
Casal de meia-idade. Vêm do supermercado. Ele à frente, ela atrás. Ele de mãos nas algibeiras e palito na boca, ela segurando quatro sacos carregados de compras.
Às tantas, um dos sacos escorrega-lhe e cai no chão.
Logo ele:
– Caralho! Estás sempre a deixar cair essa merda.
Logo ela:
– Caralho! Porque é que não os levas tu?
E lá seguem ambos, a resmungar entre dentes. Ela atrás, com os sacos. Ele à frente, de mãos nos bolsos. Inseparáveis.

Eis a superioridade europeia sobre a árabe. Se árabes muçulmanos, ela iria 5 passos atrás.
Depois da primeira guerra do Golfo (Kuwait), uma visitante americana reparou que agora às mulheres iam 5 passos à frente. Virou-se para a sua anfitriã local e perguntou:
“A que se deve este grande avanço civilizacional?”
“Minas …”
Certeiro, Pedro Correia. É a proverbial cortesia e delicada consideração do macho tuga pela burra carregadora a quem muitos alcunham de esposa.
E que é cuidadosamente escolhida depois de apurada e minuciosa avaliação da sua capacidade e disponibilidade para ser a mula da cooperativa do altar doméstico. Se calhar aceitam porque viram as mães a fazer igual.
A cena fez me lembrar o que via em França em dias de mercado, ali numa zona bem arabizada: os sultões sentados nas esplanadas, a olhar descaradamente pernas e decotes franceses, e elas a alapar com cestos e sacos e crianças, e o que mais fosse. Se calhar, é para aí que vamos.
Gosto muito dessa expressão burra de carga. Amanhã a minha Maria vai carregar os sacos com as minhas garrafas de vinho. Se as outras fazem então não há desculpas, ela tem caparro para isso.
A família típica portuguesa perfeita e conhecedora dos benefícios do alho.
O segurança, decide intervir. Descola-se da ombreira da porta com a agilidade de um cágado com ciática e aborda o nosso herói do palito.
Segurança: — Cavalheiro, peço desculpa. Importa-se de parar um segundo? É que lhe queria manifestar a minha admiração.
O Homem: — O que é que foi? Não vês que estamos com pressa?
Segurança: — Ah, peço imensa desculpa. É que fiquei fascinado com a sua técnica de liderança. O senhor a abrir caminho com o palito para a senhora que vem atrás, carregada que nem um burro.
O Homem: — E então? São só sacos. Qual é o problema? Ela aguenta.
Segurança: — Claro. Eu por acaso também notei que, quando o saco caiu, o senhor soltou logo um “caralho” pedagógico. Não há dúvida que é um incentivo motivacional digno de um gestor de topo da Autoeuropa.
O Homem: — Estás a armar-te em engraçadinho? Vê lá se queres levar um par de estalos?
Segurança: — Ó senhor, para me dar um par de estalos teria de tirar as mãos dos bolsos, e aí ainda se arriscava a apanhar uma constipação nos dedos.
A Mulher (chegando perto, a bufar): — Deixe estar, senhor guarda. Ele é assim.
Segurança: — Eu percebo, minha senhora. O senhor é um descendente directo do Paleolítico. Um”Australopithecus” puro. Só assim é que eu entendo que o queira preservar…
O Homem: — Vamos mas é embora! Não dês trela a esse palhaço…
Segurança: — Isso, siga caminho! Tenham um dia cheio de harmonia… e cuidado para não escorregar na própria masculinidade, olhe que ela está aí no chão, algures entre o saco que caiu e a sua imoralidade.
E lá foram eles. Ele à frente, a marcar o passo da evolução humana; ela atrás, a carregar o jantar e o peso morto de um casamento. Inseparáveis. Como a humidade e o mofo.
Falta, perdoarão, da parte dele a sonoramente elaborada e expelida escarradela (provavelmente vertida entre as duas referências vernaculares ao órgão copulador masculino).
Aí sim, teríamos sólida manifestação de tugalidade.
Homem que é homem carrega os pesos. Isso deve ser uma feminista.
Já nem me lembro de ver (e ouvir) uma cena assim, conservo apenas uns vagos resquícios de coisa tão… suburbana. Do tempo em que também se podia assistir a “correctivos” maritais na via pública, que disso sim, vi alguns e lembro-me bem.
E mulher a dizer palavrões tão cabeludos só vi no Porto, no Bolhão, e não ia acompanhada, nem mal, nem bem, embora também fosse ajoujada de sacos.
Nem através da TVI ou da CMTV acedemos a este universo português dos “feios, porcos e maus”, a este prodigioso banho de realidade. Continue a esforçar-se caro autor, ainda pode chegar a representante da estética literária do PCP, uma nova espécie de realismo a meio caminho entre o Soeiro Pereira Gomes e o Raul Minh’alma.
E continue a escrever, com o tempo vai ver que melhora muito. Com palito na boca.
Viva liberdade de expressão!