocidade da luz, (o dinheiro do cimento ficou no bolso do construtor, e o dinheiro dos juros de 30 anos serviu para o sr. Director geral do banco comprar o Aston Martin. Pode até ter estética, não tem é moral nenhuma. Se as marquises incomodam muita gente, então os parquímetros incomodam muito mais. Com os carros e o imposto mais caros da Europa, e com a gasolina ao preço que está, mais vale ficar mesmo na marquise …

  7. Mais uma entrada de excelência neste tópico
    A capacidade de auto-crítica é crucial na evolução da sociedade.

  8. Estava a ver porque raio é que o Chico dos Anzóis, teria de ter um fato de treino com o emblema do Benfica. Será que é só porque o Pedro não gosta do Benfica?
    Mas depois percebi, Chico dos Anzóis é, como ilustre representante do país, “inimigo das varandas”.
    Faz sentido pelo menos não ter o do Sporting.

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